lunes, 19 de diciembre de 2022

PITCHIM ... a borboleta livre ... - jorge peres

 


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.              PITCHIM … A BORBOLETA LIVRE …


Mas … mamä …

Nem mamä nem meia mamä … a minha resposta é um rotundo “näo” !

Mas … mamä … sou tua filha … já tenho 12 anos …

E eu sou a tua mäe … e tenho 51.

Vá lá … mamä …

Acabou-se a discussäo … vai já para o teu quarto aclarar as ideias … näo me quero zangar-me contigo …

    Alba deu meia volta bruscamente e dirigiu-se ao seu refugio … a meio do corredor ainda ouviu a voz da mäe:

E nem penses em bater com a porta ou terás um castigo …

    Era exactamente o que a ela lhe apetecia fazer … mas entrou e fechou a porta … devagarinho …

    Estava nervosa … muito decepcionada com a mäe …

    Tinha-lhe contado que gostaria de fazer uma tatuagem … uma pequena borboleta … mas a sua mäe näo lhe permitiu nem entrar em detalhes …

    Näo lhe chegou a contar que lhe tinham apresentado León, um tatuador, e que tinha combinado com ele ir visitar o seu estúdio nessa tarde … agora … já náo sabia o que fazer … a mäe foi muito dura … um “näo” do tamanho de uma casa …

    Com a idade que tinha, Alba já se sentia muito grande … quase uma adulta … a sua mäe travava-a … cortava-lhe os pés … sentia-se uma prisioneira … os seus pais querian que ela fosse uma boneca telecomandada … ?

    Uns 15 minutos depois já tinha uma tomado decisäo … iria a esse encontro … faria a tatuagem … depois … que a mäe se zangasse … já näo ia poder fazer nada … de certeza que a iria castigar … sem televisäo … sem telemóvel … uma semana … duas semanas … um preço aceitavel para o que iria conseguir …

    Nessa tarde, antes de tocar a campainha do estudio de León, parou … respirou fundo … a decisäo parecia mais facil dentro das quatro paredes do seu quarto … agora já tinha algumas duvidas … era a primeira vez que se iria confrontar com a sua mäe … já näo se sentia táo segura … bem … melhor voltar a casa …

    Deu meia volta, no exacto momento em que se abria a porta e aparecia León.

Olá Alba. Que pontual … Vem.

    Alba entrou de maneira quase automatica.

Olha estes catálogos … tinhas-me dito que gostarias de por uma borboleta, certo?

Sim …

Pois aí tens uns 20 desenhos de borboletas … escolhe a que gostares mais … eu vou preparando as tintas.

    Foi pasando páginas … já näo tinha maneira de voltar atrás … apetecia-lhe sair dali a correr … mas seria uma vergonha …

    Na parte de cima de uma das folhas uma borboleta, com cores douradas e azuis, chamou a sua atençäo …

    Atento, León notou …

Encontraste?!

Sim. Esta.

Uaauuu!! Que escolha interessante … essa é uma borboleta Morpho …

    A cara de Alba evidenciava o total desconhecimento do tema.

É uma borboleta muito bela que só se encontra na America do Sul … na Bolivia, o meu país, vêem-se muitas …

    Como Alba seguia com uma cara inexpressiva, León tentou amenizar o ambiente …

Dizem que säo rencarnaçöes de Vénus.

O planeta ?!

Näaao!!! A deusa … é uma borboleta máaaagicaaaa!

Alba sorriu …

Pois … gosto muito … quero essa.

    A consciencia de Alba estava cada vez mais pesada …

Já sabes onde a queres ?

Onde a minha mäe näo a encontre …

Ok. Compreendo … e se apusermos no braço direito … mais ou menos onde te däo as vacinas? Assim poderás tapa-la com a roupa.

Boa ideia.

    Em poucos minutos estava já León em plena actividade.

    Alba mordia os labios … ninguem lhe tinha dito que ia a doer … e muito … mas fez-se de forte …

    León olhava-a … tentava distrai-la …

Doi-te muito?

