lunes, 16 de enero de 2023

THE ENGLISH MEN - jorge peres

 


                            THE ENGLISH MEN


    Francisco Castro e Sousa … um homem conhecido … muito conhecido … em Castelo Branco e practicamente em todo Portugal … tambem em Espanha, onde tinha contactos, principalmente em Sevilha onde esperava instalar, a curto prazo, uma sucursal da sua empresa …

    A vida corria-lhe bem … 55 anos … formado em Administraçäo de Empresas … conhecido tambem pelos seus hobbies … os carros … a pesca …

    Reconquista, o principal, e mais antigo, jornal da cidade tinha-lhe dedicado toda uma pagina, considerando-o um “empresario de sucesso”.

    Como pessoa, Francisco … Chico, para o reduzido numeros de amigos que tinha … era educado … digno … conhecido pelo seu elevado grau de exigencia … principalmente com os horarios …

    Por isso tinha ganho o apelido de “THE ENGLISH MEN” …


                                    ---------//-------


    Francisco olhou para o ceu … näo iria chover … conduzia pela Avenida LAS PALMERAS, uma das mais conhecidas de Sevilla … uma das mais belas do mundo …

    Estava na capital andaluza para uma reuniäo com os seus advogados espanhóis sobre diligencias processuais da futura sucursal.

    A reuniäo estava marcada para o Prado de San Sebastián.

    Já conhecia bem a cidade e tinha alguns truques … nunca levar carro para zonas centrais onde era dificil estacionar … por isso procurava um sitio na avenida.

    Encontrou um espaço rapidamente.

    Dispos-se a atravessar o Parque de Maria Luisa até à Praça de Espanha.

    Daí ao Prado eram uns 200 metros.

    Olhou para o relogio … 18.30h … era novembro … já quase tinha escurecido …

    Dentro, a uns metros da entrada, um homem de aspecto um pouco sujo … cabelo desalinhado … estava sentado num dos bancos de pedra …

Uma moeda, senhor … por favor …

    Francisco näo gostava de mendigos … respondeu secamente …

E para que queres uma moeda?

Para comer, senhor …

Para comer há que trabalhar. Que idade tens ?! … 40 ?! … 45 ?!!

Tenho 38, senhor …

Pois é uma boa idade e um bom corpo para ganhar a vida !

Despediram-me, senhor … agora näo consigo encontrar nada para trabalhar … terminei o tempo do subsidio de desemprego … e nada … perdi a minha familia … a minha casa …

Näo me venhas com essas historias! … Sentas-te aí esperando que as moedas te caiam do céu ?!!?

Que mais posso eu fazer, senhor? … tenho de comer …

Usa a tua imaginaçäo … tens habilidades com as mäos ? … faz manualidades e vende-as aquí … es dos que gostam de escrever ? Pois escreve poemas … pequenos textos … e vende-os aquí … que te consigas moedas … mas em troca de alguma coisa … o que estás a fazer agora é de uma completa inutilidade.

    O mendigo olhava-o com um ar triste.

Entäo … näo me vai dar uma moeda?

Claro que näo. Näo vou alimentar algo que repudio totalmente … arrebita, homem … faz algo util à sociedade e a sociedade te dará a sua recompensa … lei do mercado … dar e receber …

    Dizendo isto voltou-lhe as costas e seguiu o seu caminho …

    Quase a chegar à Praça de Espanha já era noite total.

Senhor!

    Outro mendigo? Assim näo conseguia chegar à reuniäo …

    Olhou na direcçäo da voz … dois homens … bem vestidos … pareciam jovens …

Espere, senhor.

Tenho pressa.

Pressa ?! Para qué ?! Para morrer ?!!

    A expressäo impactou-o um pouco … parou e olhou-os de frente … já só estava um …

Que queres ?!

Depende … que tens ?! Relogio ?! Anéis ?! Telemóvel ?!

    Entäo compreendeu … era um assalto !!!

    Mas Francisco nunca sentia medo.

    Sempre dizia que a linha que separa a coragem da inconsciencia era muito fina … e, no seu caso particular … era inexistente …

    Por isso … avançou para o assaltante.

    Esse movimento destemido surpreendeu o jovem que, durante alguns segundos, ficou parado.

    Alguns anos de treino de kung fu davam a Francisco ainda mais auto segurança …

    Por isso lançou o primeiro murro que apanhou o assaltante perto da orelha … deu-lhe um segundo que fez o jovem retroceder alguns metros … entäo … algo muito duro bateu-lhe por tras na base da cabeça … … caiu de joelhos … com a visäo já debilitada viu o segundo assaltante com uma barra na mäo … tentou por-se de pé … um segundo golpe, quase no mesmo sitio do primeiro tombou-o por completo …

Eh! Vocês! Deixem esse homem!

