A JANELA OCULTA
Sentado em frente a uma mesa, Jorge olhava os muitos papeis espalhados.
Aproximava-se o veräo … vinham as ferias …
Sempre tirava o mes de agosto … e sempre ia, com toda a familia, para a praia … Nazaré … Figueira da Foz … Säo Pedro do Estoril … Caparica … Faro … Monte Gordo … alguns anos passavam a fronteira … Matalascañas … Cadiz … Benidorm …
O problema é que, económicamente, este ano estava a coisa particularmente complicada.
Foi a pandemia … depois a mudança de emprego … o despedimento de Maria, sua esposa … tudo muito complicado …
Este ano estavam quase em numeros vermelhos … teria que pensar num plano “B” …
— Navegando entre papeis e numeros ?!
Maria tinha-se aproximado silenciosamente.
— Estou a tentar planificar as nossas ferias … mas isto está complicado …
— Ficaremos em casa … sem problema.
— Tentarei encontrar uma soluçäo — pelos miudos … e também por ti e por mim … sempre é bom mudar de ares … pelo menos uma vez por ano …
— Sei que encontrarás uma maneira … conheço o meu marido … sai ao seu pai …
Deu-lhe um beijo carinhoso na face e saiu da sala.
Jorge sorriu para dentro … sim … o seu pai fora um homem com um grande espirito de inciativa … trabalhou toda a sua vida … afinal … acabou por deixar a casa … a horta … na aldeia … tudo abandonado …
O seu pai … … a aldeia … … porque näo ?!?
— MARIA !
A cabeça da sua esposa apareceu na porta entreaberta.
— Chamaste-me?
— Vem cá … acabas de me dar uma grande ideia.
— Eu ?!? O que é que eu disse !?!
— Mencionaste o nome do meu pai … isso fez-me acender a minha luz interior … e se formos passar o mes de agosto ás Sarzedas? A casa do meu pai?
Maria ficou uns segundos pensativa.
— Estará em condiçöes para os pequenos?
— Sim. Lembra-te que eu estive la há umas semanas a procurar uns papeis? A casa está muito bem … apenas necesita de uma limpeza … nada mais …
— E tem agua e luz?
— Claro que sim … nunca as mandei cortar.
— Pode ser uma boa ideia … mas prepara-te para uma feroz oposiçäo por parte dos nossos filhos.
Maria tinha razäo. Jorge teve muitas dificuldades ao tentar “vender” a ideia.
A Manuela, 14 anos e a Julio, de 12, näo encontraram muita graça na ideia de passar um mes inteiro numa aldeia de pouco mais de 800 habitantes e numa casa de pedra …
Jorge usou todo o seu poder de argumentaçäo …
— Tranquilos … pensem um pouco … näo haverá a confusäo da praia … respira-se ar puro … lembrem-se que Sarzedas está em plena serra …
— Jorge … a horta do teu pai ainda tem o tanque de agua?
Jorge abriu mais os olhos …
— É verdade! Se o mando pintar … dará uma mini piscina …
Pela primeira vez sentiu a cara da sua filha mudar … Julio parecia mais renitente … olhou para o pai:
— E a casa tem internet?
— De momento näo … mas eu comprometo-me a mandar instalar um wifi, quando chegar o momento …
— Olha, Julito … — falava Manuela — podia ser interessante … eu tenho a minha piscina … tu tens a tua internet … porque näo ?!
Para alivio de Jorge e Maria, por fim, a familia estava de acordo.
Limpar os acessos á casa, a horta, e pintar o tanque … custaría umas centenas de euros … mas, na totalidade, as ferias seriam um investimento muito menor que em outros anos.
Além disso, Sarzedas estava a 20 km de Castelo Branco … mais ou menos uns 20 minutos de casa.
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Finalmente chegou o grande dia.
Todos os anos, o primeiro de agosto era sinonimo de excitaçäo … nervos … frenesim … e, claro, quilómetros e quilómetros de viagem … que este ano, seria curta.
