domingo, 9 de abril de 2023

COISAS DE SANGUE - 73 - jorge peres

 


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                            COISAS DE SANGUE


    O regresso a casa sempre era uma odisseia …

    Gostava muito das aulas no Liceu … mas … quando se aproximava a hora de voltar a casa … apoderava-se dela um medo … quase pânico …

    Essa era a vida de segunda a sexta de Catarina Durães … quase 15 anos … e um olhar cheio de sonhos …

    Estatura média e uma timidez que lhe saía pelos poros da pele … sofria o assédio de alguns dos seus companheiros de aula … metiam-se com ela … ridicularizavam-na em público …

    Mas isso ela ia conseguindo superar e contornar …

    O pior era que à saída eles perseguiam-na até casa … na zona mais reciente da Carapalha …

    Davam-lhe medo aquelas situações que chegavam a transformar-se em ameaças de morte …

    Jorge, o seu amigo de sempre a que ela chamava … o seu irmão de coração … era o único que conhecia essa sua realidade …

    Sempre lhe repetia o mesmo …

    --- Tu revolta-te … defende-te … não fiques calada …

    Mas o medo que sentia naqueles momentos impedia-a de falar … não dizia absolutamente nada …

    Começava o inverno e os dias eram cada vez mais curtos … às 18 ou 19 horas já era noite cerrada

    Aquela tarde de 20 de dezembro iria mudar profundamente toda a sua vida …

    Tinha-se entretido a falar com Jorge …

    Por um lado perdia sempre a noção do tempo quando falava com ele … por outro … tinha-se atrasado intencionalmente com a esperança de que saindo um pouco mais tarde o grupo abusador já se fora …

    Mas enganava-se … estavam à sua espera … e começou o “baile” diário …

    --- Mas vamos a ver, ranhosa … já estavamos fartos de estar à tua espera … onde estavas ?! Eh !! Espera ! Tens que nos ouvir … porquita … espera por nós !

    O dia não lhe correra especialmente bem … o seu poder encaixe estava enfraquecido … à cabeça vieram-lhe os conselhos de Jorge …

    De repente parou … deu meia volta … começou a andar na direcção do grupo …

    --- Que querem ?! São uns pedaços de animais … estou farta de ouvir o mesmo todos os dias … --- Catarina estava furiosa --- que querem ?!! Luta?! Pois hoje vai haver luta --- atirou com tudo o que levava nas mãos --- Vamos cabrões … aquí estou … !!!

    A primeira reacção do grupo, eram cinco, tres raparigas e dois rapazes, foi ficar parado … surpreendidos com a actitude dela …

    Depois começaram a rodeá-la em silêncio …

    Catarina sentiu o primeiro murro nas costas … logo depois outro na cabeça … perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos …

    Uma das raparigas deu-lhe um golpe … um pontapé acertou-lhe de novo na cabeça … ainda conseguiu ver como um dos rapazes se aproximava com um tubo que lhe pareceu de metal … sentiu o primeiro golpe … ao segundo já estava inerte no chão … já não se deu conta de como a pisavam nem das outras pancadas por todo o corpo …

    À sua volta começava a aparecer um charco de sangue …

    --- Parem !!! está morta … !!! … que fizemos ?!!?!??

    --- Teve o que merecia …

    --- A ideia era só assusta-la … isto saíu do nosso controle

    Uma das raparigas pegou nos braços de Catarina e arrastou-a até à valeta … depois … todos correram em direcção ao centro da cidade …


                                ----------//----------


    Victor ia avançando lentamente, com a janela do carro aberta, apesar do frio … tentava orientar-se … cheirava-lhe a sangue fresco … e não estava longe …

    O cheiro ia aumentando de intensidade ,,, outra pessoa nem se daria conta … mas ele não era uma pessoa qualquer …

    Todos o conheciam por Victor … o esquisito … mas … poucas pessoas conheciam o seu grande segredo … o habitante daquela casa, também estranha, que se via à direita, mesmo depois da “Casa dos emblemas”, na antiga saída de Castelo Branco, era, na verdade … um vampiro …

    Por isso podia cheirar sangue … não podia evitá-lo …

    Parou o carro e saiu … no chão rapidamente encontrou o sangue de Catarina …

    Tocou-lhe com os dedos e levou-os à boca … sangue adolescente … recente … começava a coagular …