    Antes de desmaiar viu como um vulto se colocava entre ele e os ladröes … depois tudo ficou negro … como a noite …


                                        --------//--------


    Abriu os olhos … muito lentamente …

    Imediatamente compreendeu que estava num hospital …

    Tentou mecher-se … a forte dor de cabeça fez-lhe dar um pequeno grito …

    Apareceu uma enfermeira.

Acordou, senhor Francisco. Como se sente?

Olá … sinto-me como se tivesse levado uma tareia …

    A enfermeira fez uma tentativa de sorrir …

Porque é verdade … o senhor levou mesmo uma tareia …

Onde estou? … quero dizer … sei que estou num hospital … mas em qual ?!

Estamos no Hospital Virgem do Rocio, senhor Francisco. Virá a falar consigo um agente da policia. Está no corredor á espera que o senhor se recupere.

Ok. Por mim, que entre.

    O agente entrou e apresentou-se.

Lembra-se do que aconteceu, senhor Francisco?

Recordo dois individuos e que um deles me bateu por tras com algo duro … taco de beisebol, talvez … penso que me deu por duas vezes … depois … nada mais …

Alguem o ajudou … conseguiu parar o ataque e chamar a policia … os assaltantes já estäo presos …

Que eficácia!

Precisamos que, quando saia daqui, passe pela esquadra para identificar os individuos.

Claro que sim … quem é a pessoa que me ajudou ?!

Um sevilhano … se quer poderá conhecê-lo na esquadra.

    A saida do policia coincidiu com a entrada de um medico.

    Senhor Francisco … como está ?

Doi-me a cabeça … mas sinto-me bem.

Tem dois traumatismos exteriores … quero dizer … dois belos galos que näo chegaram a fracturar a caixa craneo encefálica … nada grave … esteve em observaçäo estes dias … mas vou-lhe dar alta agora mesmo.


                                ----------//----------


    O ar fresco da rua fê-lo despertar por completo.

    A dor de cabeça era suportavel … agora tinha que por-se em contacto com a sua gente … mas a primeira paragem seria na Policia Local.

    Levaram-no para uma sala com um vidro grosso … do outro lado estavam 5 homens.

    Imediatamente reconheceu os dois que se tinham cruzado com ele no parque … näo tinha duvidas …

Muito obrigado, senhor Francisco … temos o seu numero … se for necessario entraremos em contacto …

Muito bem. Mais uma coisa … Gostava de conhecer a pessoa que me defendeu.

Por acaso está agora mesmo na sala de identificaçäo … espere um pouco e poderá falar com ele.

Sim, claro … esperarei …

    Entrou na pequena sala vazia que le indicava o policia e sentou-se.

    Poucos minutos depois abriu-se a porta …

    Francisco levantou-se de um salto demonstrando toda a sua surpresa.

Tu ?!!!?

Bons dias, senhor … desculpe … näo sei como se chama …

    Na sua frente estava o mendigo com quem tinha cruzado algumas palavras na entrada do Parque de Maria Luisa … o mesmo a quem recusara uma moeda …

Mas … como ?! Como pudeste controlar aqueles dois ?!?!

Trabalho desde muito jovem como segurança … tenho a formaçäo da Prosegur … aí trabalhei … até que decidiram reduzir pessoal … entre outros … calhou-me a mim …

    Francisco olhou-o atentamente … continuava com ar desalinhado … e a mesma roupa do outro dia …

    Aproximou-se dele e esticou-lhe a mäo aberta.

Obrigado. Muito obrigado … como te chamas ?!

Sou Sandro, senhor … Sandro Gonzalez.

Eu sou Francisco Castro e Sousa … uma vez mais … obrigado, Sandro.

    Apertaram as mäos … um acto sincero … expontáneo …

    Sandro ia a sair da sala …

Espera Sandro.

Diga … senhor Francisco …

É verdade que procuras trabalho ?

É verdade, sim senhor.

Queres trabalhar para mim ?!?

Para o senhor ?!!!!

Deixa-me explicar-te … sou português e estou em Sevilha para ultimar os papéis para comprar um pavilhäo no poligono industrial Carretilla Amarilla. Aí vou instalar a minha empresa.

E quer que trabalhe como segurança para a sua empresa?!

Näo.

Entäo näo compreendo … senhor.

Gostava de deixar todo o plano de vigilancia a teu cargo. Queres ser o meu responsavel por toda a segurança ?

    Os olhos de Sandro brilharam …

Claro que sim, senhor Francisco …

Muito bem. Vamos comprar-te roupa e melhorar visualmente o teu aspecto. Começarás por acompanhar-me nas proximas reuniöes.

