jueves, 1 de diciembre de 2022

A VIDA CONTINUA - jorge peres

 


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                            A VIDA CONTINUA


    Sentada na sua cama … tinha um ar triste … esforçava-se para näo deixar cair nenhuma lagrima …

    Soraya olhava para o telemóvel … écram apagado … silencioso …

    Tinha acabado de falar com o seu grande “Amigo” Joaquim … uma daquelas conversas que mantinham todos os dias … já há mais de um ano …

    Tinham-se conhecido pela internet e, entre áudios y video conferencias, a amizade foi-se transformando em algo mais profundo …

    Só havia um problema … a distancia …

    Soraya vivia em Sevilla, a sua cidade natal, e Joaquim, ainda que tambèm sevilhano, vivia em Paris, para onde emigrou com os seus pais, ainda muito jovem.

    Nunca tinham estado juntos … Soraya tinha muita vontade de abraça-lo … …

    Por isso ficava triste … pensativa … sempre que acabava de falar com ele …

    Em poucos minutos recuperou-se … tinha de sair … tinha que fazer umas compras no supermercado …

    Antes de voltar a casa passou por uma loja chinesa que ficava em caminho.

    Entrava muitas vezes naquela loja, propriedade de um emigrante de Shangai, que, há muitos anos adoptou o nome de ANTÒNIO … sempre a cumprimentavam muito bem quando passava pela porta … eram muito simpàticos … António e a sua esposa … Leonor … chinesa como ele … claro … !

Bons dias, vizinha … o que precisa?

Olá António. Quero 4 pilhas … das pequenas …

    Leonor estava de trás do marido.

Olá vizinha … noto-lhe um ar triste …

É cansaço Leonor … estou muito cansada …

Näo. É triste … mal de amores?!

    A cara de Soraya mudou.

Passa-se algo, vizinha?!

Näo. Só que ele está longe … muito longe …

    Leonor olhou-a com ternura.

Tranquila … vizinha … tudo tem soluçäo …

    Soraya näo compreendeu o que queria ela dizer com aquilo … mas entrou outro cliente e a conversa ficou por ali …

    Voltou a casa carregada com os sacos das compras.

    Estava a colocar a comida no frigorifico quando soou a campainha da porta de entrada … foi abrir …

Antonio ??!!!

Sim, vizinha … venho-te trazer isto …

    Entregou-lhe uma caixa, de tamanho medio …

Dentro “expilica” como usar … … por favor, näo conte a ninguem … … ah! E näo é um presente … é um emprestimo … voltarei a buscar a caixa dentro de duas semanas … adeus … boa sorte …

    Soraya ficou a olhar para o homem a entrar no elevador … depois fechou a porta e olhou para a caixa.

    Já com ela em cima da mesa foi abrindo …

    Dentro encontrou outras duas caixas … uma pequena de madeira, pintada ao mais puro estilo chines … a outra era um pouco mais grande … dentro estavam tres relógios de areia … de tamanhos diferentes …

    A caixa pintada tinha uma abertura … para o que serviria ?!

    No fundo encontrou um pequeno livro escrito em chines e em ingles.

    Soraya dominava o idioma do Reino Unido …


                “ MAQUINA PARA VIAJAR “


    Os olhos de Soraya abriram-se mais … viajar ?!!! … o que era aquilo ?!!

    Sentou-se no sofa e dispos-se a ler com atençäo.

    Segundo o opúsculo, com aquela caixa, e usando os relogios, poderia viajar para qualquer local do planeta … bastava para isso pensar no local de destino e colocar uma das ampulhetas na abertura da caixa de madeira … os relogios estavam marcados com 15, 30 e 180 minutos … passado o tempo marcado voltava-se ao ponto de partida …

    Soraya ria-se sozinha … näo acreditava em nada daquilo … como viajaria a outro local ?! … Isso era simplesmente, impossivel …

    Por outro lado … o que tinha a perder ? …

    Decidiu acabar de por as compras no frigorifico.

    Depois de comer, já mais tranquila, voltou a prestar atençäo á caixa.