    Via-se que tinham arrastado algo … ou alguem …

    Seguiu os vestígios … encontrou-a …

    Tomou-a em braços … o coração ainda batia … mas    muito suave …

    Meteu-a no carro … o melhor era levá-la para sua casa …

    Alguns minutos mais tarde limpava-lhe as feridas … tinha perdido muito sangue … as feridas da cabeça eram muito profundas … pelo menos tinha umas 3 costelas partidas …

    Depois meteu-a na sua cama e ficou a olhar para ela …

    À memória veio-lhe a figura de Eloisa … há muitos muitos anos, de uma relação com uma humana, nasceu-lhe uma filha … curiosamente não partilhavam todos os cromossomas e ela saiu humana normal …

    Eloisa teria mais ou menos a mesma idade da rapariga que estava agora na sua cama quando lhe foi diagnosticada leucemia … incurável …

    Passou horas olhando para ela vendo-a morrer … sabia que um pequeno mordisco a poderia salvar … mas também era muita responsabilidade … duvidou … pensou muito … ela morreu … prácticamente nos seus braços …

    Jamais se tinha perdoado a si mesmo …

    Agora … passados tantos anos … voltava a acontecer-lhe o mesmo … esta jovem não tinha a minima possibilidade de sobreviver às suas feridas …

    Mas desta vez não permitiria que passasse o mesmo …

    Tomou a decisão …

    Aproximou-se da cama … abriu-lhe os primeiros botões da camisa … à sua frente apareceu-lhe o branco e suave pescoço de Catarina … então espetou os seus caninos e sugou um pouco de sangue …

    Estava feito … agora tinha que esperar …


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    Quando abriu os olhos, Catarina sentiu-se estranha … não tinha dores …

    Lembrava-se da tareia … ao menos do princípio …

    Também não reconhecia onde estava …

    Sentou-se na cama … tinha vestida uma camisa de homem … uma camisa bem grande …

    Foi passando os olhos pelo quarto … num pequeno sofá um homem olhava para ela … não o conhecia …

    --- Olá. Como te sentes ? --- uma voz grave … tranquila …

    --- Olá … sinto-me bem … esquisita … mas bem …

    --- De certeza que não tens dores ?!

    --- Sim … de certeza … porquê ?! … Deveria ?!

    --- Bem ! … Encontrei-te quase morta … tinhas fractura cranioencefálica … costelas partidas … alguns orgãos internos afectados … alguns vitais, como o fígado e um dos pulmões … e, claro … tinhas perdido muito sangue … o coração começava a falhar-te …

    --- Caramba … Esse diagnóstico parece mortal … vou morrer ?!!?

    --- Não !

    --- E como não ?! Se toda essa lista que disseste é real … porque não tenho dores ?!

    --- Estás curada.

    --- Curada ?! Quem me curou ?!

    --- Eu !

    --- E quem és tu ?!!?

    --- Sou Victor.

    Agora se lembrava … ele era de quem muitos falavam … Victor … o …

    --- O esquisito … sim … sou eu …

    --- Como sabes o que estava a pensar ?

    --- É uma história longa …

    --- Dado que me salvaste … mereço algumas respostas …

    --- Tudo a seu tempo.

    --- Já tinha ouvido falar de ti … há quem diga que …

    --- Que sou um vampiro! … sim … é verdade …

    Catarina soltou uma gargalhada … mas notou que a expressão facial de Victor permaneceu inalterável …

    --- Falas a sério ?!--- Sim !

    --- E … como me salvaste ?!

    --- De certeza que queres saber ?! Já ?!

    Instintivamente ela levou a mão ao pescoço … sentiu dois pequenos orificios já quase fechados …

    Não podia acreditar … há poucas horas nem acreditava em vampiros … agora era um deles ?!!?

    --- Converteste-me em …

    --- Era isso … ou a tua morte … decidi que vivirias …

    --- E porquê ?! Não me conheces … Porque motivo ma salvaste a vida ?!!

    Sempre com ar sereno, Victor contou-lhe a história de Eloise …

    A Catarina custou-lhe aceitar a sua nova situação … mas tinha consciência que a outra alternativa era muito pior …

    --- E agora ?!

    --- Agora estás quase recuperada. Necessitas da tua primeira dose de sangue. Depois irás para tua casa e farás a tua vida normal. Todos os dias precisarás de beber sangue. Vens aqui e eu te proporcionarei.

    Enquanto falava aproximou-se de um grande frigorífico com código de acesso … de dentro tirou uma bolsa de sangue …

    --- Toma a tua primeira dose.

