sábado, 21 de octubre de 2023

A ESTUPIDEZ DE UMA GUERRA - 79

 


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                                    A ESTUPIDEZ DE UMA GUERRA



    --- Pelotão ! Sentido !

    O grupo de 20 homens formavam perfilados diante do homem graduado …

    --- Soldados … Iván Rodríguez … Carlo Leandro … Josemar Corredano … saiam da formatura e ponham-se à minha frente …

    Os três homens saíram correndo e ficaram numa completa vertical diante do capitão …

    --- Os outros ireis para os vossos postos de ocupação … Pelotão ! Destrozar !

    Todos abandonaram a parada, menos os três que tinham sido chamados …

    --- Você, venham comigo …

    Seguiram-no por entre os edifícios do aquartelamento …

    --- Capitão Santristán !

    --- Diga-me, soldado …

    --- Donde nos leva ?!

    --- Não seja tão curioso, soldado … A seu tempo saberá …

    Entraram no edifício de comando, num salão onde já se encontravam outros dois militares …

    O capitão apresentou-os …

    --- Estes são … o soldado Eliseu Ramirez e o sargento Rolando Cortez …

    Poucos minutos depois entrou outro homem … com mais idade … e mais medalhas … o capitão reagiu de imediato …

    --- Atenção ! Sentido !Entra o general Juan del Castillo …

    O silêncio caiu de golpe … só interrompido pelo som das pesadas botas do militar …

    --- Tranquilos … à vontade … temos que falar de coisas muito sérias … venham … sentemo-nos nessa mesa … aí falaremos melhor …

    Carlo olhou à sua volta … fosse o que fosse … parecia ser importante …

    O general sentou-se na frente de algumas pastas …

    --- Senhores ! Tenho aqui os vossos expedientes … necessito-vos … o país os necessita … Capitão … ponha-os ao corrente da situação presente …

    O capitão levantou-se …

    --- Com licença, general … Companheiros … sei que sentem muita honra e orgulho, como eu, de pertencer ao exército de Estraduz … somos o baluarte da existência tranquila e independente do nosso país … --- bebeu um pouco de água e continuou --- Como sabem, a actual situação política é tudo menos tranquila … há assassinatos todos os días … ministros que não chegam nem a aquecer o lugar … não há estabilidade … isto está insustentável … por isso, e de uma maneira mais que compreensível, alguns companheiros, amantes da nossa pátria, decidiram revoltar-se … organizaram um golpe estado …

    Carlo era, sem dúvida, o mais participativo … levantou a mão …

    --- Diga, soldado !

   --- Somente uma pergunta … o governo que está neste momento, não saiu das votações das últimas eleições ?!!

    General e capitão olharam-se … o primeiro respondeu …

    --- Tecnicamente … sim … ainda que se possa pôr em causa a legalidade de este acto eleitoral …

    O capitão lançou a Carlo um olhar de preocupação … e crítica …

    --- Respondeu o general à sua pergunta, soldado ?!

    --- Sim, meu capitão ! Totalmente !

    O general abriu um mapa.

    --- Senhores … a ideia é fazer convergir tropas, de todos os pontos do país, à volta da capital, Carod … --- com o dedo mostrava a grande cidade, situada quase no centro do país …

    --- Neste momento, Carod, encontra-se já cercada … mas estamos encontrando mais resistência do que esperávamos … por isso … pensamos utilizar um método diferente …

    Os presentes ouviam com atenção … o general depois de uma breve pausa, continuou …

    --- Vamos criar um grupo de comandos operacionais, para cumprir algumas tarefas, diminuindo o risco e minimizando ao máximo a perda de vidas inocentes … vocês serão um desses grupos …

    Olharam-se entre eles …

    --- Posso perguntar algo, meu general ?!

    --- Claro que não !!! --- quem respondeu foi o capitão … imediatamente foi cortado pelo homem de maior patente …

    --- Capitão Fran de Santristán … estes homens vão arriscar as suas vidas … o mínimo que podemos fazer é ouvi-los … pergunte, soldado … como se chama ?!

