jueves, 24 de noviembre de 2022

UM MUNDO NOVO - jorge peres

 


                            UM MUNDO NOVO


     O parque dos Loureiros era o seu local preferido. Tinha umas mesas de pedra com os seus respectivos bancos …

    Joel, fazia de uma de elas o seu escritorio.

    Aí escrevera dois dos seus ultimos livros … e aí estava “fabricando” o proximo.

    Passava, nesse local, umas duas ou tres horas quase todos os dias …

    A uns 50 metros, uns repuchos com agua, saindo do chäo em intervalos regulares criavam um ambiente sonoro quase paradisíaco.

    Numa pausa, entre uma ideia e outra, Joel viajou com os olhos á sua volta … havía um pequeño bar que estava, nesse momento, a abrir as suas portas …

    Num outro banco, uma rapariga chamou a sua atençäo … cabelo comprido … loiro … vestido branco com borboletas de varias cores …

    Ela sentiu-se observada e cruzou o olhar com o seu.

    Timidamente, e quase em silencio, Joel cumprimentou-a … e quis continuar a escrever … mas a sua inspiraçäo estagnou de repente …

    Voltou a olhar naquela direcçäo … ela sorriu … näo estava enganado … näo havia mais ninguem … o sorriso era mesmo para ele …

    Entäo ela fez um gesto de “ olá” com a mäo …

    Joel ficou nervoso … baixou os olhos por segundos … decidiu devolver-lhe o gesto … mas … ao olhar de novo … … a rapariga já lá näo estava.

    Onde tinha ido ?!!! Olhou em toda a volta … nem sinal …

    Levantou-se e percorreu os poucos metros que o separavam do banco de pedra de onde tinha visto a rapariga … nada … decidiu que o melhor que tinha a fazer era voltar e continuar a escrever …

    Antes de dar meia volta algo chamou a sua atençäo … no banco estava um pequeño aviäo feito de papel dobrado … apanhou-o … seria dela ?!!

    Olhou-o atentamente durante varios minutos … sentia que teria um significado … mas qual ?!!!

    Instintivamente começou a desdobrar o papel … parecia ter algo escrito …

    Quando finalmente, o aviäo näo era mais que uma pequena folha, apareceu uma frase:


                A distancia entre a imaginaçäo

                    e a realidade está a 12 passos

                    entre o sagrado e o óxido.”


    Que era aquilo? Que significava? … sagrado ?!!!! … óxido ?!!! …

    Joel continuava a olhar para o papel como se, por artes mágicas, ele fosse responder ás suas perguntas …

    Entäo começou a pensar … os antigos chamavam sagrado ao interior dos conventos e igrejas, porque aí enterravam algumas pessoas … depois passaram a chamar terra sagrada ao interior dos cemitérios … pelo mesmo motivo … … cemitérios … o muro, ao fundo do parque, era tambem a parede do Cemitério Municipal de Castelo Branco.

    Levantou-se e caminhou até ao grosso muro de pedra.

    Olhou á volta … só viu plantas … arvores … o portäo lateral … o portäo … velho … de ferro … enferrujado … … oxidado …

    Voltou a ler o papel …


            “ … 12 pasos até ao óxido.”


    Era uma loucura … mas … porque näo?

    Encostou as costas ao muro e começou a contar os passos …

Um … dois … tres … … …

    Ao décimo passo tinha um arbusto alto na sua frente … tinha que dar a volta … mas assim ia-se perder nas contas … e se pudesse dobrar um pouco a planta, e passar por cima ?!!!

    Com algum esforço conseguiu dobra-la um pouco … o que encontrou deixou-o perplexo … …

    Parecia uma porta … tentaria abri-la.

Estás seguro de que queres abrir essa porta?!

    A voz surpreendeu-o … mesmo atrás dele estava a rapariga loira.

Olá. Venho aquí quase todos os dias e näo sabia que aquí havia uma porta.

É normal. Poucos a conhecem … cuidado ! … nunca abras uma porta onde näo queiras entrar !

Porquê ?!!! Posso abrir uma porta só para saber o que há do outro lado … depois decido se entro ou näo.

    Ela sorriu … parecia divertir-se com aquela conversa.

És jornalista?

Näo. Sou Joel … sou escritor …

Claro ! Eu sou Sara.

Posso convidar-te a tomar um café, Sara?

Porque näo?

    Joel voltou a olhar para a porta … mas já lá näo estava … o arbusto näo era mais do que isso … uma simples planta … nada mais …

Näo compreendo …

Tranquilo … já compreenderás … Vamos tomar esse café ?!