    --- Parece uma bolsa como as que usam no hospital para as transfusões …

    Victor olhou para ela … na sua cara desenhou-se um pequeno sorriso … pequeno e de curta duração …

    Ao sair da casa, Catarina ligou o telemóvel … tinha muitas chamadas … gente preocupada … como os seus pais … compreensível … estava desaparecida mais de 24 horas …

    As horas seguintes dedicou-as aos seus progenitores … inventou uma história … a primeira que lhe veio à cabeça … não parecia muito credível … mas a alegria deles ao vê-la de volta a casa superou todos os interrogantes ….

    Essa mesma tarde ligou para o seu amigo/irmão Jorge …

    --- Catarina !! … Que alegria ouvir-te … que te aconteceu ?!! … aqui no Liceu disseram que tinhas morrido …

    --- A ti parece-te que esta é a voz de uma morta ?!

    --- Claro que não !

    --- Temos que nos ver … tenho muito para te contar …

    Encontraram -se no dia seguinte depois das aulas … uma conversa difícil … tal como difícil foi convencer Jorge do que lhe havia passado …

    --- Vamos a ver … Caty … tudo isso, compreenderás, é muito difícil de aceitar … os Lobos dizem que te deram forte …

    --- Os Lobos ?!!?

    --- Sim … foi o nome que pusémos a essa pandilha de anormais que te chateia todos os dias …

    --- Pois aquí estou … viva e saltando … com mais vidas do que uma gata

    Jorge olhava-a entre a admiração e a incredulidade …

    De repente soou o seu telemóvel …

    Agarrou-o tão bruscamente que este lhe saltou das mãos caindo e deslizando até debaixo de um carro estacionado …

    --- Gaita ! Agora tenho que deitar-me no chão para chegar a ele … vou-me sujar todo de barro …

    Sem pensar, Catarina agarrou o veículo, à altura da roda, e levantou-o como se fosse uma simples cadeira …

    Jorge ficou paralizado … olhos muito abertos … não acreditava no que viam os seus olhos …

    --- Vamos! Apanha-o !

    Agora já não tinha dúvidas …

    --- E que mais podes fazer, Caty ?!

    --- Ainda não sei bem … nem sequer sabia que podia fazer isto … … saiu-me assim …

    --- Fantástico …. temos que conhecer realmente até onde chegam os teus novos “poderes!” …

    --- Uauu ! Como soa isso … até parece que pertenço ao universo Marvel …

    Nesse momento Catarina ficou muito séria …

    --- Que se passa ?!

    --- Vem aí Marisa …

    --- Uma dos Lobos ?!

    --- Sim … e vai passar mesmo pela nosse frente …

    Jorge olhou em todas as direcções … não se via    ninguém … não ouvia nada de anormal …

    Passaram alguns minutos quando a figura da rapariga apareceu ao fundo do passeio …

    --- Caramba … tinhas razão …

    Catarina não lhe respondeu … levantou-se de um salto e, como um raio, agarrou a moça por um braço e arrastou-a para um jardim perto …

    --- Caty … não !!! --- Jorge correu atrás delas …

    Catarina empurrou-a e quando ela caiu no chão sentou-se em cima do seu peito diante dos olhos atónitos de medo da rapariga …

    --- Estás !!! … Estás … !!!

  --- Viva ?! Sim … e agora mesmo sou o teu maior pesadelo …

    Nem se dava conta de comol he crescian os dentes caninos … nem de como se alongavam as unhas … só queria vingança … matá-la …

    Levantou o braço … um deslizar daquelas unhas por aquele pescoço … e tudo terminaria …

    --- Caty pára ! … Não faças isso … !!!

    --- Sai daqui, Jorge !

    --- Não … não podes matá-la … tu não es assim, Caty …   

    --- Enganas-te … irmão … eu não era assim … agora sou diferente …

    --- Não, Caty … pensa … esta gente é monstruosa … quase te mataram …

    --- Bem sei … por isso chegou a hora da vingança …

    --- Espera Caty … se fazes isso … em que serás diferente deles ?!!? Não podes … Não deves …

    Jorge abraçou-a por detrás …

    --- Vem … ela já está bastante assustada … deixa-a ir … contará o que se passou … não acreditarão nela … mas te respeitarão …

    Pouco a pouco, as unhas e os dentes de Catarina, voltaram, ao normal …

    Levantou-se e olhou a Marisa nos olhos …

    --- Vai-te embora daqui … lembra-te sempre deste dia …

    A rapariga saiu correndo …

    Ela abraçou a Jorge … como sempre … era o amigo que a chamava à razão … que a tranquilizava …

    Abria-se para ela uma longa vida nova … coisas do destino … coisas de sangue …



                                    fim


correctora: MARIA PERES

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