    --- Sou o soldado Carlo Leandro, meu general … compreendo tudo o que nos disse … mas … porque nós ?!!?

    --- Esperava essa pergunta, soldado Carlo … vou-lhe responder com sinceridade … vocês os cinco foram escolhidos porque, de uma maneira ou outra, tiveram contacto directo com a capital … conhecem-na bem … ao menos são as informações que eu tenho aquí nos expedientes … mas gostava de confirmar … … comecemos por si, soldado Carlo … que tipo de ligação tem com Carod ?!

    --- Não nasci em Carod, mas toda a minha família vive aí …

    O general olhou para o militar que estava sentado ao lado …

    --- Eu sou o soldado Josemar Coredano … vivi em Carod até aos meus 16 anos … depois, os meus pais separaram-se … eu e a minha mãe fomos viver para o sul …

    --- Seguinte …

    --- Eu sou Eliseu Rodrigues, soldado … também não nasci em Carod … mas vivi aí os últimos 10 anos …

    --- Eu sou Ivan Rodriguez, soldado … a minha mãe é da capital, e vive aí … visito-a muitas vezes …

    --- Eu sou Rolland Cortez, primeiro sargento … antes de entrar na vida militar estudei em Carod …

    --- Posso fazer mais uma pergunta geral ?!

    --- Claro que sim, soldado Carod … diga-me …

    --- Esta convocatória é de carácter obrigatório, não é verdade ?!

    O general fez um ar sério …

    --- Não, soldado … se não se sente integrado neste grupo … pode retirar-se …

    O soldado baixou a cabeça … depois de alguns segundos, falou …

    --- Eu fico … podem contar comigo …

    --- Pois já está … cavalheiros … partimos esta noite para Carod … amanhã, já aí, vos será comunicada a vossa missão … podem retirar-se …

    Levantaram-se ao mesmo tempo, fizeram a continência e saíram … não falaram entre eles …


                                                           ------- // -------


    Entraram na capital quando começava a sair o sol … permitiram-lhes descansar …

    Pelas 18 horas foram chamados a uma reunião … esperava-os o capitão …

    --- Senhores … aqui e agora, tomaréis conhecimento do que se espera de vocês …

    Todos estavam expectantes …

    --- Serão os efectivos da operação Bisturi … sabemos que os defensores do regime estão bem organizados … os nossos serviços de inteligência passaram-nos a informação de um dos seus locais de reunião … está na rua de Alperá, número 27 … todos conheceis essa rua … não é verdade ?!

    Todos fizeram, em silêncio, um movimento afirmativo com a cabeça …

    --- É necessário ir aí … esta noite … surpreendê-los …

    Um momento de pausa e o capitão continuou …

    --- Não queremos sobreviventes … compreendem a missão ?! Alguma pergunta ?!

Carlo levantou a mão …

    --- Diga … soldado … --- a voz era já mais ríspida …

    --- Que acontecerá se algo sai mal ?!

    --- Nada pode correr mal …

    --- E se nos descobrem ?!!

    -- Se o fazeis bem … não vos descobrirão …

    --- E se nos capturam ?!!?

    --- Soldado ! Já basta ! É uma missão ultra-secreta … se os capturam, não poderemos fazer nada desde aqui …

    --- Ou seja … que …

    --- Estão por vossa conta …

    O tom de voz do capitão ia perdendo a sua pouca simpatia natural … no final, de novo, silêncio … pesado …

        A noite chegou lenta … o tempo estava espesso …

        Finalmente fizeram-nos subir a um camião … a viagem foi rápida …

       O capitão aproximou-se …

--- Senhores ! Até aqui podemos chegar … Carod está a cinco quilómetros … muita sorte … Sargento Cortez ?!

    --- Si, capitán …

    --- Traga-me estes homens de volta … vivos …

    --- Deixarei a minha vida nesse objetivo, capitão !