Muitissimo obrigado …

Näo. Näo. Sou eu quem tem de agradecer-te … Vamos?!

Uma coisa, senhor Francisco … como devo trata-lo em publico?

Oficialmente serei o senhor Sousa … em privado chame-me como o faz todo o mundo quando eu näo oiço … THE ENGLISH MEN



                                        FIM






miércoles, 11 de enero de 2023

FELIZ NATAL, PEQUENOS - jorge peres

 

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                       FELIZ NATAL, PEQUENOS …


    Gui … Tim … Alex … três irmäos …

    Alexandre, ( Alex ), tem seis anos …

    Guilherme, ( Gui ), e Tim säo gémeos e têm quatro anos …

    Tinham arrastado um dos sofás até perto da janela … subidos nele olhavam pelos vidros duplos … nevava … e muito … gostavam de estar em casa … desfrutando do calor que vinha dos radiadores de água quente … lá fora, a avenida do Oeste já estava, quase por completo, pintada de branco … só onde passavam os carros se mantinha escuro …

    Era dezembro … aproximavam-se as festividades do Natal e dos Reis …

Temos que conversar … rapazes .

    Alex, o mais velho dos irmäos era sempre o mais sério …

Uma conversa como as que têm os adultos?!

Sim, Tim … como os adultos …

Ok. Estou preparado — Gui saltou do sofá e sentou-se no chäo de madeira flutuante.

Olhem ! Temos que falar com o papá e a mamä …

Sim, Alex … Chegou o momento de lhes contar …

E como vamos fazer isso ?!!?

Pois … näo sei … pedimos que se sentem aqui no chäo, connosco … e falamos a serio …

O papá e a mamä väo ficar tristes …

Pode ser que sim, Gui … näo vai ser nada fácil para eles …

Pobrezitos … — Tim já estava triste, só de imaginar …

E os avós … nem te conto …

Primeiro falamos com os pais … dos avós trataremos depois.

    Estavam todos de acordo.

    Tim levantou a mäo …

Com os avós posso falar eu …

Claro! Que esperto ! - Alex continuava sério … — escolhes sempre a tarefa mais fácil, näo é verdade ?!

    Fez-se um momento de silêncio.

Meninos! Que fazem aí no chäo ?!

Estamos a brincar, mamä.

Vamos … a lavar as mäos … hora de almoçar …

    Correram os três tentando cada um chegar em primeiro lugar à casa de banho.

    Poucos minutos depois estavam todos sentados à mesa … bem … todos menos o pai, que trabalhando em Madrid só regressava a Alcorcón perto da hora de jantar.

    Depois ajudaram a mäe a levantar a mesa e enquanto ela limpava a cozinha eles voltaram ao chäo da sala.

Olha, Alex … — falava Gui — penso que, como irmäo mais velho deves ser tu a falar com o papá e a mamä.

    Tim acenou com a cabeça afirmativamente.

    Alex olhou para os irmäos em silêncio … sério, como sempre … ser o mais velho às vezes era um peso …

Está bem! Sempre me toca a mim o mais dificil … ok … falarei eu … mas com uma condiçäo …

Qual ?!

Eu falo … mas quero que estejamos os três juntos nesse momento …

    Os outros esticaram o braço direito de maneira a que as três mäos ficassem sobrepostas … tinham um ritual para os momentos importantes …

Quem somos ?! — gritava Alex … Quem somos ?!!!!

Os manoooooos !!! — responderam todos em coro.

    Desde a cozinha a mäe sorria … gostava de sentir que os seus filhos estavam bem unidos … fosse qual fosse o tema …


                                        ------//------


    As oito da noite era uma hora mágica da familia … no momento em que o pai metia a chave na porta da rua e entrava em casa …

Papi ! Papi ! Papi !

    Era sempre uma festa … Josué, o pai, acabava no chäo com os pequenos saltando-lhe em cima como se fosse o sofá …

    Sempre tinha que vir Lorena, a mäe, em sua ajuda …

Meninos! Deixem respirar o vosso pai … acaba de chegar … trabalhou todo o dia e está cansado …

    Tudo isto se repetia de segunda a sexta feira …

    Durante o jantar, Josué notou que os “diabretes” dos seus filhos estavam muito silenciosos …

O que se passa com vocês, filhotes ?!

Estamos preocupados, papá. — aquelas palavras, vindo de Tim, com quatro aninhos recém cumpridos, davam-lhe vontade de rir … mas conseguiu manter-se sério …

    Olhou para sua esposa que parecia ter mais dificuldades em conter o riso …

E … porque estäo preocupados ?!!?