— Papá!
— Diz-me, Julito — falava enquanto conduzia.
— A casa do avô sempre foi da nossa familia?
— Sim. A casa foi construida pelo teu quinto-avô … e todos sempre viveram lá. — olhou sonridente para Maria sentada ao seu lado.
Manuela viu a oportunidade de assustar o seu irmäo.
— E lá morreram todos — olhou para a janela, divertida.
— Todos ?!!!!
— Sim, Julito … bem … todos menos o teu quatro-avô, Oscar …
— E o que é aconteceu com ele?
— Ninguem sabe … um dia, simplesmente, desapareceu … e nunca mais voltou …
A conversa parou ao passar o chafariz, do lado esquerdo da estrada … estavam a chegar.
A rua de Säo Pedro, ao cimo da qual se encontrava a casa, estava logo á entrada da aldeia … mas era muito estreita, ingrime e tinha dois sentidos …
Jorge preferia sempre atravessar toda a povoaçäo e subir por outra rua … mais curta … e que ia direita á capela de Säo Pedro … a casa estava mesmo ao lado.
Manuela e Julio conheciam bem o local, tinham visitado o avô em varias ocasiöes.
Ficaram surpreendidos com quäo limpa e organizada estava a casa …
— Até parece que continua a viver aquí alguen, mamä …
— Bem … eu e o teu pai viemos um par de veces, nas últimas semanas para ter tudo pronto para vocês.
— Filhos … há um quarto livre no andar de cima e outro aquí … podem escolher …
— Quero o de cima — Manuela sempre se antecipava, coisa que irritava o irmäo.
— E porque tens de decidir tu?!
Manuela olhou o irmäo com un certo ar de superioridade.
— Porque sou a mais velha … Parece-te suficiente?!
Julio encolheu os ombros e dirigiu-se ao quarto que estava ao final do corredor.
Abriu a porta … era grande … gostou de imediato.
Sentou-se na cama … pareceu-lhe muito confortavel …
Desde aquela posiçäo foi vendo todos os pormenores … sempre o tinham impressionado as enormes janelas daquela casa … entrava muita luz … de noite, fechavam-se com umas altas portas de madeira … por dentro … segurança total.
A outra parede tinha duas portas … uma näo chegava ao chäo.
Abriu a primeira … tinha uns armários e um roupeiro …
Tentou abrir a mais pequena … mas estava fechada … á chave …
Que estranho … que haveria do outro lado? Outro armario ? … e … porque estava fechada?! …
— MENINOS! Venham!
Em menos de um minuto estavam todos no saläo grande.
— Vamos mostrar-vos como está a horta … e de volta passamos pelo supermercado … temos que cozinhar …
O terreno estava mais ou menos a um quilómetro da aldeia … foram de carro … mas podia-se perfeitamente ir a pé …
Todos ficaram encantados com o simpatico espaço onde näo faltava um poço de agua … uma enorme laranjeira ... muitas oliveiras e figueiras … e, claro … o tanque …
Manuela estava maravilhada com a sua pequena piscina …
Julio mantinha-se algo distante … aquela janela fechada näo lhe saia da cabeça … ao pai isso näo passou desapercebido.
— Julito … o que se passa contigo ?! — passou-lhe o braço pelos ombros — näo estás a gostar do que vês?
— Sim, papá … estou a gostar muito da horta e da casa …
— Entäo o que é que te preocupa?
— No meu quarto há uma janela, ou uma pequena porta … mas está fechada á chave … sabes porquê ?!!!
— Ah! Sim … já nem me lembrava dessa meia porta … sempre esteve aí … e sempre esteve fechada … pelo menos desde que me lembro … näo te preocupes com isso … disfruta das ferias …
— Obrigado, papá … assim farei …
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Aquela tarde, depois de almoçar, os seus pais decidiram subir ao quarto para descansar um pouco.