    Com uniformes negros … pasa montanhas e capacete tambén negros … cargados com uma metralhadora com silenciador … uma pistola Lugger … uma faca de sobrevivência … um cantil com água … três granadas de mão …

    Ainda que fosse um grande conhecedor da cidade, o sargento tinha um mapa … nele estavam sinalizados alguns pontos de controle dos governamentais … mas podia não estar actualizado …

    Até as primeiras casas avançaram com alguma rapidez … depois … o cuidado foi redobrado … a velocidade reduziu-se para menos de metade …

    Conheciam bem a rua de Aperá … uma das mais comprimidas da capital …

    Estavam a uns 200 metros do número 27 … de repente o sargento levantou o punho direito … sabiam o que significava … pararam todos … inclinados … rente ao chão … camuflados com as sombras da já escura noite …

    Um veículo militar avançava lento pela rua … passou a poucos metros deles …

    Uns minutos depois o graduado fez sinal para avançar …

    O número 27 era uma casa que aparentava normalidade … tinha dois andares … construção antiga … porta de madeira escura …

    Ivan era o experto em fechaduras … ninguém sabia a que se dedicava antes de entrar na vida militar …

    Era bom … em dois minutos ouviu-se um “click” … a porta estava aberta …

    O sargento foi o primeiro a entrar …

    Ouviam-se vozes … uma nesga de luz escapava-se por baixo da porta da sala …

    --- Preparem-se … tentem antecipar-se a qualquer disparo deles … não queremos chamar a atenção …

    Num movimento rápido abriu a porta … Ivan, Josemar e Eliseu entraram rápidos e começaram a disparar …

    Sentados à volta de uma mesa foram caindo … um a um …

    Não houve tentativas de defesa …

    Em segundos havia 5 corpos no chão … um deles era o de uma mulher …

    Esperavam encontrar mapas … papéis … planos … … mas só havia pratos e copos … estavam a jantar …

    --- Carlo !

    --- Sim, sargento !

    --- Confirme se há alguém no andar de cima !

    --- Sim, sargento !

    Subiu as escadas sem fazer ruído …

    Encontrou três quartos … todos estavam vazios !

    Preparava-se para abandonar o último … algo chamou a sua atenção …

    A colcha da cama … juraria que a tinha visto mexer …

    Preparou a metralhadora e, suavemente, aproximou-se rapidamente levantou uma ponta …

    O que viu cortou-lhe a respiração …

    Apareceu a cabeça de uma menina … não mais de cinco anos … olhos de um azul esverdeado … mas … inundados de pânico …

    Carlo afastou a arma … tentou sorrir-lhe …

    --- Carlo ! Tudo bem aí em cima ?!

    --- Sim, sargento … tudo vazio !!

    Voltou a olhar a menina … levou o dedo indicador aos lábios … falou-lhe em voz baixa …

    --- Shhiuuu ! Não saias daí !

    Olhou à sua volta … viu, numa pequena mesa um saco de pipocas … levou-a para baixo …

    Os outros olharam para ele …

    --- Tomem ! Estão boas …

    --- Soldados ! Isto ainda não está terminado … temos que regressar …

    Tal como a ida, a volta foi cautelosa … em silêncio …

    Carlo revia aqueles olhos verdes … muito abertos … alguma coisa, em tudo aquilo não encaixava …

    Chegaram ao ponto de partida quase três horas depois …

    O capitão Santristán estava à espera deles … com ele um general que não conheciam …

    --- Sargento Roland Cortez … informe da situação …

    --- Operação Bisturi concluída com êxito total, meu capitão … cinco inimigos abatidos … o número 27 da rua de Alperá está limpo … …

    --- Muito bem, sargento …

    --- Capitán !

    --- Sim, meu general !

    --- Ouvi dizer … número 27 da rua de Alperá ?

    --- Assim é, meu general … o objetivo da Operação Bisturi !

