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COISAS DE SANGUE
O regresso a casa sempre era uma odisseia …
Gostava muito das aulas no Liceu … mas … quando se aproximava a hora de voltar a casa … apoderava-se dela um medo … quase pânico …
Essa era a vida de segunda a sexta de Catarina Durães … quase 15 anos … e um olhar cheio de sonhos …
Estatura média e uma timidez que lhe saía pelos poros da pele … sofria o assédio de alguns dos seus companheiros de aula … metiam-se com ela … ridicularizavam-na em público …
Mas isso ela ia conseguindo superar e contornar …
O pior era que à saída eles perseguiam-na até casa … na zona mais reciente da Carapalha …
Davam-lhe medo aquelas situações que chegavam a transformar-se em ameaças de morte …
Jorge, o seu amigo de sempre a que ela chamava … o seu irmão de coração … era o único que conhecia essa sua realidade …
Sempre lhe repetia o mesmo …
--- Tu revolta-te … defende-te … não fiques calada …
Mas o medo que sentia naqueles momentos impedia-a de falar … não dizia absolutamente nada …
Começava o inverno e os dias eram cada vez mais curtos … às 18 ou 19 horas já era noite cerrada …
Aquela tarde de 20 de dezembro iria mudar profundamente toda a sua vida …
Tinha-se entretido a falar com Jorge …
Por um lado perdia sempre a noção do tempo quando falava com ele … por outro … tinha-se atrasado intencionalmente com a esperança de que saindo um pouco mais tarde o grupo abusador já se fora …
Mas enganava-se … estavam à sua espera … e começou o “baile” diário …
--- Mas vamos a ver, ranhosa … já estavamos fartos de estar à tua espera … onde estavas ?! Eh !! Espera ! Tens que nos ouvir … porquita … espera por nós !
O dia não lhe correra especialmente bem … o seu poder encaixe estava enfraquecido … à cabeça vieram-lhe os conselhos de Jorge …
De repente parou … deu meia volta … começou a andar na direcção do grupo …
--- Que querem ?! São uns pedaços de animais … estou farta de ouvir o mesmo todos os dias … --- Catarina estava furiosa --- que querem ?!! Luta?! Pois hoje vai haver luta --- atirou com tudo o que levava nas mãos --- Vamos cabrões … aquí estou … !!!
A primeira reacção do grupo, eram cinco, tres raparigas e dois rapazes, foi ficar parado … surpreendidos com a actitude dela …
Depois começaram a rodeá-la em silêncio …
Catarina sentiu o primeiro murro nas costas … logo depois outro na cabeça … perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos …
Uma das raparigas deu-lhe um golpe … um pontapé acertou-lhe de novo na cabeça … ainda conseguiu ver como um dos rapazes se aproximava com um tubo que lhe pareceu de metal … sentiu o primeiro golpe … ao segundo já estava inerte no chão … já não se deu conta de como a pisavam nem das outras pancadas por todo o corpo …
À sua volta começava a aparecer um charco de sangue …
--- Parem !!! está morta … !!! … que fizemos ?!!?!??
--- Teve o que merecia …
--- A ideia era só assusta-la … isto saíu do nosso controle …
Uma das raparigas pegou nos braços de Catarina e arrastou-a até à valeta … depois … todos correram em direcção ao centro da cidade …
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Victor ia avançando lentamente, com a janela do carro aberta, apesar do frio … tentava orientar-se … cheirava-lhe a sangue fresco … e não estava longe …
O cheiro ia aumentando de intensidade ,,, outra pessoa nem se daria conta … mas ele não era uma pessoa qualquer …
Todos o conheciam por Victor … o esquisito … mas … poucas pessoas conheciam o seu grande segredo … o habitante daquela casa, também estranha, que se via à direita, mesmo depois da “Casa dos emblemas”, na antiga saída de Castelo Branco, era, na verdade … um vampiro …
Por isso podia cheirar sangue … não podia evitá-lo …
Parou o carro e saiu … no chão rapidamente encontrou o sangue de Catarina …
Tocou-lhe com os dedos e levou-os à boca … sangue adolescente … recente … começava a coagular …
