lunes, 9 de enero de 2023

O GRANDE MELCHIOR - jorge peres

 


                            O GRANDE MELCHIOR


    Sentia-se perdido … Näo compreendia nada … Onde estava ?! Num bosque ?! Numa floresta ?! Olhava á sua volta … eram arvores estranhas … plantas que jamais tinha visto na sua vida … e o chäo … como um carreiro … mas muito largo … pelas dimensöes por ai passaria muita gente … talvez sim … mas noutro momento, porque agora mesmo näo se via ninguém … o som de varios tipos de aves dava ao ambiente uma sensaçäo quase paradisíaca que o fazia sentir bem …

    Decidiu caminhar … o dificil era decidir-se por que direcçäo … olhou para o sol … iria para Este …

Melchior ! Melchior !

    Quem o chamava pelo seu nome ?!?

    Olhou na direcçäo da voz … aproximava-se uma criança …

    O seu aspecto era diferente … cabelo curto … vestia de uma maneira como nunca vira antes … mas com um aspecto muito limpo …

Diz-me, jovencito … tu conheces-me ?!

Claro! Tu es Melchior … um rei mago …

Sim. É verdade. Sou Melchior … rei … … é um pouco exagerado …

Tu es um dos que nos trazem os presentes.

Presentes ?!!?

Sim. Todos te conhecem … posso tirar uma foto contigo ?

Foto ?!!?

Sim … anda … vamos fazer uma selfie rápido.

Selfie ?!!?

    Aquele pequeño falava de uma maneira que surpreendia em cada palavra … tinha uma fluencia no modo como se relacionava com uma pessoa mais velha que era incrível … e agora tinha na mäo … algo rectangular … que tinha … uma luz ?!!?

Sorri.

Eu ?!!? Porquê ?!!?

    Agora já näo tinha dúvidas … o artefacto era mágico … nele aparecia uma imagem de eles dois … como era possivel ?!!?

Como te chamas, filho ?

Eu chamo-me Abel.

E diz-me, Abel, onde estamos?

Estamos no Parque de Maria Luisa.

    Melchior fez uma cara de quem näo fazia ideia.

Chama-se assim este povoado?

Povoado ?! No ?! Esse é o nome do parque onde estamos … esta é a cidade de Sevilla.

Sevilha ?!? Näo conheço …

    O rapaz voltou a pegar no objecto mágico, tocou-lhe com o dedo e mostrou-lhe um mapa.

    Melchior, com alguma dificuldade reconheceu o que via.

Esse mapa está mal!

Mal ?! — Abel soltou uma pequena gargalhada — é a ultima aplicaçäo do Google … e está actualizada …

    Continuava a utilizar palavras estranhas … mas aquele mapa näo era o que ele conhecia, ainda que podia situar-se nele.

Aquí perto passa o rio Tartesso, verdade ?!

Näo. Este, aquí no mapa, é o rio Guadalquivir.

    Melchior começava a compreender … estava onde ele pensava que estava … mas existiam coisas diferentes …

Voltou a olhar o mapa … mas … onde estava o mar ?!!?

Ven Melchior. Quero mostrar-te uma coisa.

    O rapaz pegou-lhe na mäo e, literalmente, arrastou-o pelo parque … mal lhe dava tempo para ver tantas coisas novas … mas o que encontrou depois deixou-o sem fala …

Isto é … uma povoaçäo … grande …

Que dizes ?!? — Abel estava cada vez mais divertido — é a Praça de Espanha …

    Para Melchior tudo era grandioso … se atreveria mesmo a dizer … majestoso …

O meu pai contou-me que se gravaram aquí algumas cenas do filme “Lawrence da Arabia” e de “Star Wars”.

