lunes, 23 de enero de 2023

ANA ... A SERPENTE ... - jorge peres

 


                                ANA … a serpente …


    Näo parava de pensar nela … era diferente … gira … com um bonito corpo, com os seus 30 anos ainda näo cumpridos …

    Nada sabia dela, nem da sua vida … somente que se chamava Ana … que vivia inexplicavelmente sozinha …

    Fazia bolos em casa, muito bons, que depois vendia na Pastelaria Colmeia, no centro da cidade.

    A primeira vez que a viu … ficou muito nervoso … lembrava-se bem … foi no Centro Comercial Santiago … pequeno … escuro … tinha ido ao café do fundo e, ao entrar viu-a de imediato … sentada … só …

    Logo gostou dela … cruzaram olhares … mas näo conseguiu reunir coragem para lhe falar …

    Quando ela saiu perguntou ao rapaz do bar …

Quem é ?!

---- É Ana … a serpente … cuidado ! … näo te convém …

É só curiosidade.

    O barmen sorriu …

    Horas mais tarde encontraram-se no supermercado Pingo Doce … os dois chegaram ao mesmo tempo à fila da caixa …

    Com cortesia imobilizou o seu carro de compras … permitiu que ela fosse na sua frente …

Muito obrigada … é todo um cavalheiro …

Por favor … é um prazer …

    Enquanto esperavam ele decidiu iniciar conversa …

Desculpa … sou Francisco …

Um prazer, Francisco … eu sou Ana.

Vi-te esta manhä no café …

Sim. Eu tambem te vi.

    Do supermercado sairam os dois como velhos amigos … combinaram tomar um café … depois do almoço …

    E ali estava Francisco, numa das esplanadas das Docas … esperando que chegasse …

Olá.

Francisco levantou-se … näo sabia muito bem como cumprimenta-la … ela solucionou a sua duvida … tomou a iniciativa e deu-lhe dois beijos, um por cada face …

    Falaram sem dar-se conta do tempo.

Diz-me, Francisco … estás seguro que queres que te vejam comigo em público ?!

Gosto da tua companhia … que tem de mal ?!

Näo te avisaram sobre mim ?!

Náo muito … ah! … disseram-me que tens um apelido curioso … “a serpente” …

E disseram-te porque tenho esse apelido ?!

Näo! E na verdade para mim é secundário …

    Ana manteve-se uns momentos a olhar para ele em silêncio ...

Já te deste conta que agora mesmo toda a gente olha para nós ?!

    Francisco olhou dissimuladamente à sua volta … efectivamente as pessoas olhavam e falavam em surdina … e … o mais interessante … a esplanada estava cheia, com pessoas de pé esperando lugar … mas … as mesas imediatamente mais perto da sua estavam vazias …

O que se passa com esta gente ?!?!

Têm medo.

De qué ?!?!

De mim …

Náo compreendo ! … como pode alguém ter medo de ti ?!?!

Por alguma razäo me chamam Ana “a serpente” …

E porquê esse nome ?!?

    Ana duvidou se devia seguir com aquela conversa … Francisco era um bom rapaz … sentia algo por ele … mas näo sabia se, abrindo o jogo, ele näo sairia correndo … mas decidiu continuar …

Diz-me uma coisa, Francisco. Que sabes tu de bruxas ?

    A pergunta impactou no seu estomago como um murro …

Bruxas ?!?! Queres dizer, videntes ?!?!

Näo! Näo é o mesmo … as videntes têm o dom de ler o futuro … as bruxas podem mudar o presente …

A ideia que tenho sobre bruxas … é que säo mulheres que viajam por aí sentadoas em vassouras …

    Ana soltou uma pequena gargalhada …

Viste o filme “Akelarre”, näo é verdade ?!

Sim. — Francisco tambem sorria …

Hoje em dia a realidade das bruxas é diferente.

Vejo que sabes do tema.

Eu sou uma bruxa, Francisco.

O qué ?!?!

Parece que todos aquí o sabem … menos tu …

Explica-te …

Existem dois tipos de bruxas … as brancas e as negras … as negras säo as mais conhecidas … recebem dinheiro por feitiços … conjuras … sempre a favor de umas e em contra de outras pessoas … as brancas säo o inverso … usam os seus poderes para fazer coisas positivas … nunca podem prejudicar ninguém …

Estou seguro que, a ser uma bruxa, serás uma branca …

Assim é, Francisco.

E porque é que as pessoas têm medo de ti, sendo tu uma bruxa branca ?!

Porque näo sabem a diferença … para a grande maioria, bruxas säo bruxas e pronto …

Näo consigo imaginar-te a fazer mal a alguem …

Obrigada … és um querido …

E o apelido de “serpente” … de onde vem ?!!!?

Vem da minha mäe … a ela tambem lhe chamavam assim … um dia conto-te … tudo a seu tempo … agora tenho que ir …

Tenho o carro estacionado aqui perto … queres que te leve a casa ?

Näo será muito incomodo para ti ?!

Claro que näo !

Entäo aceito … sempre me custa subir as ruas do castelo a pé.

    Ao sair da esplanada fez-se um profundo silêncio … depois … enquanto se iam afastando, voltou o som das vozes.

    Francisco parou à porta da casa que lhe indicou Ana.

Obrigada, Francisco … voltaremos a ver-nos ?!

É o que estava a pensar … amanhä é sábado e montam uma Feira Medieval aqui perto, no recinto interior da muralha do castelo … apetece-te que a visitemos juntos ?!

Vejo que és corajoso !!!

Nahhh! Sou apenas um pobre mortal … inocente … puro …

Sim! Claro! Nisso näo acreditas nem tu mesmo … está bem … encontramo-nos aqui pelas quatro da tarde ?! … e näo tragas carro ou só conseguirás estacionamento na Colina.

