THE ENGLISH MEN
Francisco Castro e Sousa … um homem conhecido … muito conhecido … em Castelo Branco e practicamente em todo Portugal … tambem em Espanha, onde tinha contactos, principalmente em Sevilha onde esperava instalar, a curto prazo, uma sucursal da sua empresa …
A vida corria-lhe bem … 55 anos … formado em Administraçäo de Empresas … conhecido tambem pelos seus hobbies … os carros … a pesca …
Reconquista, o principal, e mais antigo, jornal da cidade tinha-lhe dedicado toda uma pagina, considerando-o um “empresario de sucesso”.
Como pessoa, Francisco … Chico, para o reduzido numeros de amigos que tinha … era educado … digno … conhecido pelo seu elevado grau de exigencia … principalmente com os horarios …
Por isso tinha ganho o apelido de “THE ENGLISH MEN” …
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Francisco olhou para o ceu … näo iria chover … conduzia pela Avenida LAS PALMERAS, uma das mais conhecidas de Sevilla … uma das mais belas do mundo …
Estava na capital andaluza para uma reuniäo com os seus advogados espanhóis sobre diligencias processuais da futura sucursal.
A reuniäo estava marcada para o Prado de San Sebastián.
Já conhecia bem a cidade e tinha alguns truques … nunca levar carro para zonas centrais onde era dificil estacionar … por isso procurava um sitio na avenida.
Encontrou um espaço rapidamente.
Dispos-se a atravessar o Parque de Maria Luisa até à Praça de Espanha.
Daí ao Prado eram uns 200 metros.
Olhou para o relogio … 18.30h … era novembro … já quase tinha escurecido …
Dentro, a uns metros da entrada, um homem de aspecto um pouco sujo … cabelo desalinhado … estava sentado num dos bancos de pedra …
— Uma moeda, senhor … por favor …
Francisco näo gostava de mendigos … respondeu secamente …
— E para que queres uma moeda?
— Para comer, senhor …
— Para comer há que trabalhar. Que idade tens ?! … 40 ?! … 45 ?!!
— Tenho 38, senhor …
— Pois é uma boa idade e um bom corpo para ganhar a vida !
— Despediram-me, senhor … agora näo consigo encontrar nada para trabalhar … terminei o tempo do subsidio de desemprego … e nada … perdi a minha familia … a minha casa …
— Näo me venhas com essas historias! … Sentas-te aí esperando que as moedas te caiam do céu ?!!?
— Que mais posso eu fazer, senhor? … tenho de comer …
— Usa a tua imaginaçäo … tens habilidades com as mäos ? … faz manualidades e vende-as aquí … es dos que gostam de escrever ? Pois escreve poemas … pequenos textos … e vende-os aquí … que te consigas moedas … mas em troca de alguma coisa … o que estás a fazer agora é de uma completa inutilidade.
O mendigo olhava-o com um ar triste.
— Entäo … näo me vai dar uma moeda?
— Claro que näo. Näo vou alimentar algo que repudio totalmente … arrebita, homem … faz algo util à sociedade e a sociedade te dará a sua recompensa … lei do mercado … dar e receber …
Dizendo isto voltou-lhe as costas e seguiu o seu caminho …
Quase a chegar à Praça de Espanha já era noite total.
— Senhor!
Outro mendigo? Assim näo conseguia chegar à reuniäo …
Olhou na direcçäo da voz … dois homens … bem vestidos … pareciam jovens …
— Espere, senhor.
— Tenho pressa.
— Pressa ?! Para qué ?! Para morrer ?!!
A expressäo impactou-o um pouco … parou e olhou-os de frente … já só estava um …
— Que queres ?!
— Depende … que tens ?! Relogio ?! Anéis ?! Telemóvel ?!
Entäo compreendeu … era um assalto !!!
Mas Francisco nunca sentia medo.
Sempre dizia que a linha que separa a coragem da inconsciencia era muito fina … e, no seu caso particular … era inexistente …
Por isso … avançou para o assaltante.
Esse movimento destemido surpreendeu o jovem que, durante alguns segundos, ficou parado.
Alguns anos de treino de kung fu davam a Francisco ainda mais auto segurança …
Por isso lançou o primeiro murro que apanhou o assaltante perto da orelha … deu-lhe um segundo que fez o jovem retroceder alguns metros … entäo … algo muito duro bateu-lhe por tras na base da cabeça … … caiu de joelhos … com a visäo já debilitada viu o segundo assaltante com uma barra na mäo … tentou por-se de pé … um segundo golpe, quase no mesmo sitio do primeiro tombou-o por completo …
— Eh! Vocês! Deixem esse homem!