Via-se que tinham arrastado algo … ou alguem …
Seguiu os vestígios … encontrou-a …
Tomou-a em braços … o coração ainda batia … mas muito suave …
Meteu-a no carro … o melhor era levá-la para sua casa …
Alguns minutos mais tarde limpava-lhe as feridas … tinha perdido muito sangue … as feridas da cabeça eram muito profundas … pelo menos tinha umas 3 costelas partidas …
Depois meteu-a na sua cama e ficou a olhar para ela …
À memória veio-lhe a figura de Eloisa … há muitos muitos anos, de uma relação com uma humana, nasceu-lhe uma filha … curiosamente não partilhavam todos os cromossomas e ela saiu humana normal …
Eloisa teria mais ou menos a mesma idade da rapariga que estava agora na sua cama quando lhe foi diagnosticada leucemia … incurável …
Passou horas olhando para ela vendo-a morrer … sabia que um pequeno mordisco a poderia salvar … mas também era muita responsabilidade … duvidou … pensou muito … ela morreu … prácticamente nos seus braços …
Jamais se tinha perdoado a si mesmo …
Agora … passados tantos anos … voltava a acontecer-lhe o mesmo … esta jovem não tinha a minima possibilidade de sobreviver às suas feridas …
Mas desta vez não permitiria que passasse o mesmo …
Tomou a decisão …
Aproximou-se da cama … abriu-lhe os primeiros botões da camisa … à sua frente apareceu-lhe o branco e suave pescoço de Catarina … então espetou os seus caninos e sugou um pouco de sangue …
Estava feito … agora tinha que esperar …
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Quando abriu os olhos, Catarina sentiu-se estranha … não tinha dores …
Lembrava-se da tareia … ao menos do princípio …
Também não reconhecia onde estava …
Sentou-se na cama … tinha vestida uma camisa de homem … uma camisa bem grande …
Foi passando os olhos pelo quarto … num pequeno sofá um homem olhava para ela … não o conhecia …
--- Olá. Como te sentes ? --- uma voz grave … tranquila …
--- Olá … sinto-me bem … esquisita … mas bem …
--- De certeza que não tens dores ?!
--- Sim … de certeza … porquê ?! … Deveria ?!
--- Bem ! … Encontrei-te quase morta … tinhas fractura cranioencefálica … costelas partidas … alguns orgãos internos afectados … alguns vitais, como o fígado e um dos pulmões … e, claro … tinhas perdido muito sangue … o coração começava a falhar-te …
--- Caramba … Esse diagnóstico parece mortal … vou morrer ?!!?
--- Não !
--- E como não ?! Se toda essa lista que disseste é real … porque não tenho dores ?!
--- Estás curada.
--- Curada ?! Quem me curou ?!
--- Eu !
--- E quem és tu ?!!?
--- Sou Victor.
Agora se lembrava … ele era de quem muitos falavam … Victor … o …
--- O esquisito … sim … sou eu …
--- Como sabes o que estava a pensar ?
--- É uma história longa …
--- Dado que me salvaste … mereço algumas respostas …
--- Tudo a seu tempo.
--- Já tinha ouvido falar de ti … há quem diga que …
--- Que sou um vampiro! … sim … é verdade …
Catarina soltou uma gargalhada … mas notou que a expressão facial de Victor permaneceu inalterável …
--- Falas a sério ?!--- Sim !
--- E … como me salvaste ?!
--- De certeza que queres saber ?! Já ?!
Instintivamente ela levou a mão ao pescoço … sentiu dois pequenos orificios já quase fechados …
Não podia acreditar … há poucas horas nem acreditava em vampiros … agora era um deles ?!!?
--- Converteste-me em …
--- Era isso … ou a tua morte … decidi que vivirias …
--- E porquê ?! Não me conheces … Porque motivo ma salvaste a vida ?!!
Sempre com ar sereno, Victor contou-lhe a história de Eloise …
A Catarina custou-lhe aceitar a sua nova situação … mas tinha consciência que a outra alternativa era muito pior …
--- E agora ?!
--- Agora estás quase recuperada. Necessitas da tua primeira dose de sangue. Depois irás para tua casa e farás a tua vida normal. Todos os dias precisarás de beber sangue. Vens aqui e eu te proporcionarei.
Enquanto falava aproximou-se de um grande frigorífico com código de acesso … de dentro tirou uma bolsa de sangue …
--- Toma a tua primeira dose.