    Pensou em começar com o relogio mais pequeño … o de 15 minutos … iria experimentar …

    E onde gostaría de ir? … caso aquela loucura funcionasse … …

    Lembrou-se de um sitio que só conhecia de fotos e videos … o TEMPLO DE DEBOD … o templo oferecido pelos egipcios a Espanha e que estava em Madrid.

    Agarrou o relogio mais pequeño e meteu-o na abertura da caixa … ouviu um click …

Já está ?!!!?

    O seu quarto continuava igual … mas começou a ouvir uns sons diferentes do outro lado da porta … quando a abriu, um sol forte a deixou quase cega …

    Precisou de uns de minutos para adaptar a visäo … á sua frente estava o velho templo … com o seu espelho de agua … as suas grossas pedras marcadas e numeradas … que bonito …

    Havia muita gente, na sua maioria turistas que a olhavam e se riam … começou a sentir-se incomodada … porque todos a olhavam daquela maneira?!

    Sentou-se á beira do pequeno lago … olhou o seu própio reflexo … compreendeu … estava de pijama … näo se tinha lembrado de esse detalhe … erro de principiante …

    Optou por sentar-se num banco e esperar que se acabassem os 15 minutos …

    Quando chegou aos 14 começou a sentir um zumbido na cabeça … esse som foi aumentando gradualmente, até se tornar incomodativo … chegou a um ponto que instintivamente tapou os ouvidos com as mäos e fechou os olhos …

    De repente o zumbido parou … estava no seu quarto …

    Voltou a olhar para as caixas … desta vez com admiraçäo … imediatamente pensou em Joaquim … poderia fazer-lhe uma surpresa …

    Essa tarde falou com ele … uma chamada muito carinhosa, como sempre … ela estava feliz … em pouco tempo o iria ver em pessoa … poderia tocar-lhe … até sentia uma vontade louca de ter sexo com ele …

    Essa noite vestiu roupa de rua … abrigada … imaginou que as noites de Paris seriam frias.

    Varias vezes Joaquim contou que vivia perto do Rio Sena … uma vez mencionou a “Rue Cuvié” … pois … era para aí que ia …

    Desta vez usaria o relogio de 30 minutos … seguiu os procedimentos … depois abriu a porta do seu quarto e entrou na noite parisiense.

    Sentiu o vento na cara … na sua frente um grande edificio, onde se podia ler: “Restaurant Universitaire Cuvié” ..- ao fin da rua um cruzamento … um jardim … depois o rio … estava tudo muito escuro …

    Soraya tomou consciencia de quäo comprida que era a rua … assim seria quase impossivel encontrar-lo … podia telefonar-lhe, dizer-lhe que estava ali … mas estragava a surpresa …

    Teria que voltar … de dia … e com o relogio maior …

    Na verdade a meia hora esgotou-se rapidamente … voltou ao seu quarto … frustrada … gelada …

    Essa noite foi dificil … precisava de dados mais concretos de onde vivia Joaquim … ansiava ver a cara dele quando ela aparecesse na sua frente …

    Assim que, pela manhä, muito cedo, telefonou …

Olá Joaquim.

Ola Soraya … como dormiste, querida?

Náo muito bem … näo tive sono …

E porqué, estrelita.

Gostaria mais de acordar ao teu lado … na tua casa … depois levantar-me, aproximar-me da janela e olhar o rio …

Eh! Eh! Gosto muito dessa ideia … só que da minha casa näo se vê o rio.

Ah! Desculpa! … pensava que tinhas dito que a tua rua era perpendicular ao Sena.

Sim. É verdade. Mas a rua é muito grande e eu vivo na outra ponta …

    Bem … já tinha um ponto mais de referencia … a próxima vez procuraria no outro lado da rua …


                            ---------//---------


    Dois dias depois era domingo e Soraya decidiu que seria o grande dia …

    Levantou-se muito cedo … tomou banho … trabalhou o visual, coisa que normalmente näo fazia … pelo menos de uma maneira täo detalhada …

    Quando por fim se olhou ao espelho … até ela se surpreendeu … que bonita figura … muito elegante, no seu vestido curto … violeta … lindissimo …

    Olhou o relogio na parede … 10 horas … se fosse naquele momento estaria de regresso á uma da tarde …

    Estava nervosa … depois de um ano e oito meses, finalmente, iria poder tocar o seu grande amor.