Manuela fez o mesmo, olhando o seu telemovel …
Julio tinha a sua tablet … mas decidiu aproveitar o tempo para explorar um pouco o resto da casa.
A grande sala, tinha um pequeno anexo … näo tinha portas … só umas grandes cortinas que escondiam o seu interior.
Para Julio, aquilo era um convite.
Entrou e, maravilhado, encontrou um grande conjunto de livros … havia muitissimos …
Ele gostava muito de ler … tocou alguns … quase todos eram muito antigos …
Interessavam-lhe as historias de misterios … enigmas …
Um livro, em particular, com uma encadernaçäo especialmente bonita chamou a sua atençäo … o CONDE DE MONTE CRISTO de ALEXANDRE DUMÁS … já tinha ouvido falar, no liceu, daquele autor …
Ao abrir o livro algo caiu na carpete que cobria o chäo … olhou atentamente … parecia uma chave … guardou-a no bolso das calças … mais tarde a daria ao seu pai.
Regressou ao quarto com aquele livro debaixo do braço … iria ler um pouco e esperar que todos acordassem.
Ia pela terceira pagina quando, de repente, teve uma ideia.
E se a chave que encontrou na biblioteca pudesse abrir a porta misteriosa?
Tirou-a do bolso e aproximou-se …
Parecia pequena para aquela fechadura …
Como chave era estranha … sem dentes, relevos ou desenhos …
Introduziu-a na abertura … näo entrava … pressionou um pouco … näo parecia servir … seria de qualquer outra porta …
Decidiu desistir e continuar com a sua leitura …
Mas agora a chave näo saía … estava presa …
De repente, e sem qualquer acçäo por parte de Julio a chave desapareceu na fechadura … com um click … a porta abriu-se uns milimetros …
Julio abriu os olhos com entusiasmo … iria saber o que escondia aquela porta …
Pouco a pouco foi abrindo …
Näo era nada do que tinha imaginado … täo somente … era um espelho … afastou-se um pouco …
Porque um velho e simples espelho estava fechado e tapado com uma porta?
Tudo aquilo era do mais estranho …
Mas aquele espelho tinha algo de anormal … colocou-se na frente dele … mas a sua imagem näo apareceu reflectida … e agora tambem reparava … o quarto tambem näo se via nele … mais parecia uma janela ao exterior … mas isso era impossivel … do outro lado da parede estava o corredor interior …
Näo conseguia compreender … tambem parecia que a superficie näo era totalmente lisa … tocou-lhe com a mäo … inacreditavelmente os seus dedos penetraram por aquela superficie … pos as duas mäos … igual …
Poderia meter a cabeça e olhar ?!! … sentiu medo … instintivamente fechou a porta.
Tinha que contar a alguem …
Os seus pai seguramente fechariam a porta e ficariam com a chave …
Contaria a Manuela … sim … podia confiar na sua irmä …
Na sua cabeça havia uma luta intensa entre a curiosidade de olhar e o medo pelo que fosse encontrar …
A curiosidade foi mais forte.
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Poquito a poco meteu a cabeça … abriu os olhos … via-se uma igreja pequena … a poucos metros … sentiu ar fresco na cara … tudo muito tranquilo … tirou a cabeça … näo parecia ser muito perigoso … ainda sem comprender como, assumia de que era uma janela … pois ele iria ao outro lado …
Pôs uma cadeira debaixo … subiu … respirou fundo … e passou …
Olhou com atençäo por onde saía … uma grande arvore … oca …
Estava tudo muito escuro … só se ouvia o vento a descer pela serra …
De repente sentiu vozes … instintivamente escondeu-se entre o mato … aproximavam-se dois homens … iam conversando … passaram muito perto dele … continuaram sem parar descendo a rua …
Julio respirou … mas algo chamou a sua atençäo … que estranha forma de vestir tinham aqueles homens …
Näo quis arriscar mais e voltou ao seu quarto …
Tinha que contar tudo a sua irmä.