       O mais graduado olhou para ele fixamente … depois abriu uma das pastas que tinha em cima da mesa … mostrou-lhe …

        O capitão ficou branco …

        Todos compreenderam que se passava algo …

       Carlo furou todo o protocolo militar … avançou e antes que os graduados pudessem reagir, pegou na pasta … … depois deixou-a cair em cima da mesa … deu meia volta e, sem pedir autorização, saiu da enorme tenda de comando …

    Não podia conter as lágrimas … gotas de raiva … de desespero …

    Naquela pasta estavam os planos da “Operação Bisturi” … e o objetivo … “ Rua de Alperá … número 29 “ …


                                                                ------- // -------


    Carlo olhava pela janela daquele 34º andar, bem no centro de Carod …

    Pensava muito na noite daquela fatídica operação militar … já tinham passado quase 20 anos …

    Agora, ele era um executivo de uma importante empresa de informática …

    Abandonara a vida militar logo depois do golpe … esse golpe em que havia participado “involuntariamente” … a situação apanhou-o em pleno serviço militar obrigatório … não tivera outra opcção …

        Mas depois de tudo terminado … e de uma promoção, que recusou … sabia que os seus dias de uniforme terminariam quando se esgotassem os 24 meses de SMO …

        Não voltou a encontrar-se com nenhum dos seus companheiros de missão …

        O som do intercomunicador despertou-o dos seus pensamentos …

        --- Senhor Leandro ?! --- era a voz da sua secretária --- sim, Luisa, diga-me …

        --- Está na recepção uma mulher que diz que quer falar com o senhor !

       --- E quem é ?! Como se chama ?!!

        --- Almudena López .

        Carlo pensou um pouco … mas aquele nome não lhe dizia nada …

        --- Que suba !

        Pouco depois alguém bateu, suavemente, com os dedos na porta do seu escritório …

       --- Entre !

        Entrou uma mulher loira … bem parecida … mas desconhecida …

        --- Carlo Leandro ?!

        Levantou-se educadamente …

      --- Conhecemo-nos ?!

        --- Sim, Carlo …

        Olhou para ela mais atentamente … bonita … atractiva … e os olhos … os olhos … ficou sem palavras … uns olhos azuis esverdeados … sim … ele já tinha visto aqueles olhos … …

    --- Tu … es !! …

    --- Sim … sou a menina a quem salvaste a vida, naquela noite …

    Carlo emocionou-se de novo ao voltar a reviver a operação Bisturi … as lágrimas saltaram … como há vinte anos atrás …

    Aproximou-se dela …

    --- Perdoa-me …

    --- Salvaste-me a vida … estou-te muito agradecida …

    --- Eu fiz parte do grupo que matou os teus pais e irmãos …

    Agora foram os olhos dela que se inundaram …

    --- Posso fazer-te uma pergunta, Carlo ?!

    --- Todas, Almudena … assim te chamas, não é verdade ?!

    Sim. Tu disparaste contra a minha família ?

    --- Não ! Nessa noite não disparei um único tiro …

    --- Era o que eu imaginava … foi difícil encontrar-te … levo quatro anos tentando chegar até a ti …

    --- Deixei o exército assim o que me foi possível … aquela noite persegue-me … até hoje … vejo os teus olhos todos os dias … antes de dormir …

    Ficaram uns momentos em silêncio … ele foi o primeiro a falar …

    --- Posso dar-te um abraço ?!!

    --- Claro que sim !

    Fundiram-se num abraço apertado … tentando controlar a emoção … era doloroso reviver tudo aquilo … a estupidez de uma guerra … de qualquer guerra …


                                                            fim ( quase )



    Enquanto investigava para o livro, “ ECOS … EN EL SILENCIO … “ chegaram-me muitas histórias … esta em concreto …

    Foi-me contada, tendo como cenário, Madrid, e um determinado número da “ Calle de Alcalá “ …

    Segundo o que alguém me contou, este episódio aconteceu na primeira tentativa de Francisco Franco em tomar a capital, em 1936 …

    A história sensibilizou-me enormemente … mas não a consegui contrastar com outras fontes … não pude confirmar a sua veracidade …

    No entanto não quis deixar de contar-vos esta terrível história … passada hipoteticamente num país de ficção … em cidades e ruas inexistentes …

    No fundo, o menos importante é o local … o relato espelha, muito concrectamente, os horrores de qualquer guerra …