    Executou os movimentos, desta vez usando o relogio grande … …

    Paris continuava fria … mas näo tanto como na outra noite …

    Estava num jardim … olhou á sua volta e encontrou uma placa … “Jardin Tino Rossi” … tudo muito bonito … com estatuas de pedra … mas ella näo estava ali para ver jardins.

    Á sua frente, o rio … ok … entäo se se colocasse costas para ele e a rua estaria á sua frente …

    Efectivamente assim era … ali estava a “Rue Cuvié” …

    Foi caminhando … primeiro encontrou uma zona universitaria … depois começaram as zonas residenciais … näo havia ninguém na rua … ela ia avançando … os minutos iam passando … e só tinha 3 horas … bem, agora, já só 2.45h … um infantario … um laboratorio de Biologia … o Anfiteatro Verniquet … bonita arquitectura …

    Finalmente, ao longe apareceram as primeiras pessoas … o seu coraçäo deu um salto … mas existiam ao menos uns 300 metros de distancia … decidiu parar e esperar … em pouco tempo compreendeu o coraçäo … Joaquim … era Joaquim …

    Num primeiro impulso começou a correr … iria atirar-se nos seus braços … mas algo a fez travar … ficar estatica …

    Joaquim näo estava sozinho …

    Olhou para trás e decidiu esconder-se nos portais do anfiteatro … aquela gente passaria mesmo á sua frente … era só esperar …

    Eram 4 pessoas, duas delas muito pequenas …

    Pouco a pouco foram-se aproximando … pelas fotos e videos foi-lhe fácil confirmar que era Joaquim … ao seu lado … de mäo dada … uma mulher … jovem …

    Soraya mal conseguia fechar a boca …

    Um pouco mais á frente vinham dois miudos … um de 4 e outro que näo parecia ter mais do que uns 8 anos … corriam e saltavam …

--- Papá, papá … on veaut pizza …

Bien pour moi, cheri … mais … parle con mamä …

Elle dit oui … elle dit oui … “

    Continuaram muito alegres …

    Escondida, Sara, seguiu-os com o olhar … até que entraram num dos edificios perto … depois … derrumbou-se … sentou-se nos escalöes de pedra e deu largas as suas lagrimas …

--- Mademoiselle … tout es bien?!”

    Era um homem, já com avançada idade … parecia preocupado com ela …

    Sem lhe responder, Soraya levantou-se e começou a correr …

    Em pouco tempo chegou ao jardim que já conhecia …

    Näo conseguia tirar da cabeça a imagem de Joaquim … e da sua familia … como fora possivel que se deixasse enganar?!

    Caminhou até ao rio … sentou-se na base da estatua de Rimbaud …

    Olhando ao longe … näo sabia o que fazer … a sua vida estava, agora mesmo, estancada … a ilusäo que sentira com e por Joaquim morreu inesperadamente … porquê? … porque a tinha enganado … iludido durante tanto tempo ?!!

    Assim esteve alguns minutos … sem prestar atençäo ao tempo que iam passando …

    O peso que sentia no seu peito foi aumentando …

    E agora como iria explicar aos seus amigos?! … e aos seus pais ?!!

    Sentia tudo muito forte … näo ia poder suportar … era demáis para ella …

    Olhou para o rio … parecia que a chamava … seria, talvez, a melhor soluçäo … …

    Levantou-se … correu o mais que pode … e sem pensar atirou-se …

    Sentiu a vertigem da queda … o forte impacto … o frio da agua … um zumbido nos ouvidos … cada vez mais forte …

    De repente conseguiu respirar fundo … estava no seu quarto … completamente encharcada … tinham passado as tres horas …

    Meteu-se na casa de banho … tirou a roupa … deitou-se na banheira enquanto deixava correr a agua quente … quase fizera uma estupidez … Joaquim näo a merecia … … continuaria com a sua vida normal …

    Depois do banho meteu-se na cama.


                                    ---------//---------


    Segunda feira, bem cedo, entrou na loja chinesa.

Bons dias, António.

Olá, vizinha … o que precisa?

Hoje nada … venho devolver-te as caixas.