    Os gémeos olharam ao mesmo tempo para o irmäo mais velho.

Depois do jantar temos que falar com vocês os dois … — Alex falou com uma voz grave, tentando aproximar-se, o máximo possivel, do que seria o tom de voz de um adulto.

Ah! Sim ! E sobre que tema? — agora Josué começava a sentir que havia algo importante no ar …

Depois de jantar, papá !

    Os dois progenitores olharam-se com ar intrigado …

    Pouco mais de meia hora depois os pai juntaram-se a eles … sentaram-se todos na carpete da sala, formando um circulo quase perfeito …

Aqui estamos … já podem falar …

    Como estava combinado, Alex tomou a palavra.

Papá … mamä … há muito tempo que temos algo para vos dizer … e este é o melhor momento — olhou para os irmäos procurando aprovaçäo …

    Todos abanaram a cabeça em sinal de aprovaçäo … o pequeno Gui acrescentou …

Mas näo queremos que fiquem tristes …

    Agora eram os adultos que estavam preocupados … o assunto parecia sério … que se teria passado ?!!!?

    Josué ia passando os olhos pelos móveis da sala procurando a falta de alguma coisa ou algo partido que pudesse estar na base de toda aquela conversa … mas tudo parecia estar bem e no seu sitio … concentrou-se em Alex esperando o final …

O que vos queremos dizer é … que já podem deixar de fingir …

Fingir ?!? — o pai e a mäe responderam ao mesmo tempo …

Sim! Nós já sabemos tudo!

Pode-se saber do que estamos a falar ?!!?!!?!!?

Sabemos que näo säo os Reis Magos, nem o Pai Natal, quem traz os presentes.

    Outro momentro de silêncio.

Ah! Näo !!!?? E entäo quem é ?!

Vocês! … Säo vocês quem os compra ,,,

E tu como sabes isso ?!

    Tim antecipou - se.

Compram-os e depois escondem na arrecadaçäo da cozinha … na prateleira de cima … onde näo chegamos …

    Gui levantou a mäo …

E há outra coisa … conta-lhes Alex …

    Outra vez as atençöes voltaram a centrar-se em Alex …

É verdade ! Encontrámos a caixa de cartäo onde têm guardadas as cartas que escrevemos nos últimos anos aos Reis …

    Lorena näo aguentou mais e soltou uma gargalhada a que se juntou o marido.

    Os filhos olharam-se surpreendidos.

Näo estäo tristes ?!

Claro que näo … venham cá …

    Formou-se um intenso abraço de familia … näo tinham dúvidas … os seus meninos estavam a crescer muito depressa … talvez demasiado …

Uma coisa, mamä …

Diz-me Tim.

Podemos continuar a escrever as cartas nos próximos anos … ?

Claro que sim — foi Josué quem respondeu — só que agora em vez de dirigi-las aos Reis Magos …

Escrevemos para vocês — os três filhos falaram em coro.

Exato … muito bem … — os adultos estavam emocionados … — Feliz Natal, pequenos …


                            fim (quase )


    Com bastante mais de meio século de vida, eu ainda sou do tempo em que as prendas eram trazidas pelo “menino Jesus” … bastante mais tarde, e graças à Coca Cola, reactivou-se em todo o mundo a tradiçäo de Santa Klaus … o Pai Natal …

    Se imaginar um menino recém nascido a descer pela chaminé às 00 horas de 24 para 25 de dezembro já para mim era dificil, tornou-se quase impossivel que depois o passasse a fazer um homem de vermelho, com uma considerável barriguita.

    Há uns 20 anos vim viver para Espanha.

    Aqui os presentes säo trazidos pelos Reis Magos, na noite de 05 para 06 de janeiro.

    Sobre como lidar com as crianças com este tema … näo vou fazer comentários …


                            fim (agora sim )

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lunes, 9 de enero de 2023

O GRANDE MELCHIOR - jorge peres

 


                            O GRANDE MELCHIOR


    Sentia-se perdido … Näo compreendia nada … Onde estava ?! Num bosque ?! Numa floresta ?! Olhava á sua volta … eram arvores estranhas … plantas que jamais tinha visto na sua vida … e o chäo … como um carreiro … mas muito largo … pelas dimensöes por ai passaria muita gente … talvez sim … mas noutro momento, porque agora mesmo näo se via ninguém … o som de varios tipos de aves dava ao ambiente uma sensaçäo quase paradisíaca que o fazia sentir bem …

    Decidiu caminhar … o dificil era decidir-se por que direcçäo … olhou para o sol … iria para Este …

Melchior ! Melchior !

    Quem o chamava pelo seu nome ?!?