    Melchior já nem apontava as coisas que näo compreendia … ali havía gente … pessoas … homens … mulheres … meninos … meninas … todos vestindo de una maneira estranha … para ele … mas respirava-se um ar de alegria … paz … sentia-se bem ali …

Senta-te aquí comigo — um banco bonito, feito de pedra, revestido de cerâmica pintada — olha, Melchior … gosto muito de estar aquí a olhar para toda esta gente …

    O mago continuava atento a tudo … chamava-lhe muito a atençäo umas caixas com rodas e com cavalos amestrados … levavam gente dentro … que moderno …

E diz-me, Melchior … porque vens täo cedo?

Cedo ?!!?

Sim. É suposto que tu e os outros dois só cheguem a 6 de janeiro … ainda estamos em dezembro.

Outros dois ?!!?

Ai! Melchior … já estás muito velhinho … já te esqueces que formas parte dos tres reis magos ?! Os que, noutros tempos, foram adorar o menino Jesus e levar-lhe presentes ?!

    Finalmente ouvia algo que lhe soava a conhecido.

    Falaria o rapaz de Jesus Cristo ?! … mas … porque tinha mencionado tres reis magos ?!!?

Olha Abel. Vou-te contar. Nós só eramos dois … eu e o Gaspar.

Ai! Ai! Esqueces-te de Baltazar … o rei negro ?!

Näo, rapaz … näo havía nenhum rei negro … e de uma vez por todas … näo somos reis … somos estudiosos … alguns chamam-nos sabios … outros, magos …

    Abel começava a sentir-se triste … Melchior näo lhe contava a mesma historia que tinha ouvido aos seus pais.

E esse, Jesus de que falas … é Cristo? O rei dos judeus ?

Näo … é o filho de Deus …

    Uma vez mais, Melchior ficou surpreendido … estava tudo muito confuso … começava a dar-se conta que o rapaz estava triste.

    Colocou-lhe o braço pelos ombros e apertou-o contra o peito.

Desculpa, Abel … tens razäo … já tenho muitos anos … as vezes digo coisas sem sentido …

    Abel olhou-o com ternura.

Compreendo-te … näo te preocupes … eu cuido de ti.

Conta-me tudo o que sabes, Abel … a ver se assim recupero a minha memoria …

    Durante a hora seguinte o rapaz repetiu-lhe tudo o que lhe tinham ensinado os seus pais … às vezes os seus avós … alguns professores da escola …

    Melchior ouviu-o atentamente e ficou convencido … estava noutra época … sem saber como tinha dado um salto no tempo.

Diz-me, Abel … em que ano estamos ?

2022 … porqué ?!

    Ainda que näo identificasse o calendario por que se regia Abel soube que tinha avançado no tempo uns dois mil anos … mas continuava a näo compreender porque tinham alterado a historia.

    Abel mostrou-lhe, naquele “estranho” aparelho, a que chamava telemóvel, umas imagens de pessoas disfarçadas de magos.

Ves, Melchior ? Todos os anos há pessoas que se vestem assim e mostram como os REIS MAGOS viajaram desde o oriente até Belem, ao palheiro onde nasceu Jesus.

    Sorriu para o pequeno … já näo lhe disse que os magos näo partiram do oriente mas sim de Tartessos … tambem já näo iria mencionar que Jesus nasceu numa gruta e näo num palheiro … näo queria voltar a deixar o pequeno triste …

    Mas agora era o momento de pensar em voltar.

    Antes de dar o salto no tempo lembrava-se que tinha na mäo uma pequena piramide de cristal que tinha encontrado junto ao rio … procurou num dos seus bolsos … sim … ainda a tinha consigo … mas antes tinha que fazer outra coisa.

Abel …

Sim, Melchior !

Tenho que ir-me embora … mas näo quero que fiques triste …

Näo faz mal, Melchior … eu sei que voltarás no dia 6.

Olha, filho … vou-te deixar um presente.

Um presente ?!! Para mim ?!!

Bom … na verdade é para ti e para a tua familia.

    O velho mago tirou de outro bolso uma pedra amarela do tamanho de um ovo de galinha.

Abel. Quero que a guardes com muito cuidado e que a dês ao teu pai … diz-lhe que é ouro … certamente que ele saberá o que fazer.