                                                                            fim ( agora sim )





viernes, 15 de septiembre de 2023

TODA UMA VISÃO - 78 -

 


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                    TODA UMA VISÃO


    Sentado no sofá, Er passava os dedos pela sua guitarra … não tocava nada de concreto … só jogava com as cordas de metal …

    Toda a gente o conhecia por Er … poucos sabiam o porquê daquele nome tão curto … mas isso não importava a ninguém …

    Er era um tipo simpático … bem parecido … agradável …

        Levantou os olhos quando Pat atravessou a sala …

    --- Estará quase a chegar …

    --- Não te preocupes … esperarei … tenho que falar com ele …

    Olhou-a quando se ia … era muito linda … vê-la fazia-o sentir-se leve … mas … Pat era a esposa do seu grande amigo Jorge … esforçava-se por retirar da cabeça as fantasias que insistiam em povoá-la …

    Um forte som, vindo da porta de entrada do apartamento, foi o sinal de que tinha chegado …

    Jorge entrou na sala em total desequilíbrio … acabou no chão … olhando para Jorge … a rir perdidamente …

    Pat correu para tentar levantá-lo …

    Er deixou a guitarra e ajudou-a …

    Os dois levaram-no até ao quarto, no andar de cima …

    --- Desculpa, Er … --- ela pôs-lhe a mão no ombro .

    Uma corrente eléctrica percorreu-lhe todo o corpo ao sentir o seu contacto …

    Saiu da casa do seu amigo com uma visível pressa …

    De noite não consegiu adormecer com facilidade … os olhos de Pat … o seu sorriso … o seu corpo … não lhe saíam da cabeça …

    Às três da manhã saiu da cama … foi até à sala … de uma gaveta tirou uma folha de papel e uma esferográfica … lhe escreveria uma carta …

    E foi o que fez nos muitos minutos seguintes … uma longa missiva …

    Naquele pedaço de papel explicou todo o seu sentimento … contou-lhe a fragilidade que sentia sempre que estava ao seu lado … a sua constância permanente no seu pensamento …

    Uma carta que nunca lhe entregaria … por isso se sentia solto para escrever toda a verdade …

    Leu-a uma e outra vez …

    Assim o encontraram os primeiros raios da manhã …

    Eles ajudaram-no a mudar de ideias …

    A carta estava escrita … mas … porque não fazê-la chegar às mãos da destinatária ?!!?

    Imediatamente imaginou os problemas que viriam desse passo …

    Ia assiná-la … mas parou na letra “E” … melhor não … lhe entregaria a carta … mas anónima …

    Agora estudaria o “quando” e o “como” a faria chegar às mãos dela …

    Conhecia os hábitos da esposa de Jorge … todos os dias ia ao supermercado … na mesma avenida onde vivia …

    Aquela manhã observou-a de longe … do outro lado …

    Chamou um rapazito que brincava perto …

    --- Eh ! Pequeno ! … queres ganhar uma moeda ?!

    O menino aproximou-se …

    --- Necessito que entregues esta carta àquela mulher loira … poderás fazê-lo ?!!?

    --- Claro !! É fácil !!

    A surpresa de Pat foi grande … sentiu-se observada … mas não podia imaginar por quem … nem desde onde …

    Ao voltar a casa ia lendo, a passo lento …

    Er estava a gostar da atenção que ela prestava à leitura … agora veria qual seria a sua reacção no final … a deitava para o lixo … ou a guardava no seu bolso ?!!

    Sentiu-se muito feliz quando ela optou pela segunda possibilidade …

    Pat dobrou e guardou a carta … e continuou o seu caminho …

    No fim de semana seguinte, reuniram-se todos no Starbox, um bar onde se podia jogar ao bilhar … além de beber cerveja …

    Jorge e Paulo jogavam … Pat, Er e Rin bebiam sentados junto a uma mesa …

    Er tentava encontrar os olhos de Pat … mas ela evitava-o …

    Num determinado momento em que Rin se aproximou da mesa de bilhar, ficaram sozinhos …

    Er começava a ficar nervoso … decidiu ser directo …

    --- Recebeste uma carta ?!!?