    Olhou na direcçäo da voz … aproximava-se uma criança …

    O seu aspecto era diferente … cabelo curto … vestia de uma maneira como nunca vira antes … mas com um aspecto muito limpo …

Diz-me, jovencito … tu conheces-me ?!

Claro! Tu es Melchior … um rei mago …

Sim. É verdade. Sou Melchior … rei … … é um pouco exagerado …

Tu es um dos que nos trazem os presentes.

Presentes ?!!?

Sim. Todos te conhecem … posso tirar uma foto contigo ?

Foto ?!!?

Sim … anda … vamos fazer uma selfie rápido.

Selfie ?!!?

    Aquele pequeño falava de uma maneira que surpreendia em cada palavra … tinha uma fluencia no modo como se relacionava com uma pessoa mais velha que era incrível … e agora tinha na mäo … algo rectangular … que tinha … uma luz ?!!?

Sorri.

Eu ?!!? Porquê ?!!?

    Agora já näo tinha dúvidas … o artefacto era mágico … nele aparecia uma imagem de eles dois … como era possivel ?!!?

Como te chamas, filho ?

Eu chamo-me Abel.

E diz-me, Abel, onde estamos?

Estamos no Parque de Maria Luisa.

    Melchior fez uma cara de quem näo fazia ideia.

Chama-se assim este povoado?

Povoado ?! No ?! Esse é o nome do parque onde estamos … esta é a cidade de Sevilla.

Sevilha ?!? Näo conheço …

    O rapaz voltou a pegar no objecto mágico, tocou-lhe com o dedo e mostrou-lhe um mapa.

    Melchior, com alguma dificuldade reconheceu o que via.

Esse mapa está mal!

Mal ?! — Abel soltou uma pequena gargalhada — é a ultima aplicaçäo do Google … e está actualizada …

    Continuava a utilizar palavras estranhas … mas aquele mapa näo era o que ele conhecia, ainda que podia situar-se nele.

Aquí perto passa o rio Tartesso, verdade ?!

Näo. Este, aquí no mapa, é o rio Guadalquivir.

    Melchior começava a compreender … estava onde ele pensava que estava … mas existiam coisas diferentes …

Voltou a olhar o mapa … mas … onde estava o mar ?!!?

Ven Melchior. Quero mostrar-te uma coisa.

    O rapaz pegou-lhe na mäo e, literalmente, arrastou-o pelo parque … mal lhe dava tempo para ver tantas coisas novas … mas o que encontrou depois deixou-o sem fala …

Isto é … uma povoaçäo … grande …

Que dizes ?!? — Abel estava cada vez mais divertido — é a Praça de Espanha …

    Para Melchior tudo era grandioso … se atreveria mesmo a dizer … majestoso …

O meu pai contou-me que se gravaram aquí algumas cenas do filme “Lawrence da Arabia” e de “Star Wars”.

    Melchior já nem apontava as coisas que näo compreendia … ali havía gente … pessoas … homens … mulheres … meninos … meninas … todos vestindo de una maneira estranha … para ele … mas respirava-se um ar de alegria … paz … sentia-se bem ali …

Senta-te aquí comigo — um banco bonito, feito de pedra, revestido de cerâmica pintada — olha, Melchior … gosto muito de estar aquí a olhar para toda esta gente …

    O mago continuava atento a tudo … chamava-lhe muito a atençäo umas caixas com rodas e com cavalos amestrados … levavam gente dentro … que moderno …

E diz-me, Melchior … porque vens täo cedo?

Cedo ?!!?

Sim. É suposto que tu e os outros dois só cheguem a 6 de janeiro … ainda estamos em dezembro.

Outros dois ?!!?

Ai! Melchior … já estás muito velhinho … já te esqueces que formas parte dos tres reis magos ?! Os que, noutros tempos, foram adorar o menino Jesus e levar-lhe presentes ?!

    Finalmente ouvia algo que lhe soava a conhecido.

    Falaria o rapaz de Jesus Cristo ?! … mas … porque tinha mencionado tres reis magos ?!!?

Olha Abel. Vou-te contar. Nós só eramos dois … eu e o Gaspar.

Ai! Ai! Esqueces-te de Baltazar … o rei negro ?!

Näo, rapaz … näo havía nenhum rei negro … e de uma vez por todas … näo somos reis … somos estudiosos … alguns chamam-nos sabios … outros, magos …

    Abel começava a sentir-se triste … Melchior näo lhe contava a mesma historia que tinha ouvido aos seus pais.

E esse, Jesus de que falas … é Cristo? O rei dos judeus ?

Näo … é o filho de Deus …

    Uma vez mais, Melchior ficou surpreendido … estava tudo muito confuso … começava a dar-se conta que o rapaz estava triste.

