.
. PITCHIM … A BORBOLETA LIVRE …
— Mas … mamä …
— Nem mamä nem meia mamä … a minha resposta é um rotundo “näo” !
— Mas … mamä … sou tua filha … já tenho 12 anos …
— E eu sou a tua mäe … e tenho 51.
— Vá lá … mamä …
— Acabou-se a discussäo … vai já para o teu quarto aclarar as ideias … näo me quero zangar-me contigo …
Alba deu meia volta bruscamente e dirigiu-se ao seu refugio … a meio do corredor ainda ouviu a voz da mäe:
— E nem penses em bater com a porta ou terás um castigo …
Era exactamente o que a ela lhe apetecia fazer … mas entrou e fechou a porta … devagarinho …
Estava nervosa … muito decepcionada com a mäe …
Tinha-lhe contado que gostaria de fazer uma tatuagem … uma pequena borboleta … mas a sua mäe näo lhe permitiu nem entrar em detalhes …
Näo lhe chegou a contar que lhe tinham apresentado León, um tatuador, e que tinha combinado com ele ir visitar o seu estúdio nessa tarde … agora … já náo sabia o que fazer … a mäe foi muito dura … um “näo” do tamanho de uma casa …
Com a idade que tinha, Alba já se sentia muito grande … quase uma adulta … a sua mäe travava-a … cortava-lhe os pés … sentia-se uma prisioneira … os seus pais querian que ela fosse uma boneca telecomandada … ?
Uns 15 minutos depois já tinha uma tomado decisäo … iria a esse encontro … faria a tatuagem … depois … que a mäe se zangasse … já näo ia poder fazer nada … de certeza que a iria castigar … sem televisäo … sem telemóvel … uma semana … duas semanas … um preço aceitavel para o que iria conseguir …
Nessa tarde, antes de tocar a campainha do estudio de León, parou … respirou fundo … a decisäo parecia mais facil dentro das quatro paredes do seu quarto … agora já tinha algumas duvidas … era a primeira vez que se iria confrontar com a sua mäe … já näo se sentia táo segura … bem … melhor voltar a casa …
Deu meia volta, no exacto momento em que se abria a porta e aparecia León.
— Olá Alba. Que pontual … Vem.
Alba entrou de maneira quase automatica.
— Olha estes catálogos … tinhas-me dito que gostarias de por uma borboleta, certo?
— Sim …
— Pois aí tens uns 20 desenhos de borboletas … escolhe a que gostares mais … eu vou preparando as tintas.
Foi pasando páginas … já näo tinha maneira de voltar atrás … apetecia-lhe sair dali a correr … mas seria uma vergonha …
Na parte de cima de uma das folhas uma borboleta, com cores douradas e azuis, chamou a sua atençäo …
Atento, León notou …
— Encontraste?!
— Sim. Esta.
— Uaauuu!! Que escolha interessante … essa é uma borboleta Morpho …
A cara de Alba evidenciava o total desconhecimento do tema.
— É uma borboleta muito bela que só se encontra na America do Sul … na Bolivia, o meu país, vêem-se muitas …
Como Alba seguia com uma cara inexpressiva, León tentou amenizar o ambiente …
— Dizem que säo rencarnaçöes de Vénus.
— O planeta ?!
— Näaao!!! A deusa … é uma borboleta máaaagicaaaa!
Alba sorriu …
— Pois … gosto muito … quero essa.
A consciencia de Alba estava cada vez mais pesada …
— Já sabes onde a queres ?
— Onde a minha mäe näo a encontre …
— Ok. Compreendo … e se apusermos no braço direito … mais ou menos onde te däo as vacinas? Assim poderás tapa-la com a roupa.
— Boa ideia.
Em poucos minutos estava já León em plena actividade.
Alba mordia os labios … ninguem lhe tinha dito que ia a doer … e muito … mas fez-se de forte …
León olhava-a … tentava distrai-la …
— Doi-te muito?
Alba näo respondeu … só mexeu a cabeça afirmativamente.
— Queres uma pastilha?