Subiu as escadas de duas em duas e tentou bater suavemente na porta do quarto dela … Manuela abriu a porta …
— Que queres?
— Tenho que te mostrar uma coisa … anda !
Ela olhou para ele intrigada, mas notou que era importante … dispos-se a segui-lo.
— Espera … pöe um kispo.
— Vamos á rua?!!
— Mais ou menos … Vem!
Já no quarto de baixo Julio contou-lhe tudo, entre o ar de incredubilidade dela e alguns sorrisos …
Mas a expressäo de duvida de Manuela desvaneceu-se por completo quando ele afastou a porta de madeira e o “espelho” apareceu na sua frente …
— E podemos ir ao outro lado?!
— Claro que sim … por isso te disse que trouxesses o kispo?
A paisagem estava igual como a deixara Julio minutos antes ...
— Olha, Julio … esta é a igreja de Säo Pedro … a que está ao lado da casa do avô …
— Mas a igreja de Säo Pedro é velha e esta é nova …
— É a mesma … mas esta parece que a pintaram á pouco …
— E essa é a rua por onde desceram os dois homens.
— Curioso Julio … essa é a rua de Säo Pedro … olha … aí está a casa do avô …
— E onde estäo as outras casas?
— Näo estäo … ainda näo …
— Como é que ainda näo ?!? Näo entendo nada !!!
— Estamos no passado … näo sei exactamente em que ano … regressemos a casa … voltamos amanhä quando for de dia.
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Näo foi facil convencer os seus pais de que naquela manhä os dois queriam ficar em casa.
— Vamos lá a ver … eu e a vossa mäe temos que ir ao cemiterio … depois passaremos pela Casa do Povo … estávamos a pensar deixar-vos na horta … o que quereis fazer em casa ?!!
— Eu estou a seguir uma serie em Netflix … — olhou para o irmäo …
— E eu estou a ler um livro muito interesante que encontrei na biblioteca … O CONDE DE MONTE CRISTO …
Jorge olhou para a sua esposa … ela fez-lhe um gesto cumplice com a cabeça …
— Ok. Entäo … divirtam-se.
Esperaram até que os seus pais saissem … depois correram para o quarto do Julio.
Com a luz do sol tudo se via de uma maneira diferente … desceram pela rua … encontraram um ambiente humano inesperado … parecia um mercado … uma feira … havia muita gente … falavam … gritavam …
— Tens razäo, Nela … esta gente veste-se de uma maneira muito antiga … nem os avós se vestiam assim …
— ABRAM ALAS! — alguém gritou.
Aproximava-se um carro de cavalos …
As pessoas começaram a murmurar …
— O alcaide … vem o alcaide …
De repente uns braços delgados abraçaram-os por trás e fizeram-os entrar numa casa.
— shiuuu! Näo tenham medo … neste momento näo é seguro que dois meninos täo pequenos estejam aí fora …
Era uma mulher de meia idade … parecia amavel …
— Sou Isabel … e vocês ?! Quem sois ?!! E porque estais vestidos dessa maneira?!
Julio ia responder, mas Manuela adiantou-se.
— Eu sou Manuela e ele é Julio … näo somos daqui … estamos de passagem …
— E os vossos país, estäo na feira?!
— Sim. Sim. Estäo … quem é o alcaide?
— Oscar Ribeiro … já leva alguns anos no cargo.
— Ribeiro ?!!! — Julio ia a falar mas mais uma vez a sua irmä o fez calar.
— E porque lhe chamam alcaide? Sarzedas é uma freguesia … quanto muito seria Presidente de Junta de Freguesia.
A mulher olhou para ela muito seria.
— É verdade, jovenzita … mas näo te esqueças que até ao ano passado eramos sede de concelho … do nosso concelho …
— E que aconteceu?