    Colocou-lhe o braço pelos ombros e apertou-o contra o peito.

Desculpa, Abel … tens razäo … já tenho muitos anos … as vezes digo coisas sem sentido …

    Abel olhou-o com ternura.

Compreendo-te … näo te preocupes … eu cuido de ti.

Conta-me tudo o que sabes, Abel … a ver se assim recupero a minha memoria …

    Durante a hora seguinte o rapaz repetiu-lhe tudo o que lhe tinham ensinado os seus pais … às vezes os seus avós … alguns professores da escola …

    Melchior ouviu-o atentamente e ficou convencido … estava noutra época … sem saber como tinha dado um salto no tempo.

Diz-me, Abel … em que ano estamos ?

2022 … porqué ?!

    Ainda que näo identificasse o calendario por que se regia Abel soube que tinha avançado no tempo uns dois mil anos … mas continuava a näo compreender porque tinham alterado a historia.

    Abel mostrou-lhe, naquele “estranho” aparelho, a que chamava telemóvel, umas imagens de pessoas disfarçadas de magos.

Ves, Melchior ? Todos os anos há pessoas que se vestem assim e mostram como os REIS MAGOS viajaram desde o oriente até Belem, ao palheiro onde nasceu Jesus.

    Sorriu para o pequeno … já näo lhe disse que os magos näo partiram do oriente mas sim de Tartessos … tambem já näo iria mencionar que Jesus nasceu numa gruta e näo num palheiro … näo queria voltar a deixar o pequeno triste …

    Mas agora era o momento de pensar em voltar.

    Antes de dar o salto no tempo lembrava-se que tinha na mäo uma pequena piramide de cristal que tinha encontrado junto ao rio … procurou num dos seus bolsos … sim … ainda a tinha consigo … mas antes tinha que fazer outra coisa.

Abel …

Sim, Melchior !

Tenho que ir-me embora … mas näo quero que fiques triste …

Näo faz mal, Melchior … eu sei que voltarás no dia 6.

Olha, filho … vou-te deixar um presente.

Um presente ?!! Para mim ?!!

Bom … na verdade é para ti e para a tua familia.

    O velho mago tirou de outro bolso uma pedra amarela do tamanho de um ovo de galinha.

Abel. Quero que a guardes com muito cuidado e que a dês ao teu pai … diz-lhe que é ouro … certamente que ele saberá o que fazer.

    Abraçaram-se e Melchior levantou-se … iria até um sitio com menos gente e manipularia a piramide … estava seguro que assim poderia voltar a casa …

    Ao longe viu como um homem chamava Abel e como este lhe dava a pedra.

Melchior ! Melchior !

    Varios meninos aproximavam-se quando ele descia a pequena ponte sobre o rio artificial.

Olhem !…! é Melchior … vamos pedir-lhe uma foto de grupo.

    No fundo ao mago encantavam-lhe aquelas manifestaçöes de afecto por parte dos mais pequenos.

    Depois de uns dez minutos, Melchior seguiu o caminho inverso que tinha feito com Abel.

    Este era um mundo muito diferente ao seu … mas sentia-se feliz … 2000 anos depois continuava a ser … o grande Melchior.


                            Fim (quase )


    Complicado! As vezes somos reféns das histórias que inventamos para cativar os nossos filhos … a Biblia fala de tres reis magos … mas a biblia como a conhecemos hoje é un livro do imperador romano Constantino, que se converteu ao catolicismo e mandou reunir os muitos livros que falavam da historia de Cristo e dos seus antecedentes … näo sem antes os ler pessoalmente e alterar e cortar o que chocava com a sua sensibilidade … estavamos no seculo V DC … a Biblia fala de magos vindos de Tartessia, espaço geográfico que incluí Andalucía, Algarve e parte do Alentejo portugués … näo especifica o número … a igreja ortodoxa britânica fala de 12 magos … imaginem viajar desde Andalucía, de camelo até ao Iraque (terra onde nasceu Cristo) … chegariam quando Jesus fosse para a escola ?! Aí vos deixo …


                                                    Fim ( agora sim )


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lunes, 2 de enero de 2023

LÚCIA ... a inconformista - jorge peres

     


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                          LÚCIA … A INCONFORMISTA …


    Lúcia sentia-se muito bem … a sua vida era tranquila …

    A suave luz que entrava, nem ela sabía bem de onde, espalhava-se por todo aquele lago interior.

    O silencio, quase total, só era interrompido por um doce borbulhar na agua.

    Lúcia, era uma pequena gota de água … uma no meio de centenas … talvez milhares de irmäs.

