martes, 31 de enero de 2023

FELIZ ANO NOVO ... FILHO ... - jorge peres

 


.                      FELIZ ANO NOVO … FILHO …


    Aquele fim de tarde estava frio … um gelo de dezembro que convidava a todos a estar em casa … mas … nem todos podiam fazer isso … uns viajavam … outros aproveitavam o momento para comprar presentes … o Natal estava a 24 horas de distancia …

    Agostinho tinha uma profissäo inusual … näo tinha horarios … era arriscada … … era ladräo …

    Tinham-lhe dito que a moradora daquela vivenda unifamiliar da Avenida Nuno Alvares, quase junto à estaçäo da CP, näo estava …

    Era propriedade de una mulher, já de idade avançada …

    Era sua tradiçäo viajar até Lisboa passar as festividades com os filhos …

    Agostinho sentia-se tranquilo … seria uma operaçäo facil …

    A noite banhava já toda a cidade de Castelo Branco.

    Conhecedor do seu oficio, ele sabia que aqueles edificios tinham sistemas de segurança um tanto sofisticados … no entanto … tinham um ponto sensivel … a parte das traseiras … as portas de acesso do saläo para o jardim … eram as mais vulneraveis … para aí se dirigiu …

    Uma ventosa … um espigäo com ponta de diamante … um movimento circular e, rapidamente, conseguiu um buraco no vidro … o suficiente para meter o braço e girar o fecho da porta … foi tudo uma questäo de segundos …

    Tirou a lanterna que levava na mochila e uma bolsa grande …

    O saläo apresentava uns moveis e estantes de design antígo … pelo menos estilo seculo XIX … alguns objectos metálicos … poderiam ser de prata …

    Agostinho começou a encher o saco … näo havia muitas coisas que chamassem a sua atençäo, na verdade … procuraria noutras divisöes da casa …

    Na cozinha tambem näo haviam objectos de valor …

    Começou a pensar que o roubo daquela noite näo ficaria na sua já longa memoria profissional …

    Em pouco tempo chegaria à conclusäo de como estava enganado.

Quem é você ?!!! E o que faz na minha casa ?!!!!

    O som daquela voz estranhamente tranquila, na semi escuridäo, paralizou momentaneamente Agostinho …

    Havía gente em casa … as sua fontes estavam erradas …

    Apagou a lanterna ao mesmo tempo que se acendeu a luz da cozinha …

    A meio da porta estava uma mulher … entre os 80 e os 90 … näo tinha qualquer arma nas mäos … olhava-o fixamente … mas transmitia uma incrivel tranquilidade …

Boas noites … peço desculpa … pensava que näo estava ninguém …

E por isso entrou numa casa que näo é a sua?!! E, pelo que vejo … apropriou-se de artigos que tambem näo säo seus …

    Agostinho, pela primeira vez sentiu vergonha …

    A mulher continuava a olhar para ele …

O que se passa?! Perdeu a lingua ?!!

Para ser honesto sinto-me envergonhado …

Envergonhado ?!!! Você ?!!? Ninguem o obrigou ou convidou a entrar …

    A cara dele estava ruborizada …

    Sou viuva … vivo sozinha … isto parece-lhe justo ?!?

Peço desculpa …

Pede desculpa ?!? E já está ?!!? É tudo ?!!? Eu podia chamar a policia agora mesmo … tenho um botäo SOS …

Bem sei, senhora … peço-lhe que näo o faça … disseram-me que a senhora passaria o Natal na capital …

    A cara da mulher criou sombras …

Sim … era suposto … mas discuti com um dos meus filhos e ao outro, que é médico, tocou-lhe o turno de trabalho das fiestas … resta-me estar sozinha … senhor … … como se chama ?!

Agostinho.

Muito bem, Agostinho … eu sou Eugenia Preto … sabe o que é vivier sozinho ?!!?

Estaria encantado de tê-la conhecido noutra situaçäo, dona Eugenia … e sim … sei o que é viver sozinho …

Näo é casado, Agostinho ?!? … näo tem filhos ?!!?

Näo, senhora … vivo só … desde a minha ultima companheira já passaram uns dez anos …

E porque roubas as casas dos outros ? Queres que te prendam ?!