    O silencio dele mostrava preocupaçäo.

Sinto-te um pouco perdido …

Estou a ver coisas muito raras … eu vi uma porta … mas … agora já näo estava …

É uma porta mágica.

    Olhou para ela … sem duvida estava a gozar com ele …

Mágica ?!!! Boa resposta.

Näo acreditas em magía, Joel ?

A verdade é que … näo muito …

Mas estás a falar comigo !

Ah! Tu tambem es mágica ?!! — näo conseguiu evitar uma pequena gargalhada.

É verdade ! Näo acreditas em mim ?!

Näo !

Deixaste todos os teus papeis e a tua bolsa na mesa de pedra em que estavas a escrever …

Ai ! É verdade … esqueci-me completamente …

    Levantou-se mas ela pos-lhe a mäo no braço.

Tranquilo … senta-te … relaxa … fecha os olhos …

Olhou-a atentamente … mas acabou obedecendo.

Já podes abrir.

Uma vez mais ficou estupefacto … todos os seus papeis … a bolsa de tiracolo … a esferografica … tudo estava na mesa, ao lado dos cafés.

Como … como é possivel ?!

Sou mágica … já te tinha dito.

    Agora riram-se os dois.

E a que te dedicas, Sara?

Sou feiticeira.

Claro! Porque fui eu preguntar ?!!!

A serio !

Sem duvida es muito divertida.

Gostas de café con gelo?

Sim. Muito. A verdade é que näo gosto de café quente.

Pois é o que tens na tua frente.

    Joel olhou para o seu café … de repente tinha aparecido um cubo de gelo na sua chávena …

Convencido ?!

E o que mais podes fazer ?!

Sou uma feiticeira branca. Só posso fazer coisas que näo prejudiquem ninguem.

Joel estava a divertir-se.

Que bons momentos estou a passar contigo.

Estou habituada a que me digam isso.

E também é costume que te digam que és muito bonita ?

Sim. Também.

Tenho pena da minha falta de originalidade.

Tu és diferente, Joel.

Ah! Sim ?!!!?

Por isso te deixei a chave.

Chave ?! Que chave ?!!

A frase no aviäo de papel … é a chave que te dá acesso á porta … só näo esperava que fosses täo decidido …

E que há do outro lado da porta?

Um mundo mágico.

Diferente deste ? — Joel já näo se ria.

Sim. Muito diferente.

Melhor ?!

Isso depende de cada um.

Parece interessante.

Tu tens a capacidade de sobreviver nesse mundo … mas presta-me muita atençäo … tens que pensar muito bem … se decides entrar … näo há como regressar.

Näo posso voltar ?!!!

Näo.

E tu vives la ?

Sim.

Pois a mim parece-me cada vez mais interessante.

A serio Joel … pensa bem …

    Ficou uma vez mais pensativo … instintivamente olhou na direcçäo da porta … foram poucos segundos … depois quis continuar a conversa … mas ela já näo estava … tinha desaparecido … outra vez …

    Que coisas mais estranhas … mas o olhar de Sara näo lhe saia da cabeça …

    Apanhou as suas coisas e caminhou na direcçäo do arbusto … nem sinal da porta … recordou ento as palavras de Sara :


                    “ … tu tens a chave ...”


    Procurou no bolso das calças o aviäo e voltou a ler a frase.

    De novo colocou-se junto ao muro e começou a contar os passos na direcçäo do portäo de ferro … agora sim … estava a porta.

    Esticou o braço para a abrir … mas … parou o movimento …

    Sara disse que näo poderia regressar … tinha de estar completamente seguro.

    Sentia muita vontade de ir ter com ela … mas de repente, começaram a desfilar pela sua cabeça imagens … dos seus pais … dos seus amigos … dos seus escritos …

    Olhou á sua volta procurando encontrar Sara … mas desta vez näo estava …

Perdeu alguma coisa, senhor?!

    Era um dos guardas do parque.

Näo, näo. É que me pareceu ver um animal.

É possivel. Por aquí aparecem muitos. Tenha um bom dia.

Igualmente.

    Voltou a olhar para o arbusto … a porta já lá näo estava …

    Voltou a olhar para o aviäo … o pedaço de papel estava em branco … nem sinal da frase chave …

    Entäo compreendeu … deixara passar a sua oportunidade … ainda näo estava preparado …

    Encarou o assunto com tranquilidade … no fim de contas, por pior que seja a realidade conhecida … sempre será melhor que um mundo novo … desconhecido …



                                            fim

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