    Gostava da sua vida assim, mas … a poder escolher, tería preferido algo mais interessante … mais mexido … principalmente … com mais luz …

    Mas esses eram pensamentos seus que, nunca tinha partilhado com ninguem.

    A verdade é que, naquele meio, quase paradisíaco, a comunicaçäo primava pela quase ausencia.

    Absorvida nos seus pensamentos, sentiu que algo a despertava … algo diferente … algo novo … como que … muitas irmäs a correr.

Lúcia … está preparada!

    A repentina voz era de Doroteia, a sua tutora … uma gota maior … e a unica que, de quando em quando falava com ela … quase sempre para ensinar ou falar de mudanças …

    Lúcia sentia-se preparada … näo sabia nem para quê … mas estava pronta para aquilo que chamavam de “A VIAGEM” …

    O som estava cada vez mais perto … rapidamente recordou o que Doroteia lhe tinha dito, numa das ultimas conversas … “--- Quando se aproxime o tumulto tu relaxa … deixa-te levar ...”

    No escuro conseguiu vislumbrar um vulto … o som era cada vez mais forte … entäo sentiu que a faziam subir no ar … empurrada pelas suas irmäs começou uma corrida, cujo final näo conhecia … nem sabia quanto tempo duraria.

    Ia demasiado depressa … näo estava habituada … começava a enjoar …

   Inesperadamente, uma luz muito forte deixou-a momentaneamente cega.

    Agora compreendia o que lhe dizia Doroteia com insistencia …

Quando te levem, fecha os olhos.

    Pois … näo o fez … agora tudo estava demasiado branco para poder ver o que tinha á sua volta.

    Pouco a pouco, as coisas foram-se defenindo.

    Mas … que bonito … tudo muito verde … e com muito mais luz …

    Continuava a ser empurrada pelas irmäs, mas agora de uma maneira mais suave.

    Sentia-se muito emocionada … olhava á sua volta como querendo abraçar tudo …

    Outra irmäs juntaram-se a elas … agora ocupavam um espaço muito maior.

Lúcia. Como te sentes?

Muito bem, Doroteia … mas … que luz täo forte é esta ?!

É o sol … Lúcia … onde tinhas a cabeça quando te explicava as coisas ?!

    Sim … era verdade … a tutora tinha-lhe falado de muitas coisas … tantas … que era impossivel ficar com todas na sua cabeça.

Lúcia … está com atençäo … aproxima-se uma cascata …

“Cascata” … a palavra era-lhe familiar … outra das que falava Dorotea … mas já näo se lembrava do signicicado … pensou … pensou …

    De repente lembrou-se:

Cascaaaaaaaaataaaaa !!!!

    O ultimo fio dos seus pensamentos foi bruscamente interrompido por outra sensaçäo de queda no vazio … após alguns segundos voltou a tranquilidade … continuava deslizando … muito mais lentamente …

    Procurou á sua volta Doroteia … mas só via outras gotas de agua … todas muito serias … concentradas … como se fosse o momento mais importante das suas vidas …

Olá — tentou comunicar-se com a irmä mais próxima … mas esta olhou-a inexpressivamente sem responder.

E tu quem és, pequena gota de água ?! — uma voz grave e profunda vinha mesmo detrás dela.

    Girou o corpo redondo para ver quem era.

Eu sou Lúcia.

Olha sempre para a frente, Lúcia … ou podes te assustar! … Quem é a tua tutora?

Doroteia … ela estava ao pé de mim antes das cascata … mas agora näo a vejo …

Tranquila, pequenita … agora sou eu quem cuida de ti … e de todas …

Obrigada … e quem és tu?

Sou Rodolfo, o chefe de grupos … vi como olhavas á tua volta e como tentavas falar com as tuas irmäs …

Sim … tentei … mas nenhuma me respondeu …

Sabes !! näo é costume falar quando estamos nestes tramites.

O que é um tramite ?!

    Rodolfo sorriu com a inocencia de Lúcia.

Neste caso, tramite é esta viagem até ao nosso destino.

E qual é o nosso destino?

O mar … dirigimo-nos ao mar …

E o mar é grande?!

Sim, Lúcia … é muito grande … já verás …

    Lúcia ficou a pensar … o mar seria assim täo grande? … mas … ia em direcçäo do mar … onde estaria agora ?!!!

Estamos num rio — era a mesma voz … mas … ela näo tinha falado …

Sim, é verdade … mas como chefe de grupos leio os pensamentos de todas as gotas de agua que estäo debaixo da minha responsabilidade.