    Desta vez ela manteve o olhar …

    --- Sim, Er … recebi a tua carta …

    Ele pareceu surpreendido …

    --- E ?!!?

    --- Que queres que te diga ?!!? Sabes que sou uma mulher comprometida …

    --- Está bem ! --- foi tudo o que lhe conseguiu responder …

    Deu uma desculpa e saiu do bar …

    Três dias depois encontrou-a na rua … um encontro casual … mas chamou-lhe a atenção os olhos vermelhos dela e o arroxeado de um dos seus pómulos …

    --- Que aconteceu ?!? Estás bem ?!?

    Pat não respondeu … grossas lágrimas cairam-lhe …

    --- Vem ! --- agarrou-lhe o braço e entraram numa cafeteria que estava alí mesmo … pediu dois cafés …

    --- Conta-me que passou …

    --- Estou farta, Er … Jorge chega sempre embriagado … todas as noites … e violento … fala-me mal … terminamos discutindo … muito feio …

    Er pôs as mãos dela entre as suas … partia-se-lhe o coração vê-la assim …

    --- Tranquila … que pensas fazer ?!

    --- Vou a deixá-lo, Er … não aguento mais …

        --- Fica comigo, Pat … estou apaixonado por ti …

    Pat olhou para ele … a sua mão acariciou aquelas barbas negras …

    --- Tenho medo … não sei qual será a reacção de Jorge … e ainda por cima … é teu amigo …

    --- Não gostarias de viver comigo, Pat ?!

 Não respondeu imediatamente … olhou-o profundamente …

    --- Sim, Er … gostava muito de viver contigo …

    Ele inclinou-se na mesa … beijou-a … ela retribuiu … depois ficaram em silêncio perdendo-se nos seus olhares …

    --- Tranquila … faz um jantar em tua casa … aí falamos os dois com ele …

    --- Ok ! Amanhã ?!

    --- Sim … por mim pode ser amanhã …

    Separaram-se …

    Er nem sentia o chão debaixo dos pés … ela também sentia algo por ele … que felicidade …

    Pensou também em Jorge … unia-os uma amizade de muitos anos … aceitava-o com as suas luzes e as suas sombras ! … aproximava-os a sua vida profissional … mas … eram muito diferentes …

    Jorge era conquistador … tinha, na verdade, um carisma especial … não se lhe tinha resistido nem a mulher de Rin … mas jamais contaria isso a Pat … já tinha bastante …

    Por outro lado, Jorge era um homem acessível … mas não sabia como iria reagir àquele jantar …

    Passou o dia nervoso … mas era o que queria …

    Dirigiu-se até a casa deles, com toda a serenidade que conseguia aparentar …

    Chegou cedo … Pat abriu-lhe a porta …

    --- Entra ! Jorge está a acabar de tomar banho …

    --- Está sóbrio … ? …

    --- Sim … parece que sim …

    --- Estupendo … melhor assim …

    --- Tenho medo … não sei o que dizer …

    --- Deixa que eu fale … estás segura de que queres vir comigo ?!

    --- Sim …

    Ele foi até à sala … ela até à cozinha …

    Poucos minutos depois apareceu Jorge, ainda com o cabelo molhado …

    --- Irmão … como estás ?!

    --- Bem Jorge … muito bem …

    Deram um abraço sincero …

    Falaram de música … da situação política do momento …

    --- Rapazes … ajudam-me a pôr a mesa ?!

    --- Claro ! --- responderam os dois ao mesmo tempo …

    O ambiente era ameno … amigável …

    Foi já no final, antes da sobremesa, que Er sentiu que chegava o momento …

    --- Jorge ! Temos que falar … sério … !!

    O amigo notou a importância do tema …

    --- Ok ! De que queres falar ?!

    Jorge olhou para a sua esposa … ele baixou o olhar … não conseguiu evitar uma lágrima … --- Já estava à espera … --- Jorge respirou fundo --- Já estava à espera …

    --- Porque dizes isso, companheiro ?!