--- Parece uma bolsa como as que usam no hospital para as transfusões …
Victor olhou para ela … na sua cara desenhou-se um pequeno sorriso … pequeno e de curta duração …
Ao sair da casa, Catarina ligou o telemóvel … tinha muitas chamadas … gente preocupada … como os seus pais … compreensível … estava desaparecida há mais de 24 horas …
As horas seguintes dedicou-as aos seus progenitores … inventou uma história … a primeira que lhe veio à cabeça … não parecia muito credível … mas a alegria deles ao vê-la de volta a casa superou todos os interrogantes ….
Essa mesma tarde ligou para o seu amigo/irmão Jorge …
--- Catarina !! … Que alegria ouvir-te … que te aconteceu ?!! … aqui no Liceu disseram que tinhas morrido …
--- A ti parece-te que esta é a voz de uma morta ?!
--- Claro que não !
--- Temos que nos ver … tenho muito para te contar …
Encontraram -se no dia seguinte depois das aulas … uma conversa difícil … tal como difícil foi convencer Jorge do que lhe havia passado …
--- Vamos lá a ver … Caty … tudo isso, compreenderás, é muito difícil de aceitar … os Lobos dizem que te deram forte …
--- Os Lobos ?!!?
--- Sim … foi o nome que pusémos a essa pandilha de anormais que te chateia todos os dias …
--- Pois aquí estou … viva e saltando … com mais vidas do que uma gata …
Jorge olhava-a entre a admiração e a incredulidade …
De repente soou o seu telemóvel …
Agarrou-o tão bruscamente que este lhe saltou das mãos caindo e deslizando até debaixo de um carro estacionado …
--- Gaita ! Agora tenho que deitar-me no chão para chegar a ele … vou-me sujar todo de barro …
Sem pensar, Catarina agarrou o veículo, à altura da roda, e levantou-o como se fosse uma simples cadeira …
Jorge ficou paralizado … olhos muito abertos … não acreditava no que viam os seus olhos …
--- Vamos! Apanha-o !
Agora já não tinha dúvidas …
--- E que mais podes fazer, Caty ?!
--- Ainda não sei bem … nem sequer sabia que podia fazer isto … … saiu-me assim …
--- Fantástico …. temos que conhecer realmente até onde chegam os teus novos “poderes!” …
--- Uauu ! Como soa isso … até parece que pertenço ao universo Marvel …
Nesse momento Catarina ficou muito séria …
--- Que se passa ?!
--- Vem aí Marisa …
--- Uma dos Lobos ?!
--- Sim … e vai passar mesmo pela nosse frente …
Jorge olhou em todas as direcções … não se via ninguém … não ouvia nada de anormal …
Passaram alguns minutos quando a figura da rapariga apareceu ao fundo do passeio …
--- Caramba … tinhas razão …
Catarina não lhe respondeu … levantou-se de um salto e, como um raio, agarrou a moça por um braço e arrastou-a para um jardim perto …
--- Caty … não !!! --- Jorge correu atrás delas …
Catarina empurrou-a e quando ela caiu no chão sentou-se em cima do seu peito diante dos olhos atónitos de medo da rapariga …
--- Estás !!! … Estás … !!!
--- Viva ?! Sim … e agora mesmo sou o teu maior pesadelo …
Nem se dava conta de comol he crescian os dentes caninos … nem de como se alongavam as unhas … só queria vingança … matá-la …
Levantou o braço … um deslizar daquelas unhas por aquele pescoço … e tudo terminaria …
--- Caty pára ! … Não faças isso … !!!
--- Sai daqui, Jorge !
--- Não … não podes matá-la … tu não es assim, Caty … …
--- Enganas-te … irmão … eu não era assim … agora sou diferente …
--- Não, Caty … pensa … esta gente é monstruosa … quase te mataram …
--- Bem sei … por isso chegou a hora da vingança …
--- Espera Caty … se fazes isso … em que serás diferente deles ?!!? Não podes … Não deves …
Jorge abraçou-a por detrás …
--- Vem … ela já está bastante assustada … deixa-a ir … contará o que se passou … não acreditarão nela … mas te respeitarão …
Pouco a pouco, as unhas e os dentes de Catarina, voltaram, ao normal …
Levantou-se e olhou a Marisa nos olhos …
--- Vai-te embora daqui … lembra-te sempre deste dia …
A rapariga saiu correndo …
Ela abraçou a Jorge … como sempre … era o amigo que a chamava à razão … que a tranquilizava …
Abria-se para ela uma longa vida nova … coisas do destino … coisas de sangue …
fim
correctora: MARIA PERES

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