viernes, 4 de noviembre de 2022

ROQUE E LUCÍA - jorge peres

 


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    Sentado num banco do TEMPLO DE DEBOD, Roque pensava no passo que deveria dar.

    Em causa estava aceitar, ou näo, a oferta de trabalho que tinha surgido do nada …

    Tinha estado pensando, até á exaustäo … a sua intuiçäo dizia-lhe que näo … mas a sua idade, já ultrapassava os 40, pedia-lhe que pensasse seriamente na situaçäo com uma perspectiva de futuro.

    Na mäo direita apertava o telemovel, pronto a marcar o número para onde deveria dar a sua resposta.

    Iria ouvir o seu interior … ele era músico … näo administrativo …

    Com um movimento firme marcou o numero que estava escrito no cartäo de visita … quase sem respirar ouviu o sinal de chamada … …

Si. Estou?! — era uma voz de mulher.

    Roque ficou momentaneamente sem reacçäo … que voz aquela … tranquila … doce … de repente sentiu-se invadido por uma estranha paz … a voz insistiu:

Sim?!!? … Quem fala ?!!!!

Bons dias, senhora … eu pretendia falar com uma editora musical … mas parece-me que me enganei no numero …

— Talvez … aquí ouvimos música … näo a publicamos …

Peço desculpa, senhora.

Näo há problema … ás vezes é agradavel falar com alguem desconhecido …

É verdade … tem razäo. Foi um prazer ouvir uma voz täo bonita …

Muito obrigado … você é muito simpático.

    Desligaram. Roque ficou varios segundos a olhar o aparelho como se, por artes de magia, pudesse aparecer no pequeño écran a imagem da portadora daquela täo doce voz.

    Procurou no registo do seu telemovel o ultimo numero marcado e comparou-o com o cartáo … tinha-se enganado no quarto algarismo … agora teria mais cuidado.

                                -------//-------


    As questöes profissionais ocuparam-no cerca de meia hora.

    Olhou o relogio … eram horas de almoçar.

    Parou no primeiro restaurante. Escolheu um lugar na esplanada onde näo apanhasse sol … näo gostava de sol …

    Aquela voz näo lhe saia da cabeça … incrivel … tinha-lhe dado o que mais precisava naquele momento … paz …

    Queria ouvi-la de novo … e, se marcasse outra vez aquele numero? … soaria estranho … a primeira vez foi um engano … agora … podia ser um erro …

    Mas ele näo era muito de fugir aos erros … como tal … clicou em “repetir chamada” …

Sim?! — era a mesma voz.

Perdäo … sou eu, outra vez …

Voltou-se a enganar de novo?!!

Näo … na verdade näo … apenas queria ouvir de novo essa voz …

É uma voz normal e corrente …

Náo! …  nada de isso … é uma voz que, primeiro se estranha … depois … se entranha …

Uiii!!!! Que profundo … …

Roque. Sou Roque Narvaja … e por favor näo me trates por senhor … näo sou assim täo velho …

Ok, Roque … Eu sou Lucía …

Lucía … um nome täo bonito quanto a voz …

Que galante !!! … !!!

Perdäo … só digo o que penso …

Acredito … por esse sotaque deduzo que näo nasceste aquí, em Madrid.

É verdade. Es muito atenta …

Argentino … talvez ?!!!

Touché !!! Em cheio. Na verdade nasci em Córdoba, Argentina.

E o que faz um argentino em Madrid?

Sou músico, Lucía … escrevo cançöes.

Que fixe … e … em argentina näo gostam das tuas cançöes ?!!?

Roque segundos uns segundos de silencio …

Näo posso voltar ao meu país, Lucía. Näo, enquanto o regime me tenha numa lista negra. Por isso vivo aquí desde 1977.

Desculpa … näo fazia ideia …

Sem problema …

Agora mesmo tenho que sair. Se queres podemos continuar a falar mais tarde.

Claro que sim … se tu me permites que te ligue ao final do dia.

Claro que sim.

    Ficou a olhar o écran desligado do telemovel … Lucía … que interessante e inesperada descoberta …

    E ligou essa noite … e na manhä seguinte … e na noite seguinte … e durante as tres semanas seguintes … uma vez ligava um … outra vez o outro … falaram de tudo … trocaram confidencias … ele maravilhado … ela encantada … e seguiam querendo falar mais … e mais …


                                    -------//-------


    Numa manhä primaveril, Roque acordou com uma ideia fixa na cabeça … tinha que ve-la … conhece-la pessoalmente … näo tinha nem uma foto dela … ligou para ela durante o pequeno almoço.

— Olá Lucía.

— Olá Roque … estava a espera da tua chamada …

Sim ?!!!? Que bom … esta noite sonhei contigo.

Uau!!! Um pesadelo?

Nada disso … sonhar contigo é sempre uma delicia … mas comprendi que precisava de algo …

Ai! Sim?!!? E que precisava?

Penso que já chegou o momento de nos conhecermos pessoalmente …

Do outro lado fez - se um profundo silencio.

Lucía … estás aí?!!?

Sim.

O que se passa? Disse algo inconveniente?

Näo.

ui … ui … esses monossilabos dizem - me o contrario …

Tenho que desligar … tenho coisas para fazer.

— … Ok …

    Näo conseguia compreender o que se tinha passado … mas sentia que algo iria mudar … e tinha razäo …


                                --------//--------


    Nas semanas seguintes era sempre ele quem ligava … a voz dela soava triste … apagada … muitos monossilabos … poucos sorrisos …

    Roque se desesperava … näo compreendia porque tudo mudara.