— Pois … aconteceu que a nossa rainha — fez uma venia ironica — roubou-nos esse titulo … esse titulo foi nosso durante mais de 600 anos … Oscar era, entäo, o alcaide … agora é o que disseste … presidente de … isso … mas continuamos a chamar-lhe alcaide.
Manuela parecia muito interessada na conversa.
— E como pessoa … como é?
— É um pouco estranho … tem muitas ideias … algumas näo as compreendo … com outras näo estou de acordo … mas tem sido muito bom para o povo … é bom homem …
Manuela fez um sinal ao irmäo.
— Temos que ir.
Antes que Isabel pudesse reaccionar sairam os dois correndo … subiram a dificil rua de pedra sem parar … encontraram a grande arvore … voltaram a casa.
— Incrivel — para Manuela ainda era dificil controlar a respiraçäo.
— Näo compreendi nem a metade do que disseram.
— Mas eu sim … já te explicarei …
— MENINOS! Já estamos em casa!
— Perfeito. Vamos a falar com o papá.
— Nelita. Vais-lhe contar?!!!
— Näo !!! Tu sigue-me o ritmo.
Julio foi para o saläo … o pai Jorge descansava no sofá.
Manuela subiu ao seu quarto e desceu de imediato trazendo un bloco de apontamentos y uma esferográfica.
— Que se passa? — Jorge estava admirado — Vais-me fazer uma entrevista ?!!
— No, papá — riram-se todos — mas tenho algumas preguntas para ti …
— Ui !!! Que emocionante … dispara !!!
— Sarzedas sempre foi freguesia?
Jorge estranhou a pregunta … mas respondeu encantado.
— Náäo. Sarzedas chegou a ser muito importante noutros tempos. Entre 1212 e 1836, foi sede do seu proprio concelho.
— E porque deixou de o ser?
— Deciso da entäo rainha D.Maria, já näo sei se I ou II … de certeza que mal aconselhada pelos seus acessores incluiu a aldeia como freguesia no concelho de Castelo Branco.
— Ultima pregunta … o nome da nossa familia sempre foi Ribeiro?
— Sim. É uma familia muito antiga. Porquê?
— Simples curiosidade, papá … muito obrigada — levantou-se — vem, Julito.
Sairam os dois a correr deixando o pai ainda mais surpreendido … agradavelmente surpreendido …
Já no quarto de Julio, Manuela parecía muito entusiasmada …
— Já podemos tirar conclusöes …
— Pois eu sigo sem comprender.
— Tranquilo, irmäozito … sabes que historia é a minha disciplina favorita … olha … o pai contou que Sarzedas perdeu o seu titulo en 1836, verdade ?!!!
— Sim.
— ok. Do outro lado, Isabel, a mulher da feira, comentou que isso tinha acontecido o ano passado … logo … do outro lado da janela estamos em 1837 …
— Por isso se vestem todos daquela maneira …
— E ouviste o pai dizer que o nome da familia sempre foi Ribeiro?
— Sim …
— Lembras-te tambem que, durante a viagem para cá, o papá falou de um parente que tinha desaparecido ha muitos anos?
— Sim … mas já näo me lembro do nome …
— Oscar … papá disse que se chamava Oscar …
— E o alcaide chama-se Oscar Ribeiro … …
— Exacto, Julito …
— O nosso parente desaparecido será o alcaide?
— Talvez … temos que conseguir falar com ele …
— Amanhä de manhä voltamos lá.
Para os dois jovens, mas principalmente para Julio, o resto do dia passou penosamente lento … olhavam repetidas vezes o relogio … e, para surpresa dos seus pais, foram para a cama muito cedo.
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Ainda näo eram as 8 da manhä quando Manuela bateu levemente na porta do quarto de Julio.
O irmäo já estava pronto … ambos vestiam roupa escura para passar mais despercebidos.
Do outro lado estava ainda mais fresco do que no dia anterior …
Desceram a rua … desta vez estava deserta … a porta de Isabel estava fechada … era de tabuas de madeira …
Julio tentou espreitar pelas fisgas … näo se via ninguem dentro … tentou empurrar … entäo sentiu uma mäo forte agarrar-lhe no ombro.
