ANA … a serpente …
Näo parava de pensar nela … era diferente … gira … com um bonito corpo, com os seus 30 anos ainda näo cumpridos …
Nada sabia dela, nem da sua vida … somente que se chamava Ana … que vivia inexplicavelmente sozinha …
Fazia bolos em casa, muito bons, que depois vendia na Pastelaria Colmeia, no centro da cidade.
A primeira vez que a viu … ficou muito nervoso … lembrava-se bem … foi no Centro Comercial Santiago … pequeno … escuro … tinha ido ao café do fundo e, ao entrar viu-a de imediato … sentada … só …
Logo gostou dela … cruzaram olhares … mas näo conseguiu reunir coragem para lhe falar …
Quando ela saiu perguntou ao rapaz do bar …
— Quem é ?!
---- É Ana … a serpente … cuidado ! … näo te convém …
— É só curiosidade.
O barmen sorriu …
Horas mais tarde encontraram-se no supermercado Pingo Doce … os dois chegaram ao mesmo tempo à fila da caixa …
Com cortesia imobilizou o seu carro de compras … permitiu que ela fosse na sua frente …
— Muito obrigada … é todo um cavalheiro …
— Por favor … é um prazer …
Enquanto esperavam ele decidiu iniciar conversa …
— Desculpa … sou Francisco …
— Um prazer, Francisco … eu sou Ana.
— Vi-te esta manhä no café …
— Sim. Eu tambem te vi.
Do supermercado sairam os dois como velhos amigos … combinaram tomar um café … depois do almoço …
E ali estava Francisco, numa das esplanadas das Docas … esperando que chegasse …
— Olá.
— Francisco levantou-se … näo sabia muito bem como cumprimenta-la … ela solucionou a sua duvida … tomou a iniciativa e deu-lhe dois beijos, um por cada face …
Falaram sem dar-se conta do tempo.
— Diz-me, Francisco … estás seguro que queres que te vejam comigo em público ?!
— Gosto da tua companhia … que tem de mal ?!
— Näo te avisaram sobre mim ?!
— Náo muito … ah! … disseram-me que tens um apelido curioso … “a serpente” …
— E disseram-te porque tenho esse apelido ?!
— Näo! E na verdade para mim é secundário …
Ana manteve-se uns momentos a olhar para ele em silêncio ...
— Já te deste conta que agora mesmo toda a gente olha para nós ?!
Francisco olhou dissimuladamente à sua volta … efectivamente as pessoas olhavam e falavam em surdina … e … o mais interessante … a esplanada estava cheia, com pessoas de pé esperando lugar … mas … as mesas imediatamente mais perto da sua estavam vazias …
— O que se passa com esta gente ?!?!
— Têm medo.
— De qué ?!?!
— De mim …
— Náo compreendo ! … como pode alguém ter medo de ti ?!?!
— Por alguma razäo me chamam Ana “a serpente” …
— E porquê esse nome ?!?
Ana duvidou se devia seguir com aquela conversa … Francisco era um bom rapaz … sentia algo por ele … mas näo sabia se, abrindo o jogo, ele näo sairia correndo … mas decidiu continuar …
— Diz-me uma coisa, Francisco. Que sabes tu de bruxas ?
A pergunta impactou no seu estomago como um murro …
— Bruxas ?!?! Queres dizer, videntes ?!?!
— Näo! Näo é o mesmo … as videntes têm o dom de ler o futuro … as bruxas podem mudar o presente …
— A ideia que tenho sobre bruxas … é que säo mulheres que viajam por aí sentadoas em vassouras …
Ana soltou uma pequena gargalhada …
— Viste o filme “Akelarre”, näo é verdade ?!
— Sim. — Francisco tambem sorria …
— Hoje em dia a realidade das bruxas é diferente.
— Vejo que sabes do tema.
— Eu sou uma bruxa, Francisco.
— O qué ?!?!
— Parece que todos aquí o sabem … menos tu …
— Explica-te …
— Existem dois tipos de bruxas … as brancas e as negras … as negras säo as mais conhecidas … recebem dinheiro por feitiços … conjuras … sempre a favor de umas e em contra de outras pessoas … as brancas säo o inverso … usam os seus poderes para fazer coisas positivas … nunca podem prejudicar ninguém …
— Estou seguro que, a ser uma bruxa, serás uma branca …
— Assim é, Francisco.
— E porque é que as pessoas têm medo de ti, sendo tu uma bruxa branca ?!
— Porque näo sabem a diferença … para a grande maioria, bruxas säo bruxas e pronto …
— Näo consigo imaginar-te a fazer mal a alguem …
— Obrigada … és um querido …
— E o apelido de “serpente” … de onde vem ?!!!?
— Vem da minha mäe … a ela tambem lhe chamavam assim … um dia conto-te … tudo a seu tempo … agora tenho que ir …
— Tenho o carro estacionado aqui perto … queres que te leve a casa ?
— Näo será muito incomodo para ti ?!
— Claro que näo !
— Entäo aceito … sempre me custa subir as ruas do castelo a pé.
Ao sair da esplanada fez-se um profundo silêncio … depois … enquanto se iam afastando, voltou o som das vozes.
Francisco parou à porta da casa que lhe indicou Ana.
— Obrigada, Francisco … voltaremos a ver-nos ?!
— É o que estava a pensar … amanhä é sábado e montam uma Feira Medieval aqui perto, no recinto interior da muralha do castelo … apetece-te que a visitemos juntos ?!
— Vejo que és corajoso !!!