    Sentou-a na sua mesa e começou a escrever:


            A menudo me recuerdas a alguién …

            Tu sonrisa, la imagino … sin miedo …

            Invadido por la ausencia

            Me demora la impaciencia …

            Me pregunto si algún día te veré … “


    Aquela noite, uma vez mais, foi ele quem ligou.

— Ola Lucía.

— Ola.

Como estás?

Bem.

Olha … estou a escrever algo, que será uma futura cançäo … queres que te leia o que tenho?

Sim. Gostaria.

    A leitura criou ainda mais silencio …

Bonito …

Espera … näo está completo … vou  continuar agora mesmo …


            Ya sé todo de tu vida, y sin embargo

            No conozco ni un detalle de ti.

            El telefono es muy frio

            Y tus llamadas son tan pocas …

            Yo si te quiero conocerte y tu no a mi. “


Muito bonito.

Näo consigo compreender porque náo te queres encontrar comigo … pensava que tinhamos algo bonito …

Temos algo bonito.

— Continuo sem comprender …

    Novo silencio … un vazio forte … pesado …

Tenho un segredo.

Que dizes?!!!

Eu tenho um segredo … algo que näo te contei … quando o conheças … pode ser que mudes o que pensas que sentes por mim …

Náo me digas que tens marido!

Näo! Náo tenho ninguem !!!

Entäo vem … encontra-te comigo … conta-me esse segredo … cara a cara … assim poderás ver a minha reacçäo. Uma coisa te digo … eu sou “gemeos” … as minha reacçöes säo puras e sinceras …

    Novo silencio.

Ok! Seja! Encontremo-nos …

A sério? Uffff! Finalmente …

    Marcaram para a manhä seguinte.

    O local proposto por Roque foi a Pastelaria Bordha, ao final de la Calle Preciados, quase a chegar á Plaza Sol … 11 horas … estaría pouca gente … ela aceitou.


                                ------//------


    Chegou cedo … pouco passava das 10.30h

    Escolheu uma mesa desde onde pudesse ver os dois lados da rua … tal como a sua previsäo … passava pouca gente.

    A sua cabeça näo parava de equacionar varios cenarios … Qual seria o segredo de Lucía que a levara a mudar a sua atitude ?!

    Ao longe decote algumas mulheres … seria feia?! Seria isso?! A ele näo lhe importaria … já conhecia o suficiente dela para saber que era uma boa pessoa … 10.50h … as mäos começavam-lhe a suar … desde o fundo da rua subia um grupo de pessoas, entre elas uma rapariga, com uma bengala branca, com uma esfera na ponta … com ela vinha um grupo de mulheres … de varias idades … deu-se conta que a moça cega caminhava em rota de colisäo com a primeira mesa da esplanada … iria chocar … rapidamente levantou-se e chegou junto a ela mesmo a tempo de o evitar.

Cuidado! Permite-me ajudar-te … há uma mesa mesmo frente a ti.

Roque ?!!!

Lucía ?!!!

Sim. Sou eu! — as lentes escuras näo permitiam ver os seus olhos … mas … o sorriso brilhava …

Vem! Estou noutra mesa.

    Sentaram-se e entäo notou que ainda lhe segurava o braço …

Pois já conheces o meu segredo … sou cega … desde que nasci …

És linda … tens o sorriso mais bonito que jamais vi na minha vida.

A serio?!!?

Pensavas que por ser cega me impedirias de apaixonar-me de ti?!

Passou-me pela cabeça … sim …

    Riram-se os dois.

Que tonta és … obrigado por teres vindo …

    As horas passaram sem que se dessem conta.

Olha, Lucía … agora já posso acabar a cançäo.

Ah! Sim?! E como termina?!!!

    Roque Narvaja tirou do bolso o seu bloco de apontamentos e começou a escrever:


            “ Dame uma cita, vamos ao parque,

            Entra en mi vida, sin anunciarte.

            Abre la puerta … cierra los ojos …

            Vamos a vernos … poquito a poco …

            Dáme tus manos, siente las mías,

            Como dos ciegos … “santa” Lucía … “


— Adoro. Que bem que escreves …

Obrigado … gosto muito de estar contigo …

Sabes uma coisa?!! Vamos  fazê-lo?!

O quê? De que falas?

O que diz a tua cançäo … vamos ao parque … dá-me as tuas mäos … deixa que te mostre como eu o vejo …

Ok. Vamos. Apanhamos o Metro e vamos até á PLAZA DE ESPAÑA.

    Chamou o empregado, pagou e sairam de braços entrelaçados.

    Alí continuava uma grande historia de amor … a de ROQUE e LUCÍA.


                            Fim (o quase)


    A cançäo “ SANTA LUCÍA “ é conhecida pela interpretaçäo de MIGUEL RIOS.

    Na verdade, é um original escrito por ROQUE NARVAJA, um musico argentino, fugido do regime dictatorial do seu país.

    Um dia, o productor chileno CARLOS NEREA apresentou os dois musicos, que imediatamente fizeram amizade.

    Decidiram que Miguel interpretaria cançöes de Roque nos seus próximos trabalhos.

    Entre as muitas composiçöes estava SANTA LUCÍA.

    Roqueiro por natureza, Miguel, inicialmente, näo se entuisiasmou essa balada … até que depois de a gravar, encontrou um grupo de pessoas, trabalhadores do estudio de gravaçäo, do outro lado dos vidros, emocionados … a aplaudir …

    Miguel nunca perguntou pela historia da cançäo … Roque jamais a contou …

    Ao longo dos anos, inventaram-se muitas possibilidades … desde uma homenagem a una “ SANTA LUCIA”, até ao contacto telefónico entre dois homens … mas esta … esta é a minha teoria pessoal … ficçäo ?! … ou … realidade?!!



                        fim (agora sim)


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