    Abraçaram-se e Melchior levantou-se … iria até um sitio com menos gente e manipularia a piramide … estava seguro que assim poderia voltar a casa …

    Ao longe viu como um homem chamava Abel e como este lhe dava a pedra.

Melchior ! Melchior !

    Varios meninos aproximavam-se quando ele descia a pequena ponte sobre o rio artificial.

Olhem !…! é Melchior … vamos pedir-lhe uma foto de grupo.

    No fundo ao mago encantavam-lhe aquelas manifestaçöes de afecto por parte dos mais pequenos.

    Depois de uns dez minutos, Melchior seguiu o caminho inverso que tinha feito com Abel.

    Este era um mundo muito diferente ao seu … mas sentia-se feliz … 2000 anos depois continuava a ser … o grande Melchior.


                            Fim (quase )


    Complicado! As vezes somos reféns das histórias que inventamos para cativar os nossos filhos … a Biblia fala de tres reis magos … mas a biblia como a conhecemos hoje é un livro do imperador romano Constantino, que se converteu ao catolicismo e mandou reunir os muitos livros que falavam da historia de Cristo e dos seus antecedentes … näo sem antes os ler pessoalmente e alterar e cortar o que chocava com a sua sensibilidade … estavamos no seculo V DC … a Biblia fala de magos vindos de Tartessia, espaço geográfico que incluí Andalucía, Algarve e parte do Alentejo portugués … näo especifica o número … a igreja ortodoxa britânica fala de 12 magos … imaginem viajar desde Andalucía, de camelo até ao Iraque (terra onde nasceu Cristo) … chegariam quando Jesus fosse para a escola ?! Aí vos deixo …


                                                    Fim ( agora sim )


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lunes, 2 de enero de 2023

LÚCIA ... a inconformista - jorge peres

     


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                          LÚCIA … A INCONFORMISTA …


    Lúcia sentia-se muito bem … a sua vida era tranquila …

    A suave luz que entrava, nem ela sabía bem de onde, espalhava-se por todo aquele lago interior.

    O silencio, quase total, só era interrompido por um doce borbulhar na agua.

    Lúcia, era uma pequena gota de água … uma no meio de centenas … talvez milhares de irmäs.

    Gostava da sua vida assim, mas … a poder escolher, tería preferido algo mais interessante … mais mexido … principalmente … com mais luz …

    Mas esses eram pensamentos seus que, nunca tinha partilhado com ninguem.

    A verdade é que, naquele meio, quase paradisíaco, a comunicaçäo primava pela quase ausencia.

    Absorvida nos seus pensamentos, sentiu que algo a despertava … algo diferente … algo novo … como que … muitas irmäs a correr.

Lúcia … está preparada!

    A repentina voz era de Doroteia, a sua tutora … uma gota maior … e a unica que, de quando em quando falava com ela … quase sempre para ensinar ou falar de mudanças …

    Lúcia sentia-se preparada … näo sabia nem para quê … mas estava pronta para aquilo que chamavam de “A VIAGEM” …

    O som estava cada vez mais perto … rapidamente recordou o que Doroteia lhe tinha dito, numa das ultimas conversas … “--- Quando se aproxime o tumulto tu relaxa … deixa-te levar ...”

    No escuro conseguiu vislumbrar um vulto … o som era cada vez mais forte … entäo sentiu que a faziam subir no ar … empurrada pelas suas irmäs começou uma corrida, cujo final näo conhecia … nem sabia quanto tempo duraria.

    Ia demasiado depressa … näo estava habituada … começava a enjoar …

   Inesperadamente, uma luz muito forte deixou-a momentaneamente cega.

    Agora compreendia o que lhe dizia Doroteia com insistencia …

Quando te levem, fecha os olhos.

    Pois … näo o fez … agora tudo estava demasiado branco para poder ver o que tinha á sua volta.

    Pouco a pouco, as coisas foram-se defenindo.