— Tenho as minhas.
— Ok. Pöe uma pastilha na boca … morde quando sentires que a dor se torna mais intensa … terminaremos em menos de uma hora …
Agora sim … Alba estava totalmente arrependida … como gostaria que estivesse a sua mäe agora mesmo ao seu lado, segurando-lhe a mäo … por que näo a tinha ouvido?
Num dado momento, uma lágrima rebelde escorreu pela sua cara … León foi carinhoso com ella …
— Tranquila, Alba … estamos já a terminar …
O tempo passou muito lento para ela … quase duas horas depois de ter entrado naquele estudio … saía .. com o braço bem dorido …
León tinha-lhe tapado a tatuagem … deveria mante-la assim durante dois dias … depois teria de voltar para ver se estava tudo bem.
Ao chegar a casa subiu directamente para o seu quarto … näo queria falar com ninguém.
-------//-------
A curiosidade de ver o resultado final era täo grande que pouco mais de 24 horas depois daquela “tortura” voluntaria, Alba decidiu tirar a ligadura … olhou-se ao espelho … que lindo …
Uma bela borboleta parecia brilhar na parte de cima do seu braço direito … maravilhosa … era como se estivesse viva …
Mais tarde, no colegio sentiu vontade de tirar a roupa … para que todos pudessem admirar a sua borboleta … tinha que por-lhe um nome … iria chamar-lhe … Pitchim … quando era muito pequena tinha um peluche com esse nome …
Já era a segunda noite que passava com o seu Pitchim no braço … esperava dormir um pouco melhor … na primeira sentiu umas dores incomodas …
Efectivamente … as dores quase tinham desaparecido.
— Alba! … Alba !!
Quem a chamava? Sentou-se na cama … olhou o relogio … 03.33h … quem seria áquela hora?!
Acendeu a luz … mas o quarto estava vazio … a janela estava fechada … ainda para mais vivia no 13º andar … por alí náo entraria ninguem …
Sem fazer barulho abriu muito devagar a porta … o corredor estava silencioso … o quarto dos seus pais estava fechado … ninguem …
Voltou para a cama … e poucos minutos depois …
— Alba! … Aaaalbaaa!
A voz vinha de muito perto … parecia estar dentro da cama …
— Quem és tu ?!
— Sou eu.
— Eu, quem ?! Näo vejo ninguém.
— Sou Pitchim … que raio de nome me deste … näo mereço melhor ?!!!!
— Que dizes ?! — Alba ia acender de novo a luz.
— Näo. Näo acendas a luz … tira o pijama … olha o teu braço …
Alba rapidamente tirou o braço direito do pijama …
Uaaau! A sua borboleta cintilava de luz e cor …
— Ves como sou eu ?!!!
— Mas … näo pode ser … é impossivel …
— Näo acreditas em mim ?! Posso pressionar aquí um pouco.
— Näo !!! Näo faças isso que ainda me doi …
— Claro que te doi … é uma tatuagem … uma tatuagem verdadeira … näo essas decalcaveis que usavas quando eras mais pequena …
— E como podes falar conmigo?!
— Näo te disse León que sou especial ?!!!
— Sim. Algo me disse a esse respeito …
— Tambem näo acreditas-te nele …
— Näo muito, verdade …
— Normalmente näo costumo falar … mas contigo sim … devo manifestar o meu aborrecimento … o meu protesto …
— Estás zangada?!
— Sim.
— Comigo ?!!
— Sim.
— Porquê ?!
— Vamos lá ver … sou uma borboleta real … sou Vénus … Afrodite … sou bela … esplendorosa … mítica … e tens-me sequestrada ?!!!
— Eu ?!!!? Como é isso ?!!!
— Eu preciso ar … oxigénio … que me vejam … que me adorem … e tu tens-me sempre tapada ?!!!! … Eu queria ser livre … estar á vista de todos … …
— Näo posso, Pitchim.
— Porque näo?! Näo estás orgulhosa da tua tatuagem ?
— Näo.
— O quééé ?!!!!!!!