    Alba näo respondeu … só mexeu a cabeça afirmativamente.

Queres uma pastilha?

Tenho as minhas.

Ok. Pöe uma pastilha na boca … morde quando sentires que a dor se torna mais intensa … terminaremos em menos de uma hora …

    Agora sim … Alba estava totalmente arrependida … como gostaria que estivesse a sua mäe agora mesmo ao seu lado, segurando-lhe a mäo … por que näo a tinha ouvido?

    Num dado momento, uma lágrima rebelde escorreu pela sua cara … León foi carinhoso com ella …

Tranquila, Alba … estamos já a terminar …

    O tempo passou muito lento para ela … quase duas horas depois de ter entrado naquele estudio … saía .. com o braço bem dorido …

    León tinha-lhe tapado a tatuagem … deveria mante-la assim durante dois dias … depois teria de voltar para ver se estava tudo bem.

    Ao chegar a casa subiu directamente para o seu quarto … näo queria falar com ninguém.


                                -------//-------


    A curiosidade de ver o resultado final era täo grande que pouco mais de 24 horas depois daquela “tortura” voluntaria, Alba decidiu tirar a ligadura … olhou-se ao espelho … que lindo …

    Uma bela borboleta parecia brilhar na parte de cima do seu braço direito … maravilhosa … era como se estivesse viva …

    Mais tarde, no colegio sentiu vontade de tirar a roupa … para que todos pudessem admirar a sua borboleta … tinha que por-lhe um nome … iria chamar-lhe … Pitchim … quando era muito pequena tinha um peluche com esse nome …

    Já era a segunda noite que passava com o seu Pitchim no braço … esperava dormir um pouco melhor … na primeira sentiu umas dores incomodas …

    Efectivamente … as dores quase tinham desaparecido.

Alba! … Alba !!

    Quem a chamava? Sentou-se na cama … olhou o relogio … 03.33h … quem seria áquela hora?!

    Acendeu a luz … mas o quarto estava vazio … a janela estava fechada … ainda para mais vivia no 13º andar … por alí náo entraria ninguem …

    Sem fazer barulho abriu muito devagar a porta … o corredor estava silencioso … o quarto dos seus pais estava fechado … ninguem …

    Voltou para a cama … e poucos minutos depois …

Alba! … Aaaalbaaa!

    A voz vinha de muito perto … parecia estar dentro da cama …

Quem és tu ?!

Sou eu.

Eu, quem ?! Näo vejo ninguém.

Sou Pitchim … que raio de nome me deste … näo mereço melhor ?!!!!

Que dizes ?! — Alba ia acender de novo a luz.

Näo. Näo acendas a luz … tira o pijama … olha o teu braço …

    Alba rapidamente tirou o braço direito do pijama …

    Uaaau! A sua borboleta cintilava de luz e cor …

Ves como sou eu ?!!!

Mas … näo pode ser … é impossivel …

Näo acreditas em mim ?! Posso pressionar aquí um pouco.

Näo !!! Näo faças isso que ainda me doi …

Claro que te doi … é uma tatuagem … uma tatuagem verdadeira … näo essas decalcaveis que usavas quando eras mais pequena …

E como podes falar conmigo?!

Näo te disse León que sou especial ?!!!

Sim. Algo me disse a esse respeito …

Tambem näo acreditas-te nele …

Näo muito, verdade …

Normalmente näo costumo falar … mas contigo sim … devo manifestar o meu aborrecimento … o meu protesto …

Estás zangada?!

Sim.

Comigo ?!!

Sim.

Porquê ?!

Vamos lá ver … sou uma borboleta real … sou Vénus … Afrodite … sou bela … esplendorosa … mítica … e tens-me sequestrada ?!!!

Eu ?!!!? Como é isso ?!!!

Eu preciso ar … oxigénio … que me vejam … que me adorem … e tu tens-me sempre tapada ?!!!! … Eu queria ser livre … estar á vista de todos … …

Näo posso, Pitchim.

Porque näo?! Näo estás orgulhosa da tua tatuagem ?