    Mas … que bonito … tudo muito verde … e com muito mais luz …

    Continuava a ser empurrada pelas irmäs, mas agora de uma maneira mais suave.

    Sentia-se muito emocionada … olhava á sua volta como querendo abraçar tudo …

    Outra irmäs juntaram-se a elas … agora ocupavam um espaço muito maior.

Lúcia. Como te sentes?

Muito bem, Doroteia … mas … que luz täo forte é esta ?!

É o sol … Lúcia … onde tinhas a cabeça quando te explicava as coisas ?!

    Sim … era verdade … a tutora tinha-lhe falado de muitas coisas … tantas … que era impossivel ficar com todas na sua cabeça.

Lúcia … está com atençäo … aproxima-se uma cascata …

“Cascata” … a palavra era-lhe familiar … outra das que falava Dorotea … mas já näo se lembrava do signicicado … pensou … pensou …

    De repente lembrou-se:

Cascaaaaaaaaataaaaa !!!!

    O ultimo fio dos seus pensamentos foi bruscamente interrompido por outra sensaçäo de queda no vazio … após alguns segundos voltou a tranquilidade … continuava deslizando … muito mais lentamente …

    Procurou á sua volta Doroteia … mas só via outras gotas de agua … todas muito serias … concentradas … como se fosse o momento mais importante das suas vidas …

Olá — tentou comunicar-se com a irmä mais próxima … mas esta olhou-a inexpressivamente sem responder.

E tu quem és, pequena gota de água ?! — uma voz grave e profunda vinha mesmo detrás dela.

    Girou o corpo redondo para ver quem era.

Eu sou Lúcia.

Olha sempre para a frente, Lúcia … ou podes te assustar! … Quem é a tua tutora?

Doroteia … ela estava ao pé de mim antes das cascata … mas agora näo a vejo …

Tranquila, pequenita … agora sou eu quem cuida de ti … e de todas …

Obrigada … e quem és tu?

Sou Rodolfo, o chefe de grupos … vi como olhavas á tua volta e como tentavas falar com as tuas irmäs …

Sim … tentei … mas nenhuma me respondeu …

Sabes !! näo é costume falar quando estamos nestes tramites.

O que é um tramite ?!

    Rodolfo sorriu com a inocencia de Lúcia.

Neste caso, tramite é esta viagem até ao nosso destino.

E qual é o nosso destino?

O mar … dirigimo-nos ao mar …

E o mar é grande?!

Sim, Lúcia … é muito grande … já verás …

    Lúcia ficou a pensar … o mar seria assim täo grande? … mas … ia em direcçäo do mar … onde estaria agora ?!!!

Estamos num rio — era a mesma voz … mas … ela näo tinha falado …

Sim, é verdade … mas como chefe de grupos leio os pensamentos de todas as gotas de agua que estäo debaixo da minha responsabilidade.

    Lúcia sentia-se cansada … afinal … o sitio escuro de onde vinha näo era assim täo mau …

    Passaram por um desfiladeiro … de repente … Lúcía ficou sem palabras … uuuauuu !!!!! quanta agua … uma extensäo a perder de vista … cheia de muitas gotas de agua … mas diferentes ,,,

Chegamos, Lúcia.

Sim. Já me dei conta … mas … estas irmäs … säo diferentes ?

É verdade. Säo gotas de agua salgada.

E isso o que é ?!

Vamos a ver como te explico … olha! O melhor é que näo te conte nada … terás que viver a experiencia … desejo-te sorte … Lúcia … já näo voltaremos a falar, tu e eu.

Ok! Adeus !

Tudo aquilo parecia muito estranho … mas era verdade … começava a notar mudanças … pouco a pouco sentiu-se mais leve … mais verde … lá no alto, o sol, que a tinha acompanhado em toda a viagem, parecia agora enorme … muito mais quente …

    E cada vez se sentia mais leve …

    De repente … sentiu que saía do grupo … voava ?!!! Sim !!! … estava a voar … que bom ! … agora podia ver tudo desde muito alto … e näo era a unica … muitas irmäs a acompanhavam … e agora falavam …

Irmä … vamos dar as mäos … que bonito é tudo isto …

Têm que permanecer unidas, meninas !