Antes de desmaiar viu como um vulto se colocava entre ele e os ladröes … depois tudo ficou negro … como a noite …
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Abriu os olhos … muito lentamente …
Imediatamente compreendeu que estava num hospital …
Tentou mecher-se … a forte dor de cabeça fez-lhe dar um pequeno grito …
Apareceu uma enfermeira.
— Acordou, senhor Francisco. Como se sente?
— Olá … sinto-me como se tivesse levado uma tareia …
A enfermeira fez uma tentativa de sorrir …
— Porque é verdade … o senhor levou mesmo uma tareia …
— Onde estou? … quero dizer … sei que estou num hospital … mas em qual ?!
— Estamos no Hospital Virgem do Rocio, senhor Francisco. Virá a falar consigo um agente da policia. Está no corredor á espera que o senhor se recupere.
— Ok. Por mim, que entre.
O agente entrou e apresentou-se.
— Lembra-se do que aconteceu, senhor Francisco?
— Recordo dois individuos e que um deles me bateu por tras com algo duro … taco de beisebol, talvez … penso que me deu por duas vezes … depois … nada mais …
— Alguem o ajudou … conseguiu parar o ataque e chamar a policia … os assaltantes já estäo presos …
— Que eficácia!
— Precisamos que, quando saia daqui, passe pela esquadra para identificar os individuos.
— Claro que sim … quem é a pessoa que me ajudou ?!
— Um sevilhano … se quer poderá conhecê-lo na esquadra.
A saida do policia coincidiu com a entrada de um medico.
Senhor Francisco … como está ?
— Doi-me a cabeça … mas sinto-me bem.
— Tem dois traumatismos exteriores … quero dizer … dois belos galos que näo chegaram a fracturar a caixa craneo encefálica … nada grave … esteve em observaçäo estes dias … mas vou-lhe dar alta agora mesmo.
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O ar fresco da rua fê-lo despertar por completo.
A dor de cabeça era suportavel … agora tinha que por-se em contacto com a sua gente … mas a primeira paragem seria na Policia Local.
Levaram-no para uma sala com um vidro grosso … do outro lado estavam 5 homens.
Imediatamente reconheceu os dois que se tinham cruzado com ele no parque … näo tinha duvidas …
— Muito obrigado, senhor Francisco … temos o seu numero … se for necessario entraremos em contacto …
— Muito bem. Mais uma coisa … Gostava de conhecer a pessoa que me defendeu.
— Por acaso está agora mesmo na sala de identificaçäo … espere um pouco e poderá falar com ele.
— Sim, claro … esperarei …
Entrou na pequena sala vazia que le indicava o policia e sentou-se.
Poucos minutos depois abriu-se a porta …
Francisco levantou-se de um salto demonstrando toda a sua surpresa.
— Tu ?!!!?
— Bons dias, senhor … desculpe … näo sei como se chama …
Na sua frente estava o mendigo com quem tinha cruzado algumas palavras na entrada do Parque de Maria Luisa … o mesmo a quem recusara uma moeda …
— Mas … como ?! Como pudeste controlar aqueles dois ?!?!
— Trabalho desde muito jovem como segurança … tenho a formaçäo da Prosegur … aí trabalhei … até que decidiram reduzir pessoal … entre outros … calhou-me a mim …
Francisco olhou-o atentamente … continuava com ar desalinhado … e a mesma roupa do outro dia …
Aproximou-se dele e esticou-lhe a mäo aberta.
— Obrigado. Muito obrigado … como te chamas ?!
— Sou Sandro, senhor … Sandro Gonzalez.
— Eu sou Francisco Castro e Sousa … uma vez mais … obrigado, Sandro.
Apertaram as mäos … um acto sincero … expontáneo …
Sandro ia a sair da sala …
— Espera Sandro.
— Diga … senhor Francisco …
— É verdade que procuras trabalho ?
— É verdade, sim senhor.
— Queres trabalhar para mim ?!?
— Para o senhor ?!!!!
— Deixa-me explicar-te … sou português e estou em Sevilha para ultimar os papéis para comprar um pavilhäo no poligono industrial Carretilla Amarilla. Aí vou instalar a minha empresa.
— E quer que trabalhe como segurança para a sua empresa?!
— Näo.
— Entäo näo compreendo … senhor.
— Gostava de deixar todo o plano de vigilancia a teu cargo. Queres ser o meu responsavel por toda a segurança ?
Os olhos de Sandro brilharam …
— Claro que sim, senhor Francisco …
— Muito bem. Vamos comprar-te roupa e melhorar visualmente o teu aspecto. Começarás por acompanhar-me nas proximas reuniöes.
— Muitissimo obrigado …
— Näo. Näo. Sou eu quem tem de agradecer-te … Vamos?!
— Uma coisa, senhor Francisco … como devo trata-lo em publico?
— Oficialmente serei o senhor Sousa … em privado chame-me como o faz todo o mundo quando eu näo oiço … THE ENGLISH MEN
FIM

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