Ajudaram-te?!

Nem imaginas quanto … muito obrigada …

Alegro-me vizinha …

    Ao sair da loja tocou o telemovel … Soraya olhou … era Joaquim … recusou a chamada … sorriu … olhou para o ceu … susurrou para si própria …

A vida continua !


                                            Fim

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jueves, 24 de noviembre de 2022

UM MUNDO NOVO - jorge peres

 


                            UM MUNDO NOVO


     O parque dos Loureiros era o seu local preferido. Tinha umas mesas de pedra com os seus respectivos bancos …

    Joel, fazia de uma de elas o seu escritorio.

    Aí escrevera dois dos seus ultimos livros … e aí estava “fabricando” o proximo.

    Passava, nesse local, umas duas ou tres horas quase todos os dias …

    A uns 50 metros, uns repuchos com agua, saindo do chäo em intervalos regulares criavam um ambiente sonoro quase paradisíaco.

    Numa pausa, entre uma ideia e outra, Joel viajou com os olhos á sua volta … havía um pequeño bar que estava, nesse momento, a abrir as suas portas …

    Num outro banco, uma rapariga chamou a sua atençäo … cabelo comprido … loiro … vestido branco com borboletas de varias cores …

    Ela sentiu-se observada e cruzou o olhar com o seu.

    Timidamente, e quase em silencio, Joel cumprimentou-a … e quis continuar a escrever … mas a sua inspiraçäo estagnou de repente …

    Voltou a olhar naquela direcçäo … ela sorriu … näo estava enganado … näo havia mais ninguem … o sorriso era mesmo para ele …

    Entäo ela fez um gesto de “ olá” com a mäo …

    Joel ficou nervoso … baixou os olhos por segundos … decidiu devolver-lhe o gesto … mas … ao olhar de novo … … a rapariga já lá näo estava.

    Onde tinha ido ?!!! Olhou em toda a volta … nem sinal …

    Levantou-se e percorreu os poucos metros que o separavam do banco de pedra de onde tinha visto a rapariga … nada … decidiu que o melhor que tinha a fazer era voltar e continuar a escrever …

    Antes de dar meia volta algo chamou a sua atençäo … no banco estava um pequeño aviäo feito de papel dobrado … apanhou-o … seria dela ?!!

    Olhou-o atentamente durante varios minutos … sentia que teria um significado … mas qual ?!!!

    Instintivamente começou a desdobrar o papel … parecia ter algo escrito …

    Quando finalmente, o aviäo näo era mais que uma pequena folha, apareceu uma frase:


                A distancia entre a imaginaçäo

                    e a realidade está a 12 passos

                    entre o sagrado e o óxido.”


    Que era aquilo? Que significava? … sagrado ?!!!! … óxido ?!!! …

    Joel continuava a olhar para o papel como se, por artes mágicas, ele fosse responder ás suas perguntas …

    Entäo começou a pensar … os antigos chamavam sagrado ao interior dos conventos e igrejas, porque aí enterravam algumas pessoas … depois passaram a chamar terra sagrada ao interior dos cemitérios … pelo mesmo motivo … … cemitérios … o muro, ao fundo do parque, era tambem a parede do Cemitério Municipal de Castelo Branco.

    Levantou-se e caminhou até ao grosso muro de pedra.

    Olhou á volta … só viu plantas … arvores … o portäo lateral … o portäo … velho … de ferro … enferrujado … … oxidado …

    Voltou a ler o papel …


            “ … 12 pasos até ao óxido.”


    Era uma loucura … mas … porque näo?

    Encostou as costas ao muro e começou a contar os passos …

Um … dois … tres … … …

    Ao décimo passo tinha um arbusto alto na sua frente … tinha que dar a volta … mas assim ia-se perder nas contas … e se pudesse dobrar um pouco a planta, e passar por cima ?!!!

    Com algum esforço conseguiu dobra-la um pouco … o que encontrou deixou-o perplexo … …

    Parecia uma porta … tentaria abri-la.

Estás seguro de que queres abrir essa porta?!

    A voz surpreendeu-o … mesmo atrás dele estava a rapariga loira.