Doroteia … voltaste …?!

Olá, Lúcia … agora temos que estar perto umas das outras … todas juntas formaremos uma nuvem … vamos …

    A verdade é que pareciam um bloco compacto … cinzento … perto havia outras nuvens … iguais …

Deslizamos ?!?!

Sim, Lúcia … o vento empurra-nos.

E onde vamos agora ?!

Tranquila … faz menos perguntas e presta mais atençäo …

Mas eu gosto de compreender as coisas …

    Doroteia suspirou … sim … conhecia bem Lúcia … era uma gota muito boa … mas muito curiosa …

CUIDADO ! Agarrem-se !!!

    Bem á sua frente vinha outra nuvem … mas muito mais escura ...iam chocar … era inevitavel …

    E assim foi … do choque sairam faíscas …

    Com o impacto teve que abrir as mäos e soltar as outras gotas …

Caaiioooooo !!!!

    A sensaçäo de queda era muito desagradavel … sentiu vertigens … … outra vez enjoada …

    Olhou para baixo … já näo estava o mar … agora era uma floresta …

    Pensou que se podia magoar … mas caíu numa grande folha de uma arvore …

Ufff … já parou …

    Na mesma folha caiu outra irmä … depois outra … e outra …

    Com o peso a folha começou a dobrar-se … mais … mais … e de novo … caía …

Oh! Näo ! … Outra vez !!! …

    Desta vez a queda foi curta.

  Quando abriu os olhos estava no chäo, ao lado da arvore …

Lúcia … Anda … — era, de novo, Doroteia.

E agora o que se vai a passar ?!

Vem e deixa as preguntas, filha!

    Ela e algumas das suas irmäs seguiram a tutora.

    Abriam-se caminhos estreitos atravez da terra.

    Desciam … cada vez mais … por fim pararam todas em cima de uma grande pedra.

Lúcia. Agora temos que saltar.

Saltar ?! Mas está tudo täo escuro … näo se vê nada …

Confia em mim, Lúcia … salta !

Tenho medo … näo quero saltar …

Vamos ! Lúcia ! Deixa-te de infantilidades … já és uma gota adulta …

Tenho medo ! Näo queeerooooooooooo … …

    Näo pôde terminar … Doroteia tinha-a empurrado … de novo caía … mas agora completamente as cegas …

    Entäo notou que muitas irmäs a esperavam de braços abertos … amortizando a queda …

    Depois … silencio … um silencio só interrompido por um doce borbulhar na água …

Benvinda a casa, Lúcia …

    Bem lhe parecía … tinha regressado ao ponto de partida … que bom!

    Fechou os olhos e disfrutou daquela paz …

    Afinal … era muito bom estar em casa …

Disfruta do teu mundo, Lúcia … já te chamarei para outra viagem …

    Doroteia olhou a gota de agua com carinho … gostava muito de Lúcia … a inconformista … …


                                    fim (quase )


    Comecei a escrever esta historia num comboio com destino a Cádiz … estavamos em 2017 … a primeira parte ficou esquecida até que, por puro acaso, voltei a encontra-la em Dezembro de 2022 … a intençäo é ajudar os jovens ( e os näo täo jovens ) a compreender o ciclo da água … Será que consegui ?!


                                    Fim ( total )


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lunes, 19 de diciembre de 2022

PITCHIM ... a borboleta livre ... - jorge peres

 


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Mas … mamä …

Nem mamä nem meia mamä … a minha resposta é um rotundo “näo” !

Mas … mamä … sou tua filha … já tenho 12 anos …

E eu sou a tua mäe … e tenho 51.