— Qual é a ideia … ranhoso ?!? Roubar ?!?
— Näo. Näo. Estava a ver se Isabel estava em casa.
Entäo Julio deu-se conta de que eram tres homens, enormes … e que um deles agarrava tambem a sua irmä.
— Estais presos … sabéis o que fazemos, aquí nas Sarzedas, aos ladröes? — Julio näo conseguia articular palavra — a forca !! … vamos …
Com violencia arrastraram-os pela rua Nuno Alvares.
Chegaram a um largo, com um pelourinho … aí se enforcavam os que näo cumpriam a lei.
— Esperai! Queremos falar com o alcaide.
— E tu achas que o alcaide tem tempo para perder com dois ladröes ranhosos?
— Näo somos ladröes … nem ranhosos … — era a primeira vez que falava Manuela — somos da familia do alcaide.
Mas os homens riram-se alto ao mesmo tempo que punham o nó corredisso a vólta dos seus pescoços.
— Eu sou Manuela Ribeiro e ele é o meu irmäo Julio Ribeiro … somos familia de Oscar Ribeiro, o alcaide … se näo o informam da nossa presença aquí ele näo vos perdoará … nunca!
A voz firme de Manuela fez parar os homens … agora olhavam uns para os outros …
Um deles aproximou-se de uma casa, no mesmo largo … deu dois murros na porta … depois deu um passo atrás, olhou para a varanda e gritou:
— Alcaide. Alcaide!
Entretanto tinham-se juntado umas 50 pessoas alertadas pela situaçäo.
Na varanda apareceu Oscar Ribeiro.
— O que se passa ?!!? Que há assim de täo urgente a esta hora ?!!? — depois olhou para o pelourinho — quem säo esses pequenos ?!!? e porque os quereis enforcar ?!!?
— Apanhámo-los a roubar, alcaide.
— E porque me incomodais ?!!?
— Por que dizem que o seu apelido é Ribeiro e que säo da sua familia.
— Näo creio … mas esperai … já vou aí.
Poucos minutos depois Oscar apareceu … dirigiu-se ao mastro de pedra … deu uma volta olhando …
— Näo vos conheço. Quem sois ¿?!
— Eu sou Manuela e ele Julio … tu és o nosso quatro avô …
— E como é possivel ?!?
Manuela baixou um pouco a voz.
— Saimos pela mesma janela que tu.
A cara do alcaide alterou-se instantaneamente … olhou para eles muito serio … depois voltou-se para os tres homens.
— Tirem-lhes a corda, vou reunir-me com eles na minha casa.
— Como o senhor mande, alcaide.
Entraram em casa e antes de fechar a porta, Oscar dirijiu-se de novo aos homens.
— Dispersem esta gente … aquí já näo há nada para ver.
— Esperamos por eles?
— Näo. Continuai a ronda … eu encarrego-me deles.
Passaram á sala.
— Sentem-se. Contem-me a historia da janela … ainda continua lá ?!!?
— Sim. Foi por lá que saímos.
— Eu descobri a chave — Julio já conseguia falar.
— Chave?!!?
— Sim. Puseram uma porta por dentro com fechadura … assim esteve muitos anos … isso disse-me o meu pai …
— O vosso pai … a que ano pertenceis?
— 2022
Oscar abriu muito os olhos …
— 2022 ?!!? Ou seja !!! os meus pais … os meus irmäos … já morreram — o seu olhar entristeceu-se.
— Porque ficaste aquí ?
— Quando quis regressar a arvore näo me deu acesso … alguem a fechou …
— Quem ?!
— Tenho uma ideia … mas já näo importa … refiz a minha vida aquí … casei … tenho filhos … um pouco mais velhos que vocês …
— E como chegaste a alcaide?