Na verdade é que uma vez estive quase a ser preso … mas nunca chegaram a apanhar-me …

Mas arriscas-te … és muito jovem … quantos anos tens ?!? 25 ?!? 30 ?!?

38 !

Es da idade do meu filho mais novo … olho-te nos olhos … e vejo um fundo bom …

Obrigado Dona Eugenia.

Tens onde passar a noite de Natal?

Em minha casa …

Sozinho ?

Sim …

    A mulher parou um pouco olhando-o …

Queres passar a noite de amanhä aquí comigo ?!

A senhora poderia perdoar-me ?!!?

Bem !! Na condiçäo de devolver tudo o que tens nesse saco aos seus lugares … e … que me prometas que, ao menos na minha casa, näo voltarás a roubar …

Aceito senhora … muitissimo obrigado … olhe … digo-lhe como se diz na minha terra … Bem haja …

Entäo espero por ti amanhä à tarde ?

Conte comigo, dona Eugenia …

    Meia hora depois tudo tinha voltado ao seu sitio …

Tapei o buraco do vidro com um pouco de plástico … día 26 mudarei todo o vidro …

Ok. Muito bem.

    Eugenia imaginava que näo voltaria a ver aquele rapaz … mas sentia-se bem consigo mesma … de que lhe serviria ter chamado as autoridades e vê-lo sair da sua casa algemado ?!

    Tudo o que passou a ajudou a esquecer, ainda que por momentos, a sua dor e a sua tristeza … mas, ao voltar o silencio … a solidäo, de novo, pesava …


                                ----------//--------


    Pelas 06 horas da tarde do dia seguinte soou a campainha da porta de entrada.

    Ao abrir surpreendeu-se … na sua frente tinha Agostinho …

    Parecia outro … muito bem vestido … na mäo trazia uma bolsa …

Agostinho! Sinceramente näo acreditava que viesses …

Um acordo é um acordo, dona Eugenia.

Isso já está esquecido … rapaz … que näo te sintas na obrigaçäo de passar a noite de Natal com uma velha …

Gosto da ideia … a senhora faz-me lembrar a minha falecida mäe …

Entäo entra, homem … vejo que trazes uma bolsa … assaltaste outra casa antes de vir para aquí ?!!

Näo, senhora … juro que näo …

    Eugenia sorriu-lhe …

Vem para a sala … acendi a lareira.

    Agostinho foi direito à mesa e começou a tirar coisas da misteriosa bolsa negra que trazia … um bolo rei … duas caixas de chocolates … e, um jogo de luzes para enfeitar a arvore de Natal que tinha visto num canto escuro da sala …

    A mulher olhava-o emocionada …

Muito obrigada, Agostinho … em boa verdade és um poço de surpresas …

    Em pouco tempo estavam a comer o bacalhau com couves, tradicional naquela data.

    Agostinho falou-lhe da sua vida … Eugenia contou-lhe a historia da desavença com um dos seus filhos …

    Compartiram sorrisos … e lágrimas …

Dona Eugenia … permite-me uma sugestäo ?!

Claro que sim, Agostinho … diz tudo o que queiras …

Ainda está a tempo de salvar o que falta desta noite …

Näo compreendo … fala claro …

Porque näo liga para o seu filho e lhe deseja um Feliz Natal ?!

Sabes ?! Penso que a relaçäo com o meu filho já näo tem soluçäo …

Tudo tem soluçäo, Dona Eugenia …

Isto … parece-me que näo …

Olhe … pense um pouco … ontem eu era um miseravel ladräo qu entrou em sua casa para roubar … … hoje sou um convidado seu e estou sentado à sua mesa … quando a senhora conseguiu este milagre … de certeza que consegue outros …

    Eugenia uma vez mais o olhou em silencio … começava a sentir que, aquela pessoa que conhecera em täo estranha situaçäo, estava-se transformando na voz da sua consciencia …

    Com um movimento decidido agarrou o telemovel e marcou o numero …

Olá … é só para desejar-te um Bom Natal … e um feliz Ano Novo, filho …


                                        fim


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