Näo.

O quééé ?!!!!!!!

Näo é por ti … para te ter aí desobedeci a minha mäe … jamais o tinha feito com algo täo definitivo … já me arrependi … mas já näo posso voltar atrás no tempo …

Vamos a ver … e como vais tu contra o que te disse a tua mäe ?!!!

Porque eu queria muito fazer uma tatuagem e ela näo me deixava …

Devemos ouvir sempre as mäes …

Sim … mas a minha sempre está contra mim …

Já pensaste que a tua mäe só queria defender-te … proteger-te … ?!!!!

Talvez.

É verdade. Doeu-te?

Sim.

Arrependeste-te ?

Sim.

Pois tudo isso foi o que tentou evitar a tua mäe … porque te quer bem … porque te ama …

Tens razäo … — os olhos de Alba encheram-se de lagrimas … sinceras … arrependidas …

    A borboleta continuava a cintilar …

Náo chores, Alba … olha! … quero que me prometas que nunca mais voltarás a desobedecer a tua mäe.

Sim. Prometo. Assim farei … mas isto já näo tem soluçäo … a minha mäe acabará por ver a tatuagem e ficará muito decepcionada comigo … muito triste … e com razäo — agora Alba soluçava, sentada na sua cama …

Tranquila, Alba … deita-te … deves dormir um pouco.

    Inconscientemente Alba colocou-se na posiçäo horizontal.

    Adormeceu imediatamente … sem compreender bem como, começou a sonhar … mas … o sonho era a continuaçäo da conversa com a sua borboleta.

O teu arrependimento é verdadeiro … e eu sou uma borboleta mágica … vou-te ajudar.

Como ?! Já nada se pode fazer.

Esqueces-te de que estamos num sonho … aquí tudo é possivel.

    Inesperadamente a borboleta saltou do braço e começou a voar pelo quarto …

Como és bonita.

Obrigada, Alba … tu tambem o és … o teu coraçäo é branco como o teu nome …

Obrigada.

Lembra-te que me fizeste uma promessa … näo me faças voltar …

Cumprirei a minha promessa.

Isso mesmo. Agora faz-me um favor.

Diz-me.

Abre a janela … deixa-me seguir livre o meu destino.

Claro que sim — levantou-se e girou o trinco da janela.

Adeus Pitchim.

Adeus Alba … e, se um dia, quando fores mais velha, decidires fazer uma tatuagem … por favor … näo lhe ponhaa o nome de Pitchim … é muito feio …

    Alba sorriu e ficou a ver como aquela pequena borboleta se afastava … em pouco tempo näo era mais que um ponto brilhante … um mais entre as estrelas … depois voltou para a cama.


                                ---------//---------


    Despertou com o sol a dar-lhe na cara,

A primeira coisa que fez foi olhar para o braço estava limpo … sem qualquer dor … e … o sonho ?!!!

Alba! Vamos filha … tomar o pequeño almoço … näo quero que chegues tarde.

Mamä … espera um pouco.

    A mäe voltou atrás e olhou-a curiosa.

    Alba saltou da cama e correu a abraça-la.

Gosto muito de ti, mamä … desculpa ter discutido contigo …

    A mäe, comovida, devolveu-lhe o abraço … deu-lhe um beijo carinhoso na testa.

Vamos, filhota … veste-te … eu também gosto muito de ti …

    Alba sorriu aliviada olhando a máe que saía do quarto … a janela ainda estava entreaberta … por ali saíra Pitchim … a borboleta livre …


                                fim (quase)



    Esta é uma historia escrita e dedicada exclusivamente para a minha pequena filha Alba … com sete anos gosta muito de tatuagens de agua … principalmente de borboletas … a historia vai encontrar uma menina tambem chamada Alba, mas com 12 anos … ah! E as borboletas Morpho existem … säo douradas e azuis … e muito bonitas …

    Un grande beijinho, Alba … ouve sempre com atençäo o que te diz a tua mäe … na vida real, nem todas as borboletas säo mágicas.


                                    Fim ( total )


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