    Francisco ficou a ver como ela entrava naquela casa … com o numero 13 na porta … muito adequado …

    Essa noite, Francisco, na sua casa, sentado em frente ao seu portátil, procurou páginas de Google sobre bruxas …

    Aprendeu muitas coisas … que as vassouras näo voavam … nunca tinham voado … nos akelarres, as tipicas reuniöes nocturnas de bruxas negras, no campo, à volta de uma fogueira, era necessário entrar em transe para chamar os “espiritos malignos” … algumas mulheres descobriram que se misturassem algumas ervas alucinogénicas e fizessem um chá com elas conseguiriam esse transe …

    No entanto a mistura saia täo forte que quem bebia morria por overdose … entäo … depois de algumas experiências, chegaram à conclusäo que com muito menos quantidade se conseguissem ingerir por via vaginal conseguiriam o efeito desejado … pegaram em vassouras … untaram o cabo de madeira com aquelas infusöes e sentavam-se neles como quem monta um cavalo … o forte efeito dava-lhes a sensaçäo de que estavam voando … e daí surgiu a lenda …

    Francisco gostou de aprender tudo aquilo … mas näo encontrou a explicaçäo que pretendia … donde vinha o apelido de “a serpente” …

    No dia seguinte, subiu a rua de Santa Maria do Castelo a pé, como lhe tinha aconselhado Ana.

    Encontrou-a à janela do segundo andar.

Olá, Francisco. desço agora mesmo.

    Estava ainda mais bonita que no dia anterior …

    Ao chegarem à Feira Medieval encontraram um panorama inesperado … era como viajar aos seculos XIII ou XIV … muito interessante …

Aprendeste muito esta noite ?!

Como ?!?!

As pesquisas que fizeste por internet … deram-te o que procuravas ?

Mas … !!! … Como o sabes ?!?!

Sou um bruxa … já esqueceste ?!

    Meninos pequenos jogavam na parte mais alta da muralha … usavam pequenas tábuas de madeira imitando as espadas …

Olha, Francisco. Ves aquele rapazito com a tshirt verde ?!

Sim. Olha que contente … como jogam …

Em menos de 10 minutos vai precisar da nossa ajuda.

A serio ?! …

Sim. Vamo-os aproximando dele.

    Agarrou-lhe a mäo e arrastou-o pela escada de pedra …

    Francisco deixou-se levar … parecia estar tudo normal … tudo muito tranquilo …

Socorro ! — era a voz desesperada de um miudo.

    Varias pessoas correram na sua direcçäo … Francisco era quem estava mais perto … esqueceu Ana …

Que se passa ?!

Carlos … caiu … estavamos a brincar e caiu … — apontava para o outro lado da muralha.

    Francisco apoiou-se numa das grandes pedras e olhou na direcçäo apontada.

    O pequeno da tshirt verde estava de boca para baixo … um pequeno movimento e sofreria uma queda de pelo menos 30 metros …

    O seu pé direito estava preso no que parecia ser um arbusto …

    Francisco desceu, utilizando os pequenos espaços entre as pedras e apoiado pelos ramos de uma árvore próxima … assim conseguiu chegar ao pequeno que o olhava com os olhos abertos de pânico …

Tranquilo, Carlos … estou contigo … agarra-te a mim …

    Entäo viu que o que segurava o pé do miudo näo era um arbusto … era algo redondo … de um amarelo torrado … e … mexia-se …

    Já tinha o rapaz bem agarrado quando apareceu a cabeça de uma serpente … aproximou-se da sua cara olhando-o nos olhos …

Leva-o para cima …

    Era a voz de Ana … uma voz carregada … cansada …

    Francisco fez subir Carlos … desde a muralha estavam já os pais dele que ajudaram no ultimo tramo … depois subiu Francisco.

Muito obrigado, senhor … que Deus lhe pague …

    Voltou a olhar para baixo a tempo de ver como a serpente se dirigia ao Miradouro de Säo Gens …

    Francisco desceu correndo as muitas escadas que o levavam até lá.

    Aí encontrou Ana, sentada num dos bancos de pedra.

Ana! Estás bem ?!?

    Ela esforçou um sorriso … estava exausta … a roupa suja de terra …

Vem, querida … levo-te a minha casa … eu cuidarei de ti.

    Ana olhou-o.

Pensei que te assustarias … que näo voltaria a ver-te …

Pois enganas-te-te … agora tenho ainda mais motivos para querer conhecer-te melhor.

    Tirou o seu casaco e colocou-o sobre os ombros de Ana … abraçou-a …

    Conhecia o Miradouro … sabia que tinha uma outra saida, mais abaixo … assim evitaria a multidäo da Feira.

    Ela encostou a cabeça no seu ombro … olharam-se com ternura …

    Francisco beijou-lhe, suavemente, os labios …

    Para ele seria o segredo mais bem guardado … o de … Ana … a serpente …


                            Fim ( ou quase )


    Segundo os relatos mais antigos parecem realmente existirem dois tipos de bruxas … a historia da lenda das mulheres em vassouras voadoras tem algumas teorias explicativas … mas a que se menciona neste relato é a que mais se aceita, hoje em dia … em todo o caso continua a haver gente que näo acredita em bruxas … mas que as há … !!! …


                    Fim ( agora sim )


.

.


No hay comentarios:

Publicar un comentario

O FIM ... OU ... O PRINCÍPIO ?! - jorge peres - 81

                                  O FIM … OU O PRINCÍPIO …      Fechei um dos olhos … com o outro tentei alinhar a pistola c...