Olá. Venho aquí quase todos os dias e näo sabia que aquí havia uma porta.

É normal. Poucos a conhecem … cuidado ! … nunca abras uma porta onde näo queiras entrar !

Porquê ?!!! Posso abrir uma porta só para saber o que há do outro lado … depois decido se entro ou näo.

    Ela sorriu … parecia divertir-se com aquela conversa.

És jornalista?

Näo. Sou Joel … sou escritor …

Claro ! Eu sou Sara.

Posso convidar-te a tomar um café, Sara?

Porque näo?

    Joel voltou a olhar para a porta … mas já lá näo estava … o arbusto näo era mais do que isso … uma simples planta … nada mais …

Näo compreendo …

Tranquilo … já compreenderás … Vamos tomar esse café ?!

    O silencio dele mostrava preocupaçäo.

Sinto-te um pouco perdido …

Estou a ver coisas muito raras … eu vi uma porta … mas … agora já näo estava …

É uma porta mágica.

    Olhou para ela … sem duvida estava a gozar com ele …

Mágica ?!!! Boa resposta.

Näo acreditas em magía, Joel ?

A verdade é que … näo muito …

Mas estás a falar comigo !

Ah! Tu tambem es mágica ?!! — näo conseguiu evitar uma pequena gargalhada.

É verdade ! Näo acreditas em mim ?!

Näo !

Deixaste todos os teus papeis e a tua bolsa na mesa de pedra em que estavas a escrever …

Ai ! É verdade … esqueci-me completamente …

    Levantou-se mas ela pos-lhe a mäo no braço.

Tranquilo … senta-te … relaxa … fecha os olhos …

Olhou-a atentamente … mas acabou obedecendo.

Já podes abrir.

Uma vez mais ficou estupefacto … todos os seus papeis … a bolsa de tiracolo … a esferografica … tudo estava na mesa, ao lado dos cafés.

Como … como é possivel ?!

Sou mágica … já te tinha dito.

    Agora riram-se os dois.

E a que te dedicas, Sara?

Sou feiticeira.

Claro! Porque fui eu preguntar ?!!!

A serio !

Sem duvida es muito divertida.

Gostas de café con gelo?

Sim. Muito. A verdade é que näo gosto de café quente.

Pois é o que tens na tua frente.

    Joel olhou para o seu café … de repente tinha aparecido um cubo de gelo na sua chávena …

Convencido ?!

E o que mais podes fazer ?!

Sou uma feiticeira branca. Só posso fazer coisas que näo prejudiquem ninguem.

Joel estava a divertir-se.

Que bons momentos estou a passar contigo.

Estou habituada a que me digam isso.

E também é costume que te digam que és muito bonita ?

Sim. Também.

Tenho pena da minha falta de originalidade.

Tu és diferente, Joel.

Ah! Sim ?!!!?

Por isso te deixei a chave.

Chave ?! Que chave ?!!

A frase no aviäo de papel … é a chave que te dá acesso á porta … só näo esperava que fosses täo decidido …

E que há do outro lado da porta?

Um mundo mágico.

Diferente deste ? — Joel já näo se ria.

Sim. Muito diferente.

Melhor ?!

Isso depende de cada um.

Parece interessante.

Tu tens a capacidade de sobreviver nesse mundo … mas presta-me muita atençäo … tens que pensar muito bem … se decides entrar … näo há como regressar.

Näo posso voltar ?!!!

Näo.

E tu vives la ?

Sim.

Pois a mim parece-me cada vez mais interessante.

A serio Joel … pensa bem …

    Ficou uma vez mais pensativo … instintivamente olhou na direcçäo da porta … foram poucos segundos … depois quis continuar a conversa … mas ela já näo estava … tinha desaparecido … outra vez …

    Que coisas mais estranhas … mas o olhar de Sara näo lhe saia da cabeça …

    Apanhou as suas coisas e caminhou na direcçäo do arbusto … nem sinal da porta … recordou ento as palavras de Sara :


                    “ … tu tens a chave ...”


    Procurou no bolso das calças o aviäo e voltou a ler a frase.

    De novo colocou-se junto ao muro e começou a contar os passos na direcçäo do portäo de ferro … agora sim … estava a porta.