Vá lá … mamä …

Acabou-se a discussäo … vai já para o teu quarto aclarar as ideias … näo me quero zangar-me contigo …

    Alba deu meia volta bruscamente e dirigiu-se ao seu refugio … a meio do corredor ainda ouviu a voz da mäe:

E nem penses em bater com a porta ou terás um castigo …

    Era exactamente o que a ela lhe apetecia fazer … mas entrou e fechou a porta … devagarinho …

    Estava nervosa … muito decepcionada com a mäe …

    Tinha-lhe contado que gostaria de fazer uma tatuagem … uma pequena borboleta … mas a sua mäe näo lhe permitiu nem entrar em detalhes …

    Näo lhe chegou a contar que lhe tinham apresentado León, um tatuador, e que tinha combinado com ele ir visitar o seu estúdio nessa tarde … agora … já náo sabia o que fazer … a mäe foi muito dura … um “näo” do tamanho de uma casa …

    Com a idade que tinha, Alba já se sentia muito grande … quase uma adulta … a sua mäe travava-a … cortava-lhe os pés … sentia-se uma prisioneira … os seus pais querian que ela fosse uma boneca telecomandada … ?

    Uns 15 minutos depois já tinha uma tomado decisäo … iria a esse encontro … faria a tatuagem … depois … que a mäe se zangasse … já näo ia poder fazer nada … de certeza que a iria castigar … sem televisäo … sem telemóvel … uma semana … duas semanas … um preço aceitavel para o que iria conseguir …

    Nessa tarde, antes de tocar a campainha do estudio de León, parou … respirou fundo … a decisäo parecia mais facil dentro das quatro paredes do seu quarto … agora já tinha algumas duvidas … era a primeira vez que se iria confrontar com a sua mäe … já näo se sentia táo segura … bem … melhor voltar a casa …

    Deu meia volta, no exacto momento em que se abria a porta e aparecia León.

Olá Alba. Que pontual … Vem.

    Alba entrou de maneira quase automatica.

Olha estes catálogos … tinhas-me dito que gostarias de por uma borboleta, certo?

Sim …

Pois aí tens uns 20 desenhos de borboletas … escolhe a que gostares mais … eu vou preparando as tintas.

    Foi pasando páginas … já näo tinha maneira de voltar atrás … apetecia-lhe sair dali a correr … mas seria uma vergonha …

    Na parte de cima de uma das folhas uma borboleta, com cores douradas e azuis, chamou a sua atençäo …

    Atento, León notou …

Encontraste?!

Sim. Esta.

Uaauuu!! Que escolha interessante … essa é uma borboleta Morpho …

    A cara de Alba evidenciava o total desconhecimento do tema.

É uma borboleta muito bela que só se encontra na America do Sul … na Bolivia, o meu país, vêem-se muitas …

    Como Alba seguia com uma cara inexpressiva, León tentou amenizar o ambiente …

Dizem que säo rencarnaçöes de Vénus.

O planeta ?!

Näaao!!! A deusa … é uma borboleta máaaagicaaaa!

Alba sorriu …

Pois … gosto muito … quero essa.

    A consciencia de Alba estava cada vez mais pesada …

Já sabes onde a queres ?

Onde a minha mäe näo a encontre …

Ok. Compreendo … e se apusermos no braço direito … mais ou menos onde te däo as vacinas? Assim poderás tapa-la com a roupa.

Boa ideia.

    Em poucos minutos estava já León em plena actividade.

    Alba mordia os labios … ninguem lhe tinha dito que ia a doer … e muito … mas fez-se de forte …

    León olhava-a … tentava distrai-la …

Doi-te muito?

    Alba näo respondeu … só mexeu a cabeça afirmativamente.

Queres uma pastilha?

Tenho as minhas.

Ok. Pöe uma pastilha na boca … morde quando sentires que a dor se torna mais intensa … terminaremos em menos de uma hora …

    Agora sim … Alba estava totalmente arrependida … como gostaria que estivesse a sua mäe agora mesmo ao seu lado, segurando-lhe a mäo … por que näo a tinha ouvido?