— Quando fiquei aquí havia uma diferença de uns 100 anos a menos … servi-me dos conhecimentos que tinha do futuro daqui para exercer influencia … tinha vantagem … usei-a .
Julio levantou-se, correu para ele e abraçou-o.
— Agora podes voltar connosco.
Oscar devolveu-lhe o abraço … manteve-se uns momentos em silencio … depois fez um sinal a Manuela para que se aproximasse …
Com os dois miudos sentados, um em cada joelho suspirou …
— Näo. Näo vou voltar … näo posso …
— Porquê ?!!!
— Olha, Julio … passaram já muitos anos … todos os meus já morreram … o mundo que eu deixei já näo está … já näo pertenço aí …
— Compreendo-te — Manuela recostou-se no seu peito …
— E, além disso, tenho a minha familia aquí.
Voltou o silencio.
— Oiçam, meninos … vou pedir-vos uma coisa …
— Diz.
— Quero que voltem á vossa realidade … que fechem de novo a janela … que ninguém, nunca mais, passe através dela … quero que me prometam isso … agora!
— Ok. Assim faremos.
— Vamos. Acompanho-vos até á arvore.
Caminharam em silencio … ninguem se cruzou com eles … ao lado da arvore ajoelhou-se e abraçou-os de novo.
— Que vos corra tudo bem na vida, pequenos — estava emocionado — foi um prazer conhecer-vos.
— Näo queres entrar? Só para dar uma vista de olhos ?
Oscar duvidou um pouco … mas decidiu.
— É melhor näo … vamos … ide …
A primeira coisa de que se deram conta ao voltar ao quarto de Julio foi o som de chamada do telemovel da Manuela.
— Si?! Mamä ?!!! Estamos em casa … depois contamos … ok … desculpa …
— Que se passa, mana?!
— Papá e mamä estäo aflitos, a nossa procura …
Julio olhou para o pequeno relogio na mesinha de cabeceira … 11.30h … os seus pais estavam preocupados desde as 8.30h …
— Nelita … contamos-lhes quando chegarem?
— Näo sei se é boa ideia … penso que o melhor será voltar a fechar a janela e esconder a chave …
Julio levantou-se e fechou a porta de madeira. c
— Vem, Nelita … vamos deixar a chave onde a encontrei.
Saiam da bibloteca quando chegaram Jorge e Maria.
— O que vos aconteceu? Estávamos muito preocupados …
— Por favor desculpem … fomos á serra muito cedo para ver as plantas …
Uma vez mais Manuela tomava a iniciativa …
— Sem nos dizer nada?!
— Vocês ainda estavam a dormir … näo quisemos fazer barulho … desculpem … perdemos a noçäo do tempo …
Julio correu a abraçar os pais …
— Nem imaginam as coisas lindas que vimos …
Manuela foi-se aproximando e juntou-se ao abraço de familia … o segredo estava protegido … assim se manteria a janela oculta.
Fim (näo bem)
Neste relato quis, no fundo, prestar uma singela homenagem á aldeia de Sarzedas … outrora sede do seu proprio concelho e hoje como querendo renascer da sua quase desapariçäo nos anos 70.
O aumento populacional e social teve que ver com a instalaçäo do fornecimento de energia electrica e de agua canalizada, o que se deveu a acçäo do meu falecido pai (um Ribeiro) juntamente com outras pessoas.
A historia em si é ficçäo, as datas e momentos säo reais no seu enquadramento historico.
O alcaide (assim se chamava antes) Oscar Ribeiro nunca existiu … a familia Ribeiro sim … eram os meus avós … a casa grande de pedra ao lado da capela de Säo Pedro näo existe … a igreja sim.
Uns anos depois o pelourinho foi destruido … mais tarde ergueram outro no mesmo sitio e utilizando tres blocos de pedra que tinham pertencido ao original.
Sarzedas, está hoje incluida no roteiro das aldeias do Xisto.
Fim ( agora sim )
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