— Näo é por ti … para te ter aí desobedeci a minha mäe … jamais o tinha feito com algo täo definitivo … já me arrependi … mas já näo posso voltar atrás no tempo …
— Vamos lá a ver … e como vais tu contra o que te disse a tua mäe ?!!!
— Porque eu queria muito fazer uma tatuagem e ela näo me deixava …
— Devemos ouvir sempre as mäes …
— Sim … mas a minha sempre está contra mim …
— Já pensaste que a tua mäe só queria defender-te … proteger-te … ?!!!!
— Talvez.
— É verdade. Doeu-te?
— Sim.
— Arrependeste-te ?
— Sim.
— Pois tudo isso foi o que tentou evitar a tua mäe … porque te quer bem … porque te ama …
— Tens razäo … — os olhos de Alba encheram-se de lagrimas … sinceras … arrependidas …
A borboleta continuava a cintilar …
— Náo chores, Alba … olha! … quero que me prometas que nunca mais voltarás a desobedecer a tua mäe.
— Sim. Prometo. Assim farei … mas isto já näo tem soluçäo … a minha mäe acabará por ver a tatuagem e ficará muito decepcionada comigo … muito triste … e com razäo — agora Alba soluçava, sentada na sua cama …
— Tranquila, Alba … deita-te … deves dormir um pouco.
Inconscientemente Alba colocou-se na posiçäo horizontal.
Adormeceu imediatamente … sem compreender bem como, começou a sonhar … mas … o sonho era a continuaçäo da conversa com a sua borboleta.
— O teu arrependimento é verdadeiro … e eu sou uma borboleta mágica … vou-te ajudar.
— Como ?! Já nada se pode fazer.
— Esqueces-te de que estamos num sonho … aquí tudo é possivel.
Inesperadamente a borboleta saltou do braço e começou a voar pelo quarto …
— Como és bonita.
— Obrigada, Alba … tu tambem o és … o teu coraçäo é branco como o teu nome …
— Obrigada.
— Lembra-te que me fizeste uma promessa … näo me faças voltar …
— Cumprirei a minha promessa.
— Isso mesmo. Agora faz-me um favor.
— Diz-me.
— Abre a janela … deixa-me seguir livre o meu destino.
— Claro que sim — levantou-se e girou o trinco da janela.
— Adeus Pitchim.
— Adeus Alba … e, se um dia, quando fores mais velha, decidires fazer uma tatuagem … por favor … näo lhe ponhaa o nome de Pitchim … é muito feio …
Alba sorriu e ficou a ver como aquela pequena borboleta se afastava … em pouco tempo näo era mais que um ponto brilhante … um mais entre as estrelas … depois voltou para a cama.
---------//---------
Despertou com o sol a dar-lhe na cara,
A primeira coisa que fez foi olhar para o braço estava limpo … sem qualquer dor … e … o sonho ?!!!
— Alba! Vamos filha … tomar o pequeño almoço … näo quero que chegues tarde.
— Mamä … espera um pouco.
A mäe voltou atrás e olhou-a curiosa.
Alba saltou da cama e correu a abraça-la.
— Gosto muito de ti, mamä … desculpa ter discutido contigo …
A mäe, comovida, devolveu-lhe o abraço … deu-lhe um beijo carinhoso na testa.
— Vamos, filhota … veste-te … eu também gosto muito de ti …
Alba sorriu aliviada olhando a máe que saía do quarto … a janela ainda estava entreaberta … por ali saíra Pitchim … a borboleta livre …
fim (quase)
Esta é uma historia escrita e dedicada exclusivamente para a minha pequena filha Alba … com sete anos gosta muito de tatuagens de agua … principalmente de borboletas … a historia vai encontrar uma menina tambem chamada Alba, mas com 12 anos … ah! E as borboletas Morpho existem … säo douradas e azuis … e muito bonitas …
Un grande beijinho, Alba … ouve sempre com atençäo o que te diz a tua mäe … na vida real, nem todas as borboletas säo mágicas.
Fim ( total )
.

No hay comentarios:
Publicar un comentario