    Num dado momento, uma lágrima rebelde escorreu pela sua cara … León foi carinhoso com ella …

Tranquila, Alba … estamos já a terminar …

    O tempo passou muito lento para ela … quase duas horas depois de ter entrado naquele estudio … saía .. com o braço bem dorido …

    León tinha-lhe tapado a tatuagem … deveria mante-la assim durante dois dias … depois teria de voltar para ver se estava tudo bem.

    Ao chegar a casa subiu directamente para o seu quarto … näo queria falar com ninguém.


                                -------//-------


    A curiosidade de ver o resultado final era täo grande que pouco mais de 24 horas depois daquela “tortura” voluntaria, Alba decidiu tirar a ligadura … olhou-se ao espelho … que lindo …

    Uma bela borboleta parecia brilhar na parte de cima do seu braço direito … maravilhosa … era como se estivesse viva …

    Mais tarde, no colegio sentiu vontade de tirar a roupa … para que todos pudessem admirar a sua borboleta … tinha que por-lhe um nome … iria chamar-lhe … Pitchim … quando era muito pequena tinha um peluche com esse nome …

    Já era a segunda noite que passava com o seu Pitchim no braço … esperava dormir um pouco melhor … na primeira sentiu umas dores incomodas …

    Efectivamente … as dores quase tinham desaparecido.

Alba! … Alba !!

    Quem a chamava? Sentou-se na cama … olhou o relogio … 03.33h … quem seria áquela hora?!

    Acendeu a luz … mas o quarto estava vazio … a janela estava fechada … ainda para mais vivia no 13º andar … por alí náo entraria ninguem …

    Sem fazer barulho abriu muito devagar a porta … o corredor estava silencioso … o quarto dos seus pais estava fechado … ninguem …

    Voltou para a cama … e poucos minutos depois …

Alba! … Aaaalbaaa!

    A voz vinha de muito perto … parecia estar dentro da cama …

Quem és tu ?!

Sou eu.

Eu, quem ?! Näo vejo ninguém.

Sou Pitchim … que raio de nome me deste … näo mereço melhor ?!!!!

Que dizes ?! — Alba ia acender de novo a luz.

Näo. Näo acendas a luz … tira o pijama … olha o teu braço …

    Alba rapidamente tirou o braço direito do pijama …

    Uaaau! A sua borboleta cintilava de luz e cor …

Ves como sou eu ?!!!

Mas … näo pode ser … é impossivel …

Näo acreditas em mim ?! Posso pressionar aquí um pouco.

Näo !!! Näo faças isso que ainda me doi …

Claro que te doi … é uma tatuagem … uma tatuagem verdadeira … näo essas decalcaveis que usavas quando eras mais pequena …

E como podes falar conmigo?!

Näo te disse León que sou especial ?!!!

Sim. Algo me disse a esse respeito …

Tambem näo acreditas-te nele …

Näo muito, verdade …

Normalmente näo costumo falar … mas contigo sim … devo manifestar o meu aborrecimento … o meu protesto …

Estás zangada?!

Sim.

Comigo ?!!

Sim.

Porquê ?!

Vamos lá ver … sou uma borboleta real … sou Vénus … Afrodite … sou bela … esplendorosa … mítica … e tens-me sequestrada ?!!!

Eu ?!!!? Como é isso ?!!!

Eu preciso ar … oxigénio … que me vejam … que me adorem … e tu tens-me sempre tapada ?!!!! … Eu queria ser livre … estar á vista de todos … …

Näo posso, Pitchim.

Porque näo?! Näo estás orgulhosa da tua tatuagem ?

Näo.

O quééé ?!!!!!!!

Näo é por ti … para te ter aí desobedeci a minha mäe … jamais o tinha feito com algo täo definitivo … já me arrependi … mas já näo posso voltar atrás no tempo …

Vamos a ver … e como vais tu contra o que te disse a tua mäe ?!!!