— Nahhh! Sou apenas um pobre mortal … inocente … puro …
— Sim! Claro! Nisso näo acreditas nem tu mesmo … está bem … encontramo-nos aqui pelas quatro da tarde ?! … e näo tragas carro ou só conseguirás estacionamento na Colina.
Francisco ficou a ver como ela entrava naquela casa … com o numero 13 na porta … muito adequado …
Essa noite, Francisco, na sua casa, sentado em frente ao seu portátil, procurou páginas de Google sobre bruxas …
Aprendeu muitas coisas … que as vassouras näo voavam … nunca tinham voado … nos akelarres, as tipicas reuniöes nocturnas de bruxas negras, no campo, à volta de uma fogueira, era necessário entrar em transe para chamar os “espiritos malignos” … algumas mulheres descobriram que se misturassem algumas ervas alucinogénicas e fizessem um chá com elas conseguiriam esse transe …
No entanto a mistura saia täo forte que quem bebia morria por overdose … entäo … depois de algumas experiências, chegaram à conclusäo que com muito menos quantidade se conseguissem ingerir por via vaginal conseguiriam o efeito desejado … pegaram em vassouras … untaram o cabo de madeira com aquelas infusöes e sentavam-se neles como quem monta um cavalo … o forte efeito dava-lhes a sensaçäo de que estavam voando … e daí surgiu a lenda …
Francisco gostou de aprender tudo aquilo … mas näo encontrou a explicaçäo que pretendia … donde vinha o apelido de “a serpente” …
No dia seguinte, subiu a rua de Santa Maria do Castelo a pé, como lhe tinha aconselhado Ana.
Encontrou-a à janela do segundo andar.
— Olá, Francisco. desço agora mesmo.
Estava ainda mais bonita que no dia anterior …
Ao chegarem à Feira Medieval encontraram um panorama inesperado … era como viajar aos seculos XIII ou XIV … muito interessante …
— Aprendeste muito esta noite ?!
— Como ?!?!
— As pesquisas que fizeste por internet … deram-te o que procuravas ?
— Mas … !!! … Como o sabes ?!?!
— Sou um bruxa … já esqueceste ?!
Meninos pequenos jogavam na parte mais alta da muralha … usavam pequenas tábuas de madeira imitando as espadas …
— Olha, Francisco. Ves aquele rapazito com a tshirt verde ?!
— Sim. Olha que contente … como jogam …
— Em menos de 10 minutos vai precisar da nossa ajuda.
— A serio ?! …
— Sim. Vamo-os aproximando dele.
Agarrou-lhe a mäo e arrastou-o pela escada de pedra …
Francisco deixou-se levar … parecia estar tudo normal … tudo muito tranquilo …
— Socorro ! — era a voz desesperada de um miudo.
Varias pessoas correram na sua direcçäo … Francisco era quem estava mais perto … esqueceu Ana …
— Que se passa ?!
— Carlos … caiu … estavamos a brincar e caiu … — apontava para o outro lado da muralha.
Francisco apoiou-se numa das grandes pedras e olhou na direcçäo apontada.
O pequeno da tshirt verde estava de boca para baixo … um pequeno movimento e sofreria uma queda de pelo menos 30 metros …
O seu pé direito estava preso no que parecia ser um arbusto …
Francisco desceu, utilizando os pequenos espaços entre as pedras e apoiado pelos ramos de uma árvore próxima … assim conseguiu chegar ao pequeno que o olhava com os olhos abertos de pânico …
— Tranquilo, Carlos … estou contigo … agarra-te a mim …
Entäo viu que o que segurava o pé do miudo näo era um arbusto … era algo redondo … de um amarelo torrado … e … mexia-se …
Já tinha o rapaz bem agarrado quando apareceu a cabeça de uma serpente … aproximou-se da sua cara olhando-o nos olhos …
— Leva-o para cima …
Era a voz de Ana … uma voz carregada … cansada …
Francisco fez subir Carlos … desde a muralha estavam já os pais dele que ajudaram no ultimo tramo … depois subiu Francisco.
— Muito obrigado, senhor … que Deus lhe pague …
Voltou a olhar para baixo a tempo de ver como a serpente se dirigia ao Miradouro de Säo Gens …
Francisco desceu correndo as muitas escadas que o levavam até lá.
Aí encontrou Ana, sentada num dos bancos de pedra.
— Ana! Estás bem ?!?
Ela esforçou um sorriso … estava exausta … a roupa suja de terra …
— Vem, querida … levo-te a minha casa … eu cuidarei de ti.
Ana olhou-o.
— Pensei que te assustarias … que näo voltaria a ver-te …
— Pois enganas-te-te … agora tenho ainda mais motivos para querer conhecer-te melhor.
Tirou o seu casaco e colocou-o sobre os ombros de Ana … abraçou-a …
Conhecia o Miradouro … sabia que tinha uma outra saida, mais abaixo … assim evitaria a multidäo da Feira.
Ela encostou a cabeça no seu ombro … olharam-se com ternura …
Francisco beijou-lhe, suavemente, os labios …
Para ele seria o segredo mais bem guardado … o de … Ana … a serpente …
Fim ( ou quase )
Segundo os relatos mais antigos parecem realmente existirem dois tipos de bruxas … a historia da lenda das mulheres em vassouras voadoras tem algumas teorias explicativas … mas a que se menciona neste relato é a que mais se aceita, hoje em dia … em todo o caso continua a haver gente que näo acredita em bruxas … mas que as há … !!! …
Fim ( agora sim )
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