    Lúcia sentia-se cansada … afinal … o sitio escuro de onde vinha näo era assim täo mau …

    Passaram por um desfiladeiro … de repente … Lúcía ficou sem palabras … uuuauuu !!!!! quanta agua … uma extensäo a perder de vista … cheia de muitas gotas de agua … mas diferentes ,,,

Chegamos, Lúcia.

Sim. Já me dei conta … mas … estas irmäs … säo diferentes ?

É verdade. Säo gotas de agua salgada.

E isso o que é ?!

Vamos a ver como te explico … olha! O melhor é que näo te conte nada … terás que viver a experiencia … desejo-te sorte … Lúcia … já näo voltaremos a falar, tu e eu.

Ok! Adeus !

Tudo aquilo parecia muito estranho … mas era verdade … começava a notar mudanças … pouco a pouco sentiu-se mais leve … mais verde … lá no alto, o sol, que a tinha acompanhado em toda a viagem, parecia agora enorme … muito mais quente …

    E cada vez se sentia mais leve …

    De repente … sentiu que saía do grupo … voava ?!!! Sim !!! … estava a voar … que bom ! … agora podia ver tudo desde muito alto … e näo era a unica … muitas irmäs a acompanhavam … e agora falavam …

Irmä … vamos dar as mäos … que bonito é tudo isto …

Têm que permanecer unidas, meninas !

Doroteia … voltaste …?!

Olá, Lúcia … agora temos que estar perto umas das outras … todas juntas formaremos uma nuvem … vamos …

    A verdade é que pareciam um bloco compacto … cinzento … perto havia outras nuvens … iguais …

Deslizamos ?!?!

Sim, Lúcia … o vento empurra-nos.

E onde vamos agora ?!

Tranquila … faz menos perguntas e presta mais atençäo …

Mas eu gosto de compreender as coisas …

    Doroteia suspirou … sim … conhecia bem Lúcia … era uma gota muito boa … mas muito curiosa …

CUIDADO ! Agarrem-se !!!

    Bem á sua frente vinha outra nuvem … mas muito mais escura ...iam chocar … era inevitavel …

    E assim foi … do choque sairam faíscas …

    Com o impacto teve que abrir as mäos e soltar as outras gotas …

Caaiioooooo !!!!

    A sensaçäo de queda era muito desagradavel … sentiu vertigens … … outra vez enjoada …

    Olhou para baixo … já näo estava o mar … agora era uma floresta …

    Pensou que se podia magoar … mas caíu numa grande folha de uma arvore …

Ufff … já parou …

    Na mesma folha caiu outra irmä … depois outra … e outra …

    Com o peso a folha começou a dobrar-se … mais … mais … e de novo … caía …

Oh! Näo ! … Outra vez !!! …

    Desta vez a queda foi curta.

  Quando abriu os olhos estava no chäo, ao lado da arvore …

Lúcia … Anda … — era, de novo, Doroteia.

E agora o que se vai a passar ?!

Vem e deixa as preguntas, filha!

    Ela e algumas das suas irmäs seguiram a tutora.

    Abriam-se caminhos estreitos atravez da terra.

    Desciam … cada vez mais … por fim pararam todas em cima de uma grande pedra.

Lúcia. Agora temos que saltar.

Saltar ?! Mas está tudo täo escuro … näo se vê nada …

Confia em mim, Lúcia … salta !

Tenho medo … näo quero saltar …

Vamos ! Lúcia ! Deixa-te de infantilidades … já és uma gota adulta …

Tenho medo ! Näo queeerooooooooooo … …

    Näo pôde terminar … Doroteia tinha-a empurrado … de novo caía … mas agora completamente as cegas …

    Entäo notou que muitas irmäs a esperavam de braços abertos … amortizando a queda …

    Depois … silencio … um silencio só interrompido por um doce borbulhar na água …

Benvinda a casa, Lúcia …

    Bem lhe parecía … tinha regressado ao ponto de partida … que bom!

    Fechou os olhos e disfrutou daquela paz …

    Afinal … era muito bom estar em casa …

Disfruta do teu mundo, Lúcia … já te chamarei para outra viagem …

    Doroteia olhou a gota de agua com carinho … gostava muito de Lúcia … a inconformista … …


                                    fim (quase )


    Comecei a escrever esta historia num comboio com destino a Cádiz … estavamos em 2017 … a primeira parte ficou esquecida até que, por puro acaso, voltei a encontra-la em Dezembro de 2022 … a intençäo é ajudar os jovens ( e os näo täo jovens ) a compreender o ciclo da água … Será que consegui ?!


                                    Fim ( total )


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O FIM ... OU ... O PRINCÍPIO ?! - jorge peres - 81

                                  O FIM … OU O PRINCÍPIO …      Fechei um dos olhos … com o outro tentei alinhar a pistola c...