Porque eu queria muito fazer uma tatuagem e ela näo me deixava …

Devemos ouvir sempre as mäes …

Sim … mas a minha sempre está contra mim …

Já pensaste que a tua mäe só queria defender-te … proteger-te … ?!!!!

Talvez.

É verdade. Doeu-te?

Sim.

Arrependeste-te ?

Sim.

Pois tudo isso foi o que tentou evitar a tua mäe … porque te quer bem … porque te ama …

Tens razäo … — os olhos de Alba encheram-se de lagrimas … sinceras … arrependidas …

    A borboleta continuava a cintilar …

Náo chores, Alba … olha! … quero que me prometas que nunca mais voltarás a desobedecer a tua mäe.

Sim. Prometo. Assim farei … mas isto já näo tem soluçäo … a minha mäe acabará por ver a tatuagem e ficará muito decepcionada comigo … muito triste … e com razäo — agora Alba soluçava, sentada na sua cama …

Tranquila, Alba … deita-te … deves dormir um pouco.

    Inconscientemente Alba colocou-se na posiçäo horizontal.

    Adormeceu imediatamente … sem compreender bem como, começou a sonhar … mas … o sonho era a continuaçäo da conversa com a sua borboleta.

O teu arrependimento é verdadeiro … e eu sou uma borboleta mágica … vou-te ajudar.

Como ?! Já nada se pode fazer.

Esqueces-te de que estamos num sonho … aquí tudo é possivel.

    Inesperadamente a borboleta saltou do braço e começou a voar pelo quarto …

Como és bonita.

Obrigada, Alba … tu tambem o és … o teu coraçäo é branco como o teu nome …

Obrigada.

Lembra-te que me fizeste uma promessa … näo me faças voltar …

Cumprirei a minha promessa.

Isso mesmo. Agora faz-me um favor.

Diz-me.

Abre a janela … deixa-me seguir livre o meu destino.

Claro que sim — levantou-se e girou o trinco da janela.

Adeus Pitchim.

Adeus Alba … e, se um dia, quando fores mais velha, decidires fazer uma tatuagem … por favor … näo lhe ponhaa o nome de Pitchim … é muito feio …

    Alba sorriu e ficou a ver como aquela pequena borboleta se afastava … em pouco tempo näo era mais que um ponto brilhante … um mais entre as estrelas … depois voltou para a cama.


                                ---------//---------


    Despertou com o sol a dar-lhe na cara,

A primeira coisa que fez foi olhar para o braço estava limpo … sem qualquer dor … e … o sonho ?!!!

Alba! Vamos filha … tomar o pequeño almoço … näo quero que chegues tarde.

Mamä … espera um pouco.

    A mäe voltou atrás e olhou-a curiosa.

    Alba saltou da cama e correu a abraça-la.

Gosto muito de ti, mamä … desculpa ter discutido contigo …

    A mäe, comovida, devolveu-lhe o abraço … deu-lhe um beijo carinhoso na testa.

Vamos, filhota … veste-te … eu também gosto muito de ti …

    Alba sorriu aliviada olhando a máe que saía do quarto … a janela ainda estava entreaberta … por ali saíra Pitchim … a borboleta livre …


                                fim (quase)



    Esta é uma historia escrita e dedicada exclusivamente para a minha pequena filha Alba … com sete anos gosta muito de tatuagens de agua … principalmente de borboletas … a historia vai encontrar uma menina tambem chamada Alba, mas com 12 anos … ah! E as borboletas Morpho existem … säo douradas e azuis … e muito bonitas …

    Un grande beijinho, Alba … ouve sempre com atençäo o que te diz a tua mäe … na vida real, nem todas as borboletas säo mágicas.


                                    Fim ( total )


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O FIM ... OU ... O PRINCÍPIO ?! - jorge peres - 81

                                  O FIM … OU O PRINCÍPIO …      Fechei um dos olhos … com o outro tentei alinhar a pistola c...