    --- Er … Pat é uma mulher extraordinária … das melhores pessoas que já passaram pela minha vida … mas eu sou um estúpido … tenho-a tratado super mal … estará farta de mim … e não a critíco … de certeza encontrou alguém … não é verdade … Pat ?!

    Ela olhou-o em silêncio … depois respondeu …

    --- Sim … Jorge ! Sinto muito … …

    --- Tu sentes muito ?! Eu sou quem sente ter-te tratado assim … bebo demasiado … tomo outras coisas … a maior parte do tempo não sou eu … sou eu o culpado … não tu … …

--- São coisas que passam na vida … Jorge …

    --- Eu sei … podem dizer-me quem é o privilegiado que ocupa agora o teu coração ?!!? Pat ?!!?

    Fêz-se um silêncio profundo … depois Er avançou …

    --- Sou eu !

    Jorge abriu muito os olhos …

    --- Caramba ! Isso sim é uma surpresa … não fazia nenhuma ideia sobre isto …

    --- Desculpa, companheiro …

    --- Não peças desculpa, Er … agradeço a ambos a sinceridade … no fundo alegro-me que sejas tu … assim sei que será bem tratada …

    --- Espero que esta incômoda situação não mine a nossa amizade …

    --- Não sei … penso que continuaremos a ser amigos … todos … agora, se me desculpam … necessito apanhar um pouco de ar … vou sair …

    Vestiu o casaco … antes de abrir a porta olhou para eles …

    --- Imagino que já não estarás quando regresse … Pat … desde o coração … desejo-te o melhor … que sejam felizes, meus amigos …


                                       ----------//---------


    Depois daquele “pesado” jantar, Pat e Er Saíram juntos.

    Ela mudou-se para a sua casa naquela mesma noite …

    No fim de semana seguinte estavam convidados para uma festa …

    Pat lutou durante horas com vários conjuntos de roupa     … diferentes looks …

    Quando finalmente desceu as escadas Er levantou-se … extasiado …

    --- Querida ! Estás maravilhosa esta noite … És toda uma visão !!! …


                                fim ( quase )


       Por incrível que pareça, esta é uma história real …

    Divulguemos um pouco os nomes que aparecem e já ficareis com outra ideia …


Er --- Eric Clapton

Pat --- Pattie Boyd

Jorge --- George Harrison

Rin --- Ringo Star

Paulo --- Paul McCartney


    George Harrison e Pattie Boyd, casaram-se em 21 de janeiro de 1966 … os Beatles estavam no seu auge … para ela ele escreveu canções como “Something” ,,,

    Não fazendo parte do mítico grupo, Eric Clapton, era amigo dos quatro de Liverpool, e trabalhava muito com George que colaborava em algumas das suas canções …

    Dois anos mais velho que Eric, George meteu-se pelo caminho do álcool e das drogas o que levou a um arrefecimento do seu matrimónio …

    É verdade que Eric e Pat se apaixonaram … que ambos enfrentaram o marido dela com a situação … sabe-se que o fizeram em casa dele … possivelmente … no meio de um jantar …

    George acabou por reagir bem …

        Eric compôs para Pat canções como “Layla” …

    Também é verdade que, num dos primeiros fins de semana se apresentaram em sociedade e que ao ver a Pat descer as escadas, Eric, enamorado, agarrou numa guitarra e compôs ali mesmo, a estrutura musical do que viria ser, mais tarde, o mega êxito “Wonderful Tonight” …

    Curiosidades … Eric e Pat casaram-se em 1979 … quem foi o padrinho de Pattie ?!!? George Harrison …

    Infelizmente, nos anos 80, Eric entrou pelo mesmo caminho de drogas e álcool que George percorrera anos antes … Também ele maltratou Pattie Boyd que o deixou em 1989 ...




O FIM ... OU ... O PRINCÍPIO ?! - jorge peres - 81

                                  O FIM … OU O PRINCÍPIO …      Fechei um dos olhos … com o outro tentei alinhar a pistola c...