    Esticou o braço para a abrir … mas … parou o movimento …

    Sara disse que näo poderia regressar … tinha de estar completamente seguro.

    Sentia muita vontade de ir ter com ela … mas de repente, começaram a desfilar pela sua cabeça imagens … dos seus pais … dos seus amigos … dos seus escritos …

    Olhou á sua volta procurando encontrar Sara … mas desta vez näo estava …

Perdeu alguma coisa, senhor?!

    Era um dos guardas do parque.

Näo, näo. É que me pareceu ver um animal.

É possivel. Por aquí aparecem muitos. Tenha um bom dia.

Igualmente.

    Voltou a olhar para o arbusto … a porta já lá näo estava …

    Voltou a olhar para o aviäo … o pedaço de papel estava em branco … nem sinal da frase chave …

    Entäo compreendeu … deixara passar a sua oportunidade … ainda näo estava preparado …

    Encarou o assunto com tranquilidade … no fim de contas, por pior que seja a realidade conhecida … sempre será melhor que um mundo novo … desconhecido …



                                            fim

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viernes, 18 de noviembre de 2022

RELOGIO ... NÄO PARES ... - jorge peres

 


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                        RELOGIO … NÄO PARES ...


    Desde o palco, Roberto olhava aquelas, cerca de 200 pessoas, que enchiam o CÍRCULO ROJO, a sala de espectaculos mais conhecida de TOLUCA DE LERDO.

    Os mexicanos gostavam de música, e, os TRES CABALLEROS, eram sempre muito bem recebidos … naquela noite näo era diferente …

    ROBERTO CANTORAL estava, como sempre, acompanhado do seu violäo, uma guitarra espanhola, já com alguns anos, mas com um som que ele considerava muito seu.

    Era a ultima cançäo … já tinham esgotado a lista com que preparou para aquele espéctaculo … e já iam no terceiro “encore” …

    Fechou os olhos quando, ao terminar os ultimos acordes, receberam quase cinco minutos de aplausos … sentia-se cansado … mas muito feliz …

    Procurou por entre as pessoas da primeira fila … facilmente a encontrou … ITATÍ … a sua esposa … era a mais efusiva … mandou-lhe um beijo subtil …

    Mais tarde, no camarim, ela foi das primeiras a chegar. Atirou-se literalmente para seus braços …

Que lindo, “mi amor” … — os seus olhos brilhavam apaixonados …

Obrigado, querida … bem sabes que tu es a minha inspiraçäo …

    Ouviram-se sorrisos abafados … os outros dois companheiros reagiam a toda aquela manifestaçäo de amor e carinho.

Vamos ficar com inveja!

    Terminaram todos a rir.

Vamos jantar ao SOMBRERO LARGO?

Boa ideia!

    Olhou na direcçäo da sua esposa com ar interrogante.

Meu amor … contigo … até ao fim do mundo … Mas primeiro vou telefonar para saber como estäo os miudos.

Claro que sim.

    No corredor havia um telefone publico.

    Roberto e Itatí estavam casados já há alguns anos e tinham dois filhos.

    Ela acompanhava-o sempre que podia e sempre que a sua mäe se encarregava dos pequenos.

    Horas mais tarde, já depois do jantar, o casal decidiu dar um passeio a pé.

    A noite estava clara, iluminada por uma lua cheia … acabaram sentados … abraçados … olhando, ao fundo o NEVADO DE TOLUCA, uma montanha cheia de neve.

Sabes que o tempo passa e continuo completamente apaixonado por ti?

Eu tambem, Roberto.

Sempre pensei que com o tempo, e os filhos, as coisas se tornariam mais leves … mais “normais” mas näo … … tu lembras-te de como nos conhecemos?!

    Näo houve resposta.

Itatí … ouviste o que acabo de dizer?!

    Olhou para ela … tinha os olhos fechados … estava desmaiada …

Itatí …!!! ITATÍ … !!!

    Suave mas rapidamente colocou-a no carro e acelerou na direcçäo do hospital …


                                    -------//-------


    Já estava umas duas horas na sala de espera do Hospital Central de cidade. Eram tres horas da manhä … pelo menos é o que marcava o grande relogio na parede.

---Acompanhante de Itatí Zuchí !!!

    Um homem alto e forte, de bata branca olhava para ele.

Sim. Sou o marido. Sou Roberto.

Olá. Sou o doutor ISMAEL SANTAMARIA. Pode acompanhar-me, senhor Roberto. Preciso de falar consigo.

    Entraram numa pequena sala e o doutor fez-lhe um gesto, convidando-o a sentar.

Como está a minha esposa, doutor?!

Sr. Roberto … näo trenho boas noticias para si. A sua esposa sofreu um acidente vascular cerebral … um “avc” … muito forte …

E é grave, doutor?

Muito grave. Posso ser honesto consigo?

Claro que sim … por favor …

Existe a possibilidade de que näo sobreviva a esta noite.

Meu deus !!!!!

Virei, sempre que tenha novidades, falar consigo.

    Voltou á sala de espera … sentia um forte aperto no estomago … näo podia perder-la … ela era a sua vida …

    Na imensidäo da sala, naquele momento completamente vazia, o silencio só era interrompido pelo constante “ tic – tac” do relogio.

    Roberto tirou do bolso um bloque de apontamentos e começou a escrever o que sentia na alma…


            Reloj no marques las horas …

              Porque voy a eloquecer …

              Ella se irá para siempre

              Cuando amanezca otra vez …


    As lagrimas quase o impediam de ver o que escrevia … limpou os olhos … continuou …


            “ No más nos queda esta noche

              Para vivir nuestro amor …

              Y tu tic tac me recuerda

              Mi irremediable dolor … “


    Momentaneamente fechou os olhos … pela sua mente passaram imagens de Itatí … o seu olhar … o seu sorriso …

    Roberto era muito religioso … mentalmente entregou-se a uma oraçäo, pedindo pela sua amada … começava a sentir que só uma ajuda divina a poderia ajudar …

    Depois voltou a escrever :


            “ Reloj … detén tu camino …

              Porque mi vida se apaga …

              Ella es la estrella

              Que alumbra mi ser …

              Yo sin su amor … no soy nada … “


    O médico apareceu de novo.

Há novidades, doutor?!

Algumas, senhor Roberto. A sua esposa está a recuperar a consciencia … agora temos de verificar se recupera totalmente … sabe que estas coisas, ás vezes, deixam secuelas …

Mas … sobreviverá ?!!!!!?

Ainda näo o podemos afirmar com certeza … ainda é cedo … precisamos de mais algumas horas …

    Outra vez ficou sozinho … outra vez olhou o grande relogio na parede ...


            Detén el tiempo en tus manos …

              Has esta noche perpetua …

              Para que nunca se vaya de mi …

              Para que nunca amanezca!


    Depois inclinou-se um pouco para tras … e cedeu ao cansaço …

Senhor Roberto?! — despertou de repente … nervoso … á sua frente, uma enfermeira …

Senhor Roberto. Trago boas noticias. A sua esposa está a recuperar bem .. daqui a poucos minutos poderá vê-la … já voltarei para o acompanhar.

    Roberto respirou fundo … precisava ar fresco … o melhor seria sair por um momento …

    Antes de abandonar a sala de espera lançou um ultimo olhar ao relogio … o seu companheiro daquela noite …

Obrigado … relogio … näo pares …



                                    ( quase) fim



    Os TRES CABALLEROS, foram um trio de boleros e outros ritmos sul amaricanos, de que fez parte ROBERTO CANTORAL, o autor da cançäo “RELOJ” e o seu primeiro intérprete.

    Sempre se falou que o tema tinha sido inspirado num episodio amoroso, num ultimo encontro, uma noite, num quarto com um relogio na parede.

    CANTORAL faleceu en 2010, mas uns meses antes deu uma entrevista onde confessou que escreveu a cançäo na sala de espera de um hospital … tudo o resto é invençäo minha … ficçäo … ?! … ou … realidade … ?! …


                                FIM (agora sim)

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O FIM ... OU ... O PRINCÍPIO ?! - jorge peres - 81

                                  O FIM … OU O PRINCÍPIO …      Fechei um dos olhos … com o outro